História política do Ceará tem, ao menos, 10 casos emblemáticos de rompimento desde a Era Tasso

Mais recente rompimento aconteceu entre o senador Cid Gomes e o governador Elmano de Freitas

Escrito por Luana Barros luana.barros@svm.com.br
21 de Novembro de 2024 - 14:00 (Atualizado às 15:57)
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Legenda: Saída de Cid Gomes da base do Governo Elmano foi avisada a aliados do senador
Foto: Davi Rocha

O rompimento entre o senador Cid Gomes (PSB) e o governador Elmano de Freitas (PT) continua a ter desdobramentos, inclusive com a expectativa de ser revertido. Em reunião na última terça-feira (19), Cid disse que ainda "não há decisão" sobre o assunto. 

Contudo, Cid teria telefonado ao longo do final de semana para parlamentares e prefeitos aliados para informar a saída da base do Governo Elmano. "Disse (ao governador) que não se sente mais fazendo parte do grupo porque acha que existe uma concentração de decisão nas mãos das pessoas do PT", disse a deputada estadual Lia Gomes (PDT), irmã do senador. 

A insatisfação do ex-governador sobre a concentração de poderes em lideranças petistas vinha sendo demonstrada há, pelo menos, um ano, mas teve como 'gota d'água' a indicação de Fernando Santana (PT) para a presidência da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece). 

O momento agora, segundo o próprio Cid, é de "ter paciência" para cumprir "os ritos que têm que ser cumpridos". "Decisão é decisão e quando se decide, se comunica. Não há ainda essa comunicação. Acho que qualquer ação na vida deve ser feita de forma sempre ouvindo o coração, colocando a cabeça como o grande regrador da sua fala e das suas decisões", disse.

Enquanto aliados do senador têm preferido o silêncio sobre a situação, lideranças petistas defendem o diálogo com Cid para manutenção da aliança, mas falam que a candidatura de Fernando Santana na Alece é "irreversível". Principal liderança do PT no Ceará, Camilo Santana diz que segue aliado a Cid. ""Cid é um grande amigo, parceiro de projeto e de luta, e é meu candidato ao Senado em 2026", completou.

Esse não é o primeiro rompimento político no Ceará. Desde a era Tasso, diversos 'rachas' entre antigos aliados impactaram o cenário político e eleitoral no Estado, alguns deles envolvendo inclusive os protagonistas da mais recente cisão. 

O Diário do Nordeste relembra os episódios que remontam ao período de redemocratização no Ceará, seguindo até os dias de hoje. 

Tasso Jereissati X Gonzaga Mota

Tasso Jereissati (PSDB) foi lançado candidato, pela primeira vez, pelo então governador Gonzaga Mota, em 1986, pelo PMDB. Na época, Tasso integrava o Centro Industrial do Ceará (CIC), de onde surgiram diversas lideranças políticas do Ceará. As primeiras arestas entre Gonzaga Mota e Tasso surgem ainda durante a campanha eleitoral — muitas envolvendo o Plano Cruzado, lançado por José Sarney, também do PMDB na época. 

Vitorioso, Tasso assume o Governo do Ceará em 1987 e acaba rompendo com o padrinho político, inclusive fazendo críticas à gestão e ao legado de Gonzaga Mota. Mais de uma década depois, em 1998, os dois se enfrentaram na disputa pelo Governo do Ceará, vencida por Tasso — que iniciaria o terceiro e último mandato como governador no ano seguinte. Anos depois, os dois se reaproximam, e Mota acabou se filiando ao PSDB em 2003.  

A aliança entre Tasso Jereissati e Gonzaga Mota, aliás, se inicia com um rompimento político, desta vez entre Mota e os três coroneis — Virgílio Távora, Adauto Bezerra e César Cals. Gonzaga Mota havia sido indicação de Virgílio para o Governo do Ceará no final da ditadura militar. 

Contudo, ele acaba sendo o primeiro governador brasileiro a apoiar as "Diretas Já" e acaba por romper com o trio dos coroneis. Em 1986, os antigos aliados se enfrentam: Adauto Bezerra concorre ao Governo do Ceará na disputa vencida por Tasso Jereissati, apadrinhado por Gonzaga Mota. 

Sérgio Machado X Tasso Jereissati

Também parte do CIC, Sérgio Machado coordenou a campanha de Tasso Jereissati em 1986 e foi secretário no primeiro mandato dele como governador do Ceará, entre 1987 e 1990. Havia expectativa de que Machado fosse o candidato à sucessão de Tasso — na época, a reeleição não era permitida. Contudo, Tasso lança Ciro Gomes, que sai vitorioso na disputa eleitoral. 

Sérgio Machado acabou eleito deputado federal em 1990 e, em 1994, foi eleito para uma das cadeiras do Ceará no Senado Federal. Ele acaba rompendo com Tasso Jereissati e lança candidatura contra Lúcio Alcântara, na época no PSDB, em 2002. No mesmo ano, também foi candidato o então deputado estadual Wellington Landim — também saído das fileiras do PSDB. 

Tasso Jereissati X Lúcio Alcântara 

Candidato apadrinhado por Tasso Jereissati, Lúcio Alcântara venceu a disputa pelo Governo do Ceará em 2002. Contudo, o apoio recebido nesta eleição não se repetiria quatro anos depois, em 2006.

Naquele ano, Tasso tentou convencer o então governador a não concorrer à reeleição e, em vez disso, tentar vaga no Senado Federal. A ideia era apoiar a candidatura de Cid Gomes, na época no PSB. Contudo, Lúcio Alcântara não aceita e decide tentar o segundo mandato. 

Logo no início do processo eleitoral, Tasso anuncia o rompimento político com Lúcio Alcântara. Sem o apoio aberto de Tasso, Cid Gomes foi eleito governador do Ceará em 2006, ainda no 1º turno. No ano seguinte, Lúcio se desfilia do PSDB e vai para o PR (atual PL). 

Luizianne Lins X Cid Gomes 

Na primeira disputa eleitoral para o Governo do Ceará, em 2006, Cid Gomes é apoiado pela então prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT). A aliança entre os dois duraria seis anos — e exatas três eleições.

Em 2008, Cid Gomes apoiou a reeleição de Luizianne Lins — contra a ex-cunhada de Cid, Patrícia Saboya, apoiada por Ciro Gomes. Dois anos depois, em 2010, a petista participou da campanha que conduziria Cid Gomes para o segundo mandato como governador. 

Contudo, a aliança entre os dois rompe na eleição de 2012 para Prefeitura de Fortaleza. Luizianne Lins escolheu o então secretário de Educação, Elmano de Freitas (PT). Contudo, a escolha não agradou a Cid Gomes, que defendeu outros nomes dentro do PT, como o então deputado estadual Camilo Santana (PT).

A decisão acabou por fazer com que Cid Gomes lançasse a candidatura do então presidente da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Roberto Cláudio, na época no PSB. Elmano e Roberto Cláudio foram ao 2º turno da eleição, com a vitória do candidato de Cid Gomes para a Prefeitura de Fortaleza. 

Tasso Jereissati X Cid e Ciro Gomes

Aliados por décadas, Tasso Jereissati e Ciro Gomes seguiram caminhos distintos a partir da eleição de 2010, quando o irmão de Ciro, o então governador Cid Gomes, foi candidato à reeleição para o Palácio da Abolição. 

Naquele ano, Tasso também era candidato à reeleição, só que para o Senado Federal. Inicialmente, a chapa de Cid lançaria apenas uma candidatura de senador, a de Eunício Oliveira (MDB), e apoiaria, informalmente, a candidatura de Tasso. 

Ciro ao lado de Tasso no início de sua carreira política
Legenda: Ciro ao lado de Tasso no início de sua carreira política
Foto: Acervo do Instituto Queiroz Jereissati/Divulgação

O problema era que o PT também tinha candidatura para o cargo, José Pimentel (PT). A sigla — aliada de Cid desde os mandatos na Prefeitura de Sobral — pressionava o então governador a apoiar a chapa formada por Pimentel e Eunício. Tasso pressionou Cid por uma decisão até junho de 2010, quando o silêncio do governador fez o PSDB romper. 

Naquele ano, Tasso lançou Marcos Cals para concorrer ao Governo do Ceará. Contudo, o resultado eleitoral foi de derrota para a chapa tucana. Cid Gomes conquista o segundo mandato como governador e Eunício Oliveira e José Pimentel — com apoio de Cid e Ciro, a pedido do então presidente Lula (PT) — ficam com as duas cadeiras do Ceará para o Senado Federal, conferindo a primeira grande derrota eleitoral de Tasso. 

Com isso, o ex-governador tucano rompe tanto com Cid como com Ciro Gomes — de quem era aliado desde a década de 1980 e de quem foi fiador nas candidaturas à Prefeitura de Fortaleza e ao Governo do Ceará. A reaproximação aconteceria apenas uma década depois, quando ambos apoiaram a candidatura de José Sarto (PDT) à Prefeitura de Fortaleza.

Eunício Oliveira X Cid e Ciro Gomes 

Com o fim do segundo mandato de Cid Gomes como governador, a eleição de 2014 teve uma disputa dentro da base aliada do Governo para saber quem seria o candidato à sucessão do Palácio da Abolição. Eunício Oliveira, então senador da República, articulou candidatura e esperava manter a mesma aliança que elegera Cid Gomes, o que acabou não se confirmando. 

Cid Gomes indicou Camilo Santana (PT) como candidato ao Governo do Ceará. Sem recuar da candidatura, Eunício Oliveira acabou rompendo politicamente não apenas com Cid, mas também com o irmão Ciro Gomes — de quem se mantém desafeto político até os dias de hoje. 

Cid Gomes, Eunício Oliveira e Ciro Gomes durante a campanha do emedebista para o Governo do Ceará em 2006
Legenda: Cid Gomes, Eunício Oliveira e Ciro Gomes durante a campanha do emedebista para o Governo do Ceará em 2006
Foto: Francisco Viana

Camilo e Eunício foram ao 2º turno da disputa, que acabou sendo vencida pelo petista. O distanciamento de Eunício com o grupo liderado por Cid, e que agora incluía Camilo Santana, durou apenas quatro anos. 

Apesar de ter apoiado Capitão Wagner (na época, no PR) na eleição pela Prefeitura de Fortaleza em 2016, contra o então prefeito Roberto Cláudio, Eunício voltaria a ser aliado de Cid e Camilo em 2018, quando o então governador articulou para que o PT não lançasse candidatura ao Senado como forma de fortalecer a tentativa de reeleição de Eunício. Contudo, Eunício acabou perdendo a cadeira de senador naquela eleição. 

Roberto Cláudio X Gaudêncio Lucena

A disputa pelo Governo do Ceará em 2014 não causou apenas o rompimento entre Eunício Oliveira e o grupo liderado por Cid Gomes. A Prefeitura de Fortaleza também sentiu as consequências. 

No primeiro mandato como prefeito, Roberto Cláudio (na época, no Pros) — que apoiava a candidatura de Camilo Santana — rompeu com o então vice-prefeito Gaudêncio Lucena (MDB), correligionário de Eunício. 

O rompimento político causou a demissão de secretários municipais ligados a Gaudêncio e o próprio vice-prefeito pediu afastamento das funções e suspensão do salário para se dedicar à coordenação de campanha de Eunício, que acabaria derrotada. 

Domingos Filho X Camilo Santana, Cid e Ciro Gomes

Em 2016, a Assembleia Legislativa do Ceará teve uma disputa direta pela presidência — o que colocou dois deputados estaduais do mesmo partido concorrendo ao cargo e causou um rompimento na base aliada ao Governo do Ceará ainda na primeira metade do primeiro mandato de Camilo Santana (PT).

Zezinho Albuquerque (PDT) era, oficialmente, o candidato do Governo Camilo Santana — apoiando ainda por Cid e Ciro Gomes —, mas Sérgio Aguiar (PDT) também era candidato a presidente da Assembleia, com apoio de Domingos Filho, na época conselheiro do agora extinto Tribunal de Contas do Município (TCM). 

Domingos Filho era aliado desde a primeira gestão de Cid Gomes como governador do Ceará e chegou a abrir mão da intenção de ser candidato ao cargo em 2014, quando Camilo foi candidato. Na época da disputa na Assembleia, o então deputado estadual Ivo Gomes, irmão de Ciro e Cid, chegou a fazer críticas a Domingos Filho, apesar de não citar nomes. 

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