Renato Aragão chega aos 85 anos com legado único na área do entretenimento nacional

Amado por várias gerações de brasileiros, o cearense que faz aniversário amanhã, ainda inspira novos profissionais da cena da comédia

Legenda: Humorista cearense, nascido em Sobral, Renato Aragão completa 85 anos de vida amanhã (13)
Foto: FOTO: TV GLOBO/MATHEUS CABRAL

A data do nascimento foi decisiva no batismo. O caçula entre os oito filhos de Paulo Ximenes Aragão e Dinorá Lins chegava ao mundo num 13 de janeiro. O dia alui diretamente às celebrações de Santo Antônio, entidade casamenteira dos católicos. Porém, no caso de Antônio Renato Aragão a premissa era oferecer proteção.

O menino sobralense, de pais influentes nas letras (Ximenes era escritor e Dinorá professora) hoje é um senhor comemorando 85 anos de vida. As facetas foram inúmeras. Advogado, ator, roteirista, produtor, cineasta, escritor, empresário, embaixador, cantor, palhaço.

No correr das décadas encorpou diferentes tipos na TV, cinema e quadrinhos. Foi o vagabundo Bonga, O Maluco, Severina, Soldado 49, Aparício, Ananias e até Renato. Nenhum deles é tão celebrado quanto Didi Mocó Sonrizep Colesterol Novalgino Mufumbbo, o Didi.

Para o público, por vezes, a fronteira entre criador e criatura é das mais frágeis. Separar as personas é exercício árduo. Na esfera da ficção conhecemos o cearense magrelo, mulherengo, safo, pobre, malandro, mas de coração bom. Um herói para crianças de todos os cantos do País.

A vida real nos conta outra história. Nela solidificou-se a presença do empresário sério e obstinado, do homem avesso a badalações e de um artista criticado pelas decisões ou tratamentos destinados a colaboradores de longa data. São auras conflitantes, tal qual a convivência entre Dr Jekyll e Mr Hyde, ambas criaturas imaginadas por Robert Louis Stevenson (1850-1894) no romance "O Médico e o Monstro" (1886).

Coincidência, a narrativa criada pelo autor escocês foi referência para "O Incrível Monstro Trapalhão" (1981). O amor à literatura é uma das caras de Renato. Além de Stevenson, Charles Dickens (1812-1870), LaFontaine (1621-1695), Pasternak (1890-1960), entre outros imortais orbitam a mente do comediante. Acrescente aí doses generosas de Oscarito (1906-1970) e Charlie Chaplin (1889-1977).

Na companhia de Manfried Sant'Anna, Antônio Carlos Bernardes (1941-1994) e Mauro Faccio Gonçalves (1934-1990) liderou um fenômeno inigualável de audiência. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são as peças principais do xadrez denominado Os Trapalhões.

"Éramos palhaços. Eu era, posso dizer assim, o grande trabalhador dele, mas ele também trabalhava dia e noite sem parar e tinha uma confiança em mim", recorda Dedé Santana, o único companheiro da trupe ainda vivo.

"Ele falava, 'Dedé, você vai fazer isso'. Eu dizia, 'poxa, Renato, vou dirigir esse filme trabalhando?'. 'Você vai por que você sabe fazer'. Ele me empurrava nas coisas".

Legenda: Dedé atribui a Didi as oportunidades que teve na vida, na televisão e no cinema. De origem pobre e vindo do circo, Dedé chegou a dirigir filmes em Los Angeles
Foto: FOTO: MAURICIO FIDALGO

Daí parte a gratidão de Dedé ao amigo: fez-lhe abraçar oportunidades. "Sou muito agradecido a esse cearense maravilhoso por tudo que ele fez. Quando me vi em Los Angeles dirigindo filme, pensei, 'poxa, um garotinho de família pobre, de um cirquinho furado, estudando dois meses em cada cidade. Como é possível dirigir um filme nos Estados Unidos?'. Justiça seja feita, eu devo ao Renato Aragão".

Vídeo Alegre

O sonho do estrelato despertou na Capital cearense. Após a rápida passagem pelo Exército, no qual sobreviveu à queda de um avião, Renato Aragão parecia seguir um roteiro comum aos jovens daquele tempo.

"No início dos anos 1960, eu era um estudante de Direito em fim de curso na Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, um funcionário do Banco do Nordeste com uma carreira promissora e, da noite para o dia, ao saber de um concurso para redatores na recém-inaugurada TV Ceará, resolvi que queria fazer televisão", detalha no texto de apresentação da biografia "Renato Aragão: Do Ceará para o coração do Brasil" (2017), escrita pelo jornalista Rodrigo Fonseca.

A escolha decisiva do sobralense acompanhava um desejo particular.

"Fiz uma prova, passei e não apenas fui escrever como dar a cara no ar. E isso com o sonho de um dia fazer cinema. Tinha acabado de casar, em pouco tempo fui pai e mal fazia ideia de como dar conta de tantos afazeres de uma só vez. Mas dei", compartilha.

A TV Ceará, canal 2, empreendimento dos "Diários Associados" surgia em solo cearense. Os primeiros anos da empreitada (entre 1960 e 1966) são deliciosamente debulhados no livro "A Televisão no Ceará - Consumo, Lazer e Indústria Cultural", do pesquisador cearense Gilmar de Carvalho. Renato integrava aquele seleto grupo de pioneiros e, há 60 anos, estreava na televisão com o programa "Vídeo alegre".

Já doutor formado, o cearense foi parar no Rio de Janeiro para tomar parte no programa A-E-I-O-Urca. Um dos mais prolíficos palcos de Renato, a sétima arte, tornou-se realidade em 1965. Despontou em "A Pedra do Tesouro", curta produzido por Riva Farias e dirigido por seu irmão, o cinemanovista Roberto Farias (1932-2018).

O jornalista e radialista Joseoly Moreira acompanhou de perto o estabelecimento do comediante no Sudeste. Entre 1968 e 1970, o comunicador com notória habilidade no texto de comédia foi redator das traquinagens de Didi. "É o tipo de pessoa introvertida quando não conhece o ambiente. Mas, quando está com os amigos aí é só brincadeira do começo ao fim", detalha em torno da fama de "fechado" do aniversariante.

Boa parte dessa trajetória é contada por Joseoly no livro "Minha Vida, Minha História", lançado em outubro último. A amizade começou na TV Ceará e, quando Renato partiu para o Rio de Janeiro, surgiu o convite.

"Era muito divertido. Fiz algumas viagens com os Trapalhões. Eram muito solicitados. O empresário (cita Élcio Spanier Oliveira) já não tinha espaço para marcar no mapa os lugares visitados por eles", resgata.

Popularidade

O grupo liderado por Renato conseguiu ser um bem-sucedido produto audiovisual e segue até hoje relevantes no debate midiático. Originários da TV, possuíam narrativas em outras plataformas, como o cinema e as histórias em quadrinhos. Muito desse sucesso também deve-se às expertises individuais de cada integrante. Essa é uma das reflexões propostas pelo pesquisador André Carrico, na tese "Os Trapalhões no Reino da Academia: Revista, Rádio e Circo na poética trapalhônica".

Legenda: Juntos, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, sempre levaram muita alegria a crianças e adultos por meio da televisão e do cinema
Foto: FOTO: LUCIO MARREIRO

"Por meio de seus tipos fixos, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, soubemos e sabemos acerca das estratégias cômicas dos artistas de circo, do humorismo radiofônico e do teatro de revista. A obra trapalhônica, dessa forma, valorizou, atualizou e perpetuou o repertório cênico e os valores dessas três escolas, ao combinar seus procedimentos cômicos. Transmitidos de maneira não metodológica por gerações de artistas, esses valores foram atualizados pela heterogeneidade dos tipos d'Os Trapalhões, oriundos de quatro diferentes regiões periféricas do País. E traduziram-se numa visão particular e muito brasileira de comédia", aponta o estudo.

Outra reflexão de fôlego é "Os trapalhões e a comunicação midiática:a concepção de uma narrativa transmídia Made in Brazil", de Rafael José Bona. A tese investiga as marcas do quarteto em outras plataformas midiáticas, especialmente no intervalo compreendido entre os anos de 1987 e 1994.

Além da área acadêmica, outras publicações buscam desvendar a popularidade destes artistas. "As HQs dos Trapalhões" (2017) e "O Cinema dos Trapalhões: Por quem fez e por quem viu" (2016), ambas de Rafael Spacca são exemplos. Por conta das ironias da vida, o autor protagoniza uma disputa pública com Renato Aragão.

Spacca produz o documentário "Trapalhadas Sem Fim" e promete não esconder nada sobre os bastidores do programa "Os Trapalhões". A quantidade de entrevistados é farta,assim como os depoimentos negativos sobre o comportamento do artista cearense. O projeto foi proibido pelo líder Trapalhão.

Renato Aragão chega aos 85 anos envolto em polêmicas. Uma das promessas envolvendo a franquia será a realização de um documentário comandado pelo eterno Didi. Saindo do campo especulativo, um filme obrigatório sobre o grupo é "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1981), até hoje a maior bilheteria entre os documentários brasileiros.

A jornada do quarteto permite a desconstrução de um Brasil do passado, no qual piadas com teor racista, homofóbico e sexista eram aplaudidas.

Entretanto, o tipo de humor engenhado pelo grupo devassou as estruturas de um País cercado de calamidades sociais. Muitas foram as crianças iniciadas nas artes por apenas irem ver um filme dessa trupe. O menino de Sobral, que sonhava em ser estrela de cinema, deve estar satisfeito pelo legado ainda em construção.

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