Falta de dinheiro e insegurança afastam brasileiros de atividades culturais, diz pesquisa

Levantamento aponta que pessoas temem assaltos e furtos, além de violência contra mulheres no trajeto e arredores de espaços culturais.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 07:02, em 19 de Novembro de 2025)
Na imagem, fileiras de poltronas de cinema vazias e luxuosas, estofadas em couro vermelho brilhante. As cadeiras têm apoios de cabeça altos e apoios de braço pretos com porta-copos embutidos. A perspectiva é em ângulo, focando nas fileiras mais próximas, dando a sensação de um cinema moderno ou sala de projeção VIP.
Legenda: Custo que mais afeta o acesso a espaços culturais é o preço dos ingressos, segundo 22% dos entrevistados.
Foto: HomeDecorImages.com/Shutterstock.

Mais de 30% dos brasileiros não consomem atividades culturais presencialmente devido a questões financeiras e à insegurança. Os dados pertencem à sexta edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha, divulgada nesta terça-feira (11).

A falta de dinheiro para ter acesso aos equipamentos culturais é apontada por 34% dos entrevistados; por sua vez, 31% cita insegurança e violência como motivo para evitar eventos presenciais.

Dessa parcela, 47% dizem temer assaltos e furtos, e 21% mencionam violência contra mulheres nos espaços culturais ou arredores – porcentagem que sobe para 28% quando são elas que respondem à pergunta.

O levantamento vai além. A questão econômica, por exemplo, é mais sensível para mulheres (36%) do que para homens (33%). Já o custo que mais afeta o acesso é o preço dos ingressos, segundo 22% dos entrevistados, seguido pelo desembolso com transporte, apontado por 19%.

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Gerente do Observatório da Fundação Itaú, Carla Christine Chiamareli contextualiza ambos os pontos, financeiro e de segurança. Segundo ela – chancelada pela pesquisa – o maior percentual de equipamentos e atividades culturais está nas capitais, sobretudo nas áreas centrais delas, o que promove um deslocamento de pessoas para esses espaços e, assim, a depender da localidade de onde partem, o enfrentamento de possíveis realidades de violência.

“Os resultados da pesquisa inferem, então, uma reflexão sobre um conjunto de fatores, mas sobretudo a respeito da necessidade de um maior investimento de equipamentos culturais nas comunidades distantes do Centro, a fim de oportunizar um acesso mais democrático”, analisa.

Na imagem, cena de construção ou manutenção em frente ao Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza, Ceará. Em primeiro plano, dois operários vestindo uniformes de segurança laranja fluorescente e capacetes amarelos estão trabalhando em um terreno de terra batida. Um operário empurra um carrinho de mão e o outro caminha ao lado. Há um monte de areia e terra solta entre eles. Ao fundo, o complexo do Dragão do Mar é visível, destacando-se a cúpula geodésica azul e branca do planetário. A arquitetura de cor clara tem detalhes em telhado vermelho. Palmeiras e vegetação tropical emolduram a cena sob um céu azul claro com nuvens esparsas e brilhantes.
Legenda: Acesso ao Dragão do Mar, sobretudo no período de reforma, tem sido desafiador para muitos.
Foto: Thiago Gadelha.

Não à toa, a descentralização da prática e da oferta cultural em todo o território brasileiro – compreendendo municípios, Estados e regiões – é uma das bandeiras mencionadas por ela, bem como uma conclusão interessante: somos, sim, um país que consome cultura, e ainda é possível ir muito além.

“As pessoas já consomem muita cultura, mas há um potencial de crescimento. Elas veem valor nas atividades culturais, mas existem possibilidades. Se democratizar o acesso, se houver mais equipamentos e ações gratuitas, o número vai crescer. Há muitas evidências em toda a pesquisa para a necessidade do investimento de mais atividades gratuitas para todos”.

Brancos têm mais acesso à cultura que negros

Outras variáveis do levantamento dizem respeito, por exemplo, a recortes de raça, renda e escolaridade. Para se ter ideia, brancos tiveram mais acesso que negros ao cinema, teatro e museus nos últimos 12 meses. 

Por sua vez, a participação em atividades culturais é maior entre escolarizados. 93% da classe A/B participou de atividades culturais nos últimos 12 meses, face a 71% das classes D e E.

Na imagem, um parque infantil ensolarado com areia no chão. Em primeiro plano, no lado direito, há um tronco de árvore grosso e escuro com uma placa de identificação redonda de cor laranja e bordô pendurada, que identifica a árvore como
Legenda: Eventos ao ar livre dominam (61%) dominam preferência de consumo cultural.
Foto: Fabiane de Paula.

Se o interesse for pelo conhecimento de quais atividades lideraram o consumo cultural presencial nos últimos 12 meses, a pesquisa também traz dados importantes. Eventos ao ar livre dominam (61%), seguidos de shows de música (45%), festas folclóricas, populares e típicas (42%), cinema (37%) e atividades infantis (35%).

Os principais motivos apontados para a realização de atividades presenciais foram relaxar, diminuir o estresse (44%), conhecer novos lugares (40%), adquirir conhecimento (34%), novas experiências (34%) e melhorar a saúde (32%) – sendo este último o motivo que mais cresceu em relação ao ano passado, subindo sete pontos percentuais.

Desigualdades persistem no consumo de cultura

Embora apresente relativo aumento no acesso a atividades culturais em todas as classes, a série histórica da pesquisa aponta para a manutenção de desigualdades

No acesso ao cinema, a diferença de cerca de 40% entre o acesso das classes A/B e D/E se mantém entre 2022 e 2025. Já entre aqueles que visitam museus, a diferença é de 20%, e fica estável na mesma série histórica. 

No consumo de espetáculos de teatro, a diferença entre as classes chega a aumentar de 17 pontos em 2022 para 28 pontos percentuais em 2025.

Na imagem, um grupo de crianças reunidas em frente a um mural vibrante de graffiti que cobre uma parede azul brilhante. O graffiti apresenta a sigla
Legenda: Centro Cultural Bom Jardim é um dos equipamentos em Fortaleza localizado na periferia.
Foto: Ismael Soares.

A pesquisa ainda focou nas atividades que lideraram o consumo cultural em casa ou online nos últimos 12 meses. Em ordem, estão ouvir música online (85%), assistir a filmes em plataformas de streaming (74%), assistir a séries online (70%), ouvir podcast (54%), e empatados em quinto lugar, assistir a novelas e ler livros impressos, com 53%. 

A modalidade em casa ou online é mais realizada entre residentes nas regiões metropolitanas e entre pessoas que se autodeclaram brancas, à medida que aumenta a escolaridade e a classe econômica.

A sexta edição da pesquisa Hábitos Culturais ouviu 2.432 indivíduos, de 16 e 65 anos em todo o país, entre 11 e 26 de agosto. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.

O objetivo é mapear aspectos do consumo de cultura no ambiente digital, os hábitos e expectativas nos espaços culturais presenciais e as motivações para sair de casa e consumir cultura presencialmente.

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