Guaraná do Louro é atração no bairro Jóquei Clube há 26 anos

Na simplicidade, recanto gera filas e resiste ao tempo com assinatura própria

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 07:16)
Na imagem, uma foto de ângulo baixo mostra um homem de pele morena clara, com cabelos escuros e encaracolados e um sorriso, segurando um copo descartável branco e um liquidificador de plástico com uma bebida cor de bege ou marrom claro, tipo milk-shake. Ele está em um quiosque ou barraca, com uma cobertura verde acima dele, e está usando uma camisa polo branca. O homem estende o copo na direção da câmera. À esquerda e à direita do homem, parcialmente visíveis em primeiro plano, estão grandes liquidificadores industriais de metal prateado, prontos para uso. A bebida é provavelmente guaraná batido, um popular drink brasileiro.
Legenda: Com bom humor e agilidade, Louro do Guaraná aumenta freguesia no Jóquei Clube.
Foto: Ismael Soares.

Quem diria que uma banquinha estreita e miúda num canto de parede desenharia a rota gastronômica popular de um bairro de Fortaleza? É o que acontece com o Guaraná do Louro, localizado no bairro Jóquei Clube. Aberto em 1999, o ponto acumula quase três décadas de sabor, boas histórias e um charme e assinatura particulares. 

O funcionamento é de segunda a sábado, a partir de 13h – durante a semana, vai até 18h; quando não, até às 17h. “Mas se chegar faltando 15 minutos pra uma, eu já atendo”, avisa Fernando César Magalhães. Proprietário do estabelecimento, não é chamado pelo nome por ninguém. Tornou-se o Louro do Pó de Guaraná, verdadeira figura.

Com agilidade e aquela malemolência de quem sabe do riscado, ele é responsável por tudo na condução do ponto – do recebimento do pagamento à preparação da delícia. São vários os ingredientes para formar a cobiçada bebida: amendoim torrado, farinha de castanha, pó de guaraná, leite em pó, banana, farinha láctea, abacate, gelo e xarope de guaraná.

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Tudo batido no liquidificador industrial, serviço bem rápido. Mesmo assim, uma extensa fila se forma a partir sobretudo de 15h, no lanche da tarde. Coisa de virar a esquina.

Gente a pé, de moto ou de carro estaciona pertinho ou fica na calçada, aguardando a vez de fazer o pedido. São duas modalidades de servir: copo e garrafa, com preços que vão de R$ 4 a R$ 22, a depender da quantidade. 

Na imagem, uma foto em plano aberto mostra a barraca de rua de
Legenda: A banquinha do Guaraná do Louro é improvisada e funciona de segunda a sábado.
Foto: Ismael Soares

“É um vício. E, quando você toma, só vai comer horas depois, fica muito cheio”, alerta Louro, sorriso no rosto para mais um freguês. O diferencial, segundo ele, está no básico: “O negócio é ser intuitivo. Já fiz de vários jeitos, agora finalmente pegou”.

Como o sucesso nasceu

Apesar de a fila na banquinha ter ficado ainda maior nos últimos meses – fruto da visita de um influenciador digital no lugar – o sucesso acompanha o Guaraná do Louro há muito tempo. O fundador recorda: iniciou de forma simples, sem grande propósito, com preços entre R$1 e R$ 2. “Comecei com um liquidificador pequeno, e fui indo e indo”, conta.

À época, recebia pagamentos apenas por dinheiro; hoje, orgulha-se de, além dessa possibilidade, também possuir as opções Pix e cartão. Essa fartura contrasta com outra fase no início dos negócios, uma vez que Fernando entrou no ramo alimentício devido ao desemprego. “Notei que no Maranhão o pó de guaraná era sucesso, e resolvi colocar aqui pra ver. Fui indo até chegar onde estou agora”, festeja.

Na imagem, uma foto em close-up mostra um homem de pele morena clara, cabelo escuro e camisa polo branca, servindo uma bebida espessa e clara, provavelmente guaraná batido, de um liquidificador de plástico grande para uma garrafa plástica transparente menor. Ele está segurando o liquidificador com as duas mãos para servir. A bebida parece espessa e com grânulos marrons no líquido claro. Em primeiro plano, nos cantos esquerdo e direito, estão os grandes liquidificadores industriais de metal prateado. O homem está concentrado na tarefa de servir a bebida. A iluminação é brilhante, sugerindo um dia ensolarado.
Legenda: Pó de guaraná no Guaraná do Louro é servido tanto no copo quanto na garrafa.
Foto: Ismael Soares.

“Não tem um dia em que dá mais gente, todo momento aqui é lotado. Tenho um ajudante fixo e a minha namorada também me ajuda porque sozinho não dou conta. Já tô aqui aperreadinho, começou a chegar mais gente agora”, diz, enquanto interrompe momentaneamente a conversa. No retorno à prosa, qualifica o retorno do empreendimento.

A partir do montante arrecadado diariamente, custeia água, aluguel, luz e “namoration”. “Dá pra sair com a mulher, vou pro shopping... Pra todo canto ando com ela”. Esse gracejo de Louro também é um dos grandes atrativos do negócio, capaz de atrair públicos de todas as partes de Fortaleza – bairros de perto e de longe do Jóquei Clube.

Na imagem, uma foto em close-up mostra um homem de camisa polo branca e cabelo escuro amarrado, adicionando um ingrediente em pó claro e granulado de um pote cilíndrico branco para o liquidificador industrial de metal prateado. Ele está segurando o pote com a mão esquerda e uma colher de metal com a direita para raspar o ingrediente. O pote está inclinado diretamente sobre a abertura do liquidificador. O topo de uma cobertura ou toldo verde escuro é visível no canto superior esquerdo. Um adesivo retangular vermelho com letras brancas no liquidificador diz
Legenda: Farinha de castanha é um dos ingredientes do Guaraná do Louro.
Foto: Ismael Soares.

O eletrotécnico David da Silva, por exemplo, reside na Cidade dos Funcionários, mas devido à rota do trabalho, há mais de um ano frequenta o Guaraná do Louro. Os predicados para a delícia são vários: “Já tomei outros pós de guaraná em Fortaleza, mas esse não tem comparação. Tem um sabor de quero mais, não é nem fraco nem doce em excesso”.

Quem também ocupa as mãos com um copo de 500ml do quitute é Emanoel Freitas, freguês do ponto há seis anos. Na visão – e no paladar dele – não existe outro igual. “Moro perto e, sempre que tenho tempo, venho aqui. Conheci por meio de um amigo, sendo que hoje ele mora no interior e eu continuo aqui, fiel”, divide, às gargalhadas.

Na imagem, uma foto ligeiramente de baixo para cima e de trás mostra dois clientes olhando para a tabela de preços do
Legenda: Preços camaradas no Guaraná do Louro é um dos atrativos do empreendimento.
Foto: Ismael Soares.

“O sabor é muito caprichado, e com o Louro não tem miséria. Fora que tem um chorinho pelo qual vale a pena esperar”. O tal “chorinho” trata-se da sobra da preparação do pó de guaraná, aquilo que fica nos liquidificadores quando uma remessa da bebida é concluída. Feito Emanoel, vários aguardam na fila essa espécie de ouro líquido. 

Origem do pó de guaraná

Em termos técnicos, o pó de guaraná é um produto natural obtido a partir das sementes secas e moídas do guaranazeiro – planta nativa da Amazônia. Contém cafeína na composição, quatro vezes mais alta que o próprio café, e taninos com função de retardar a absorção dessa cafeína. Não à toa, a sensação de maior energia que sentimos ao tomar a bebida.

Nessas sementes, há também proteínas e sais minerais. “O pó de guaraná é capaz de fornecer energia, aumentar a disposição e reduzir o cansaço físico e mental. Além disso, quando preparado com açúcar, mel, leite, açaí ou frutas, se transforma em uma bebida nutritiva e encorpada”, diz Franzé Melo, instrutor na Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco.

Na imagem, uma foto em close-up mostra um homem de camisa polo branca e pele morena clara despejando uma bebida espessa e clara (provavelmente guaraná batido) de um liquidificador de metal para um recipiente branco de medida. A bebida despejada tem uma consistência de milkshake com pequenas partículas escuras ou marrons. O balcão à frente dele está cheio de potes de plástico com tampas vermelhas ou pretas, contendo ingredientes em pó ou granulados (talvez guaraná e açúcar), e outros liquidificadores industriais de metal prateado, com adesivos retangulares vermelhos na parte superior. Há também um recipiente de plástico vermelho brilhante no canto direito. O balcão tem uma superfície verde escura. O homem está concentrado no preparo da bebida.
Legenda: Pesquisador referencia o pó de guaraná como bebida nutritiva e encorpada.
Foto: Ismael Soares.

A preparação do pó de guaraná como bebida, de acordo com ele, geralmente envolve dissolver o pó em água, suco ou em outra base líquida, e adoçar com açúcar, mel ou xarope de guaraná. Essa mistura, então, é batida ou mexida até obter uma bebida homogênea, de sabor levemente amargo e efeito muito estimulante.

“As variações mais comuns que encontramos em Fortaleza são guaraná com açaí – nas próprias açaiterias, o açaí é batido com xarope de guaraná; e guaraná com leite, ou seja, a própria vitamina, com possibilidade de incluir banana e outras frutas”.

Do auge aos estabelecimentos pontuais

O pesquisador ainda situa o período de auge do guaraná em pó em Fortaleza: ocorreu nos anos 1990 até o início dos anos 2000, impulsionado pela busca por energia e saúde. Com o tempo, a moda perdeu força devido à concorrência de produtos afins, mudanças de hábitos e perda da autenticidade da bebida.

“Muitos locais deixaram de usar o pó de guaraná puro, substituindo-o por xaropes industrializados. Quando falamos de concorrência com outras opções energéticas, cito os refrigerantes e bebidas industrializadas”, contextualiza Franzé.

Na imagem, uma foto em plano geral mostra a barraca de rua de
Legenda: Filas se formam ao longo de todo o funcionamento do Guaraná do Louro.
Foto: Ismael Soares.

Hoje, contudo, estamos novamente em um momento de busca por energia para atividades físicas. Quem pratica corrida e atletas de alta performance deseja opções naturais, tornando o guaraná em pó mais atrativo para os que desejam seguir uma vida saudável.

Por fim, gastronomicamente falando, Franzé referencia o pó de guaraná como uma bebida muito tradicional, na qual a base da sociedade já tomava para manter a energia a fim de aguentar o dia de trabalho. Com o tempo, as pessoas se habituaram a outras receitas, a exemplo de vitaminas batidas acompanhadas de frutas, açaí e até bolos ou doces. 

Na imagem, uma foto em close-up mostra uma transação no balcão de um quiosque de guaraná batido. Um cliente, usando uma blusa preta de manga comprida (apenas o braço e a mão são visíveis em primeiro plano, à esquerda), está estendendo a mão para receber um copo branco de guaraná batido. O homem atrás do balcão, que tem cabelos escuros e usa uma camisa polo branca, está entregando o copo. No balcão verde, há vários liquidificadores industriais de metal prateado (um com um adesivo vermelho de
Legenda: Para o futuro, proprietário quer incluir água e salgado no cardápio.
Foto: Ismael Soares.

“Antigamente as pessoas usavam até o refrigerante de guaraná para fazer massas de empadas e molhar o bolo para as tortas de festas. Então devemos, sim, valorizar quem mantém essa cultura viva”, defende o estudioso.

O Guaraná do Louro que o diga. Quando questionado sobre qual o diferencial da bebida preparada por ele, o proprietário não gagueja: “Quem sabe, sabe”. Igualmente adianta não desejar mexer em time que está ganhando, apenas incluir água ou salgado no cardápio. “Não pretendo sair desse ponto, facilita muito a minha vida. Só se eu ganhar na Mega-Sena”.

 

Serviço
Guaraná do Louro
Endereço: Rua Rio Grande do Sul, 1980 - Jóquei Clube. Funcionamento: de segunda a sábado, das 13h às 17h (até sexta-feira) e até às 18h aos sábados

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