Guaraná do Louro é atração no bairro Jóquei Clube há 26 anos
Na simplicidade, recanto gera filas e resiste ao tempo com assinatura própria
Quem diria que uma banquinha estreita e miúda num canto de parede desenharia a rota gastronômica popular de um bairro de Fortaleza? É o que acontece com o Guaraná do Louro, localizado no bairro Jóquei Clube. Aberto em 1999, o ponto acumula quase três décadas de sabor, boas histórias e um charme e assinatura particulares.
O funcionamento é de segunda a sábado, a partir de 13h – durante a semana, vai até 18h; quando não, até às 17h. “Mas se chegar faltando 15 minutos pra uma, eu já atendo”, avisa Fernando César Magalhães. Proprietário do estabelecimento, não é chamado pelo nome por ninguém. Tornou-se o Louro do Pó de Guaraná, verdadeira figura.
Com agilidade e aquela malemolência de quem sabe do riscado, ele é responsável por tudo na condução do ponto – do recebimento do pagamento à preparação da delícia. São vários os ingredientes para formar a cobiçada bebida: amendoim torrado, farinha de castanha, pó de guaraná, leite em pó, banana, farinha láctea, abacate, gelo e xarope de guaraná.
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Tudo batido no liquidificador industrial, serviço bem rápido. Mesmo assim, uma extensa fila se forma a partir sobretudo de 15h, no lanche da tarde. Coisa de virar a esquina.
Gente a pé, de moto ou de carro estaciona pertinho ou fica na calçada, aguardando a vez de fazer o pedido. São duas modalidades de servir: copo e garrafa, com preços que vão de R$ 4 a R$ 22, a depender da quantidade.
“É um vício. E, quando você toma, só vai comer horas depois, fica muito cheio”, alerta Louro, sorriso no rosto para mais um freguês. O diferencial, segundo ele, está no básico: “O negócio é ser intuitivo. Já fiz de vários jeitos, agora finalmente pegou”.
Como o sucesso nasceu
Apesar de a fila na banquinha ter ficado ainda maior nos últimos meses – fruto da visita de um influenciador digital no lugar – o sucesso acompanha o Guaraná do Louro há muito tempo. O fundador recorda: iniciou de forma simples, sem grande propósito, com preços entre R$1 e R$ 2. “Comecei com um liquidificador pequeno, e fui indo e indo”, conta.
À época, recebia pagamentos apenas por dinheiro; hoje, orgulha-se de, além dessa possibilidade, também possuir as opções Pix e cartão. Essa fartura contrasta com outra fase no início dos negócios, uma vez que Fernando entrou no ramo alimentício devido ao desemprego. “Notei que no Maranhão o pó de guaraná era sucesso, e resolvi colocar aqui pra ver. Fui indo até chegar onde estou agora”, festeja.
“Não tem um dia em que dá mais gente, todo momento aqui é lotado. Tenho um ajudante fixo e a minha namorada também me ajuda porque sozinho não dou conta. Já tô aqui aperreadinho, começou a chegar mais gente agora”, diz, enquanto interrompe momentaneamente a conversa. No retorno à prosa, qualifica o retorno do empreendimento.
A partir do montante arrecadado diariamente, custeia água, aluguel, luz e “namoration”. “Dá pra sair com a mulher, vou pro shopping... Pra todo canto ando com ela”. Esse gracejo de Louro também é um dos grandes atrativos do negócio, capaz de atrair públicos de todas as partes de Fortaleza – bairros de perto e de longe do Jóquei Clube.
O eletrotécnico David da Silva, por exemplo, reside na Cidade dos Funcionários, mas devido à rota do trabalho, há mais de um ano frequenta o Guaraná do Louro. Os predicados para a delícia são vários: “Já tomei outros pós de guaraná em Fortaleza, mas esse não tem comparação. Tem um sabor de quero mais, não é nem fraco nem doce em excesso”.
Quem também ocupa as mãos com um copo de 500ml do quitute é Emanoel Freitas, freguês do ponto há seis anos. Na visão – e no paladar dele – não existe outro igual. “Moro perto e, sempre que tenho tempo, venho aqui. Conheci por meio de um amigo, sendo que hoje ele mora no interior e eu continuo aqui, fiel”, divide, às gargalhadas.
“O sabor é muito caprichado, e com o Louro não tem miséria. Fora que tem um chorinho pelo qual vale a pena esperar”. O tal “chorinho” trata-se da sobra da preparação do pó de guaraná, aquilo que fica nos liquidificadores quando uma remessa da bebida é concluída. Feito Emanoel, vários aguardam na fila essa espécie de ouro líquido.
Origem do pó de guaraná
Em termos técnicos, o pó de guaraná é um produto natural obtido a partir das sementes secas e moídas do guaranazeiro – planta nativa da Amazônia. Contém cafeína na composição, quatro vezes mais alta que o próprio café, e taninos com função de retardar a absorção dessa cafeína. Não à toa, a sensação de maior energia que sentimos ao tomar a bebida.
Nessas sementes, há também proteínas e sais minerais. “O pó de guaraná é capaz de fornecer energia, aumentar a disposição e reduzir o cansaço físico e mental. Além disso, quando preparado com açúcar, mel, leite, açaí ou frutas, se transforma em uma bebida nutritiva e encorpada”, diz Franzé Melo, instrutor na Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco.
A preparação do pó de guaraná como bebida, de acordo com ele, geralmente envolve dissolver o pó em água, suco ou em outra base líquida, e adoçar com açúcar, mel ou xarope de guaraná. Essa mistura, então, é batida ou mexida até obter uma bebida homogênea, de sabor levemente amargo e efeito muito estimulante.
“As variações mais comuns que encontramos em Fortaleza são guaraná com açaí – nas próprias açaiterias, o açaí é batido com xarope de guaraná; e guaraná com leite, ou seja, a própria vitamina, com possibilidade de incluir banana e outras frutas”.
Do auge aos estabelecimentos pontuais
O pesquisador ainda situa o período de auge do guaraná em pó em Fortaleza: ocorreu nos anos 1990 até o início dos anos 2000, impulsionado pela busca por energia e saúde. Com o tempo, a moda perdeu força devido à concorrência de produtos afins, mudanças de hábitos e perda da autenticidade da bebida.
“Muitos locais deixaram de usar o pó de guaraná puro, substituindo-o por xaropes industrializados. Quando falamos de concorrência com outras opções energéticas, cito os refrigerantes e bebidas industrializadas”, contextualiza Franzé.
Hoje, contudo, estamos novamente em um momento de busca por energia para atividades físicas. Quem pratica corrida e atletas de alta performance deseja opções naturais, tornando o guaraná em pó mais atrativo para os que desejam seguir uma vida saudável.
Por fim, gastronomicamente falando, Franzé referencia o pó de guaraná como uma bebida muito tradicional, na qual a base da sociedade já tomava para manter a energia a fim de aguentar o dia de trabalho. Com o tempo, as pessoas se habituaram a outras receitas, a exemplo de vitaminas batidas acompanhadas de frutas, açaí e até bolos ou doces.
“Antigamente as pessoas usavam até o refrigerante de guaraná para fazer massas de empadas e molhar o bolo para as tortas de festas. Então devemos, sim, valorizar quem mantém essa cultura viva”, defende o estudioso.
O Guaraná do Louro que o diga. Quando questionado sobre qual o diferencial da bebida preparada por ele, o proprietário não gagueja: “Quem sabe, sabe”. Igualmente adianta não desejar mexer em time que está ganhando, apenas incluir água ou salgado no cardápio. “Não pretendo sair desse ponto, facilita muito a minha vida. Só se eu ganhar na Mega-Sena”.
Serviço
Guaraná do Louro
Endereço: Rua Rio Grande do Sul, 1980 - Jóquei Clube. Funcionamento: de segunda a sábado, das 13h às 17h (até sexta-feira) e até às 18h aos sábados