Percorrer a Galeria do Rock de Fortaleza é exercício da memória afetiva e artística

A galeria do Rock é nossa parceira e confidente da memória ressignificada nos espaços simbólicos e materiais da existência, incluindo suas paredes surradas, as escadas e o elevador

Foto: Antonio Laudenir

As cidades pulsam vida entre o amanhecer e o anoitecer de todos os dias. Elas se definem pela relação entre pessoas e coisas, coisas e pessoas. O ritmo frenético do cotidiano que mistura gostos de diferentes tipos de renda, os enclaves geográficos, as oscilações de temperatura, os monumentos, o vai e vem dos meios de transporte, o buzinaço desnecessário etc, configuram os fluxos entre culturas, percepções e meio ambiente.

O olhar atento do transeunte, a escuta sonora e as expressões corporais (re) criam o mapa simbólico de uma memória materializada.

Pelos labirintos dessa memória percorremos entre imagens, sons, narrativas inacabadas, porões interiores revisitados em um momento decisivo, marcado pela pandemia do século XXI, que nos lança à ressignificação de si, do “outro” e da vida citadina. Tudo isso se reflete nas trocas comerciais, mediadas ou não pelo dinheiro e o sistema delivery, mas, acima de tudo, embaladas por galerias percorridas dentro de tantos indivíduos, assim como eu, cidadãos e consumidores, produtos e produtores de culturas, como por exemplo, aqueles afinados com a arte musical.

Lançar-se em busca dos nossos territórios existenciais e afetivos no universo musical, desperta no corpo o passado, o presente e as perspectivas de futuro na galeria do rock Metal, especificamente aquela materializada no centro de Fortaleza, situada na Galeria Pedro Jorge, número 834, e revisitada por mim para fins de elaboração desta reflexão.

Seja durante a semana ou nas agitadas manhãs de sábado, cujos cenários se assemelham ao que descrevi no início dessa reflexão, experienciamos o cheiro, as cores, o design e as pessoas que por ali transitam. Desta vez, além da presença marcante da cor preta no vestuário, as máscaras se apresentam como acessório obrigatório no contexto atual. As placas que anunciam os mais diferentes tipos de lojas, alternam-se entre o comércio praticado pelos evangélicos, tatuadores, pelas culturas juvenis e uma infinidade de outras trocas. É a minha memória andarilha, ora como flâneur, ora como pesquisadora.

Assim como na música, a arte do encontro é potente. A galeria é um território vibrátil em conjunto com os corpos que por lá circulam. Dos amigos frequentadores de shows antes da pandemia, passando por aqueles que a visitam como o espaço no qual o Rock jamais morrerá até os sujeitos afinados com o K-Pop, multiplicam-se as linhas de memória da arte, dos encontros, do comércio e da vida.

Entre um corredor e outro, caminhei entre os jovens com camisas de bandas reconhecidas internacionalmente; em alguma loja, um ou outro adentrou e perguntou, até de forma desconcertada e falando alto, por uma camiseta, um CD ou algo que traduzisse o gosto musical. Mais à frente, conforme observei, de forma sutil mãe e filho buscavam o presente alusivo ao dia das crianças, firmando na paisagem tida por muitos como exótica, um tipo familiar, acolhedor e sem a sofisticação do shopping center.

Legenda: A galeria do Rock de Fortaleza resiste à euforia da virtualização dos corpos, dos encontros e das histórias
Foto: Thiago Gadelha

Na medida em que eu (re) encontrava alguns amigos, perguntávamos pela saúde e o emprego, para depois introduzirmos as perguntas de antes, relacionadas ao mundo da música do Rock (e do rock Metal). Aqui, a galeria do Rock é nossa parceira e confidente da memória ressignificada nos espaços simbólicos e materiais da existência, incluindo suas paredes surradas, as escadas e o elevador.

A dialética da vida atormentada por uma pandemia, impactou nossas narrativas do presente, mas sem precisar de tantas elaborações sobre o amanhã. Conforme eu escutei de várias pessoas que encontrei ali, nesse momento de retomada do comércio no centro de Fortaleza, o importante “é estarmos vivos”.

Uma memória que não pulsa vida e que não se preza ao estilo “caixinha de Pandora”, compromete a força cultural das narrativas imagéticas, sonoras e verbais, dinâmicas estas que se refletirão nos bens materiais e imateriais que contam sobre nós e os “outros”.

A galeria do Rock de Fortaleza resiste à euforia da virtualização dos corpos, dos encontros e das histórias. Ela não existe por si própria, e sim, por meio de elipses, lapsos e do presente que nos apontam sutilmente para onde caminham as cidades, as coisas e as pessoas, especialmente no universo artístico musical e comercial.

Dra. Abda Medeiros é antropóloga,  docente/ integrante do Núcleo de Extensão da FVJ. Participante dos Grupos e Diretórios de Pesquisa na UFC, UERJ, UFF, UNILAB e FIOCRUZ. Colaboradora na Associação Cultural Cearense do Rock (ACR).