Camilo Santana: como analistas avaliam o papel do líder político 4 anos após saída do Governo do CE
Ministro da Educação anunciou a saída do cargo para se dedicar a campanha eleitoral e é cotado para ser candidato, apesar de negar a intenção.
Coordenação de campanha eleitoral, candidatura ao Governo do Ceará, candidatura à vice-presidência ou mesmo à presidência da República: todas essas são especulações levantadas, nos últimos meses, sobre o futuro político do ministro da Educação, Camilo Santana (PT), na eleição de 2026, seja por aliados seja por adversários políticos. Do próprio Camilo, porém, a única afirmação é de que avalia deixar o Ministério para se dedicar às campanhas de aliados, mas não como candidato.
Por que o ex-governador do Ceará, eleito senador mais votado na história do Estado em 2022, alçado a ministro de uma das pastas mais importantes do Governo Lula em 2023, desperta diferentes conjecturas sobre seu papel em umas das eleições que promete ser uma das mais disputadas dos últimos pleitos?
O PontoPoder ouviu especialistas sobre o papel que Camilo Santana tem a desempenhar em 2026 diante das expectativas de aliados e de opositores, e da construção da própria carreira.
Uma eventual candidatura nacional, projetam pesquisadores da Ciência Política, deve ficar para 2030 – o que não significa que a importância de Camilo Santana no PT a nível nacional ou para o Governo Lula não seja relevante. Pelo contrário, ele é considerado um nome "não só fiel ao projeto, mas que tem condições, capacidade, que tem o carisma dele e que é competitivo".
A indicação é da professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres. Contudo, continua ela, "é mais fácil o Lula concorrer à reeleição do que ele indicar outro nome”, além de ser“muito difícil o PT, num cenário de Congresso reativo e com muito poder, fazer uma chapa pura”. “Mas o Camilo está ali no páreo", reforça.
Na campanha eleitoral, Camilo Santana deve ter "importância central para a campanha do Elmano e do Lula no Ceará, mas também para a campanha do Lula no Brasil", pontua Marcos Paulo Campos, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA).
O Nordeste entra como um dos pontos de atenção pela importância da região para a estratégia eleitoral do PT, com Camilo Santana indicado como possível coordenador da campanha de Lula nos estados nordestinos — uma especulação que surge a partir da soma da experiência dele no Consórcio Nordeste e da proximidade com os estados obtida a partir de programas e iniciativas do MEC.
Com a necessidade de palanques estaduais fortes, o desafio é garantir a vitória de aliados em estados com oposição fortalecida, como é o caso do Ceará. "O cenário do Ceará apresenta um risco imediato e concreto", ressalta Mariana Dionísio, doutora em Ciência Política e professora de Direito na Universidade de Fortaleza (Unifor).
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Ela cita a proximidade de Elmano de Freitas e do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), principal cotado para ser o candidato da oposição no Ceará, no resultado de pesquisas eleitorais divulgadas por oposicionistas, como um sinal de alerta, o que também resulta na especulação sobre a possibilidade de Camilo ser lançado candidato no lugar de Elmano, algo negado pelo ministro.
"Quero dizer claramente que o meu candidato, para quem eu vou trabalhar, será o Elmano de Freitas", disse Camilo na última segunda-feira (19), em coletiva no MEC.
Se, por um lado, o "PT não pode se dar ao luxo de perder o Ceará", afirma Dionísio, o que pode deixar o ex-governador "sem muita margem de escolha" a não ser concorrer ao Abolição, existem também custos políticos nessa decisão. "Teria que ser explicada a razão pela qual o próprio governador não está tentando a continuidade do seu mandato. Pode ser percebido como uma confissão de fraqueza de resultados, fraqueza de candidato", pontua Marcos Paulo.
Qual a força política de Camilo Santana
Camilo deixou o Governo do Ceará em abril de 2022, para ser candidato ao Senado Federal, com quase 80% de aprovação da gestão. A consolidação do capital político conquistado em quase oito anos de governo veio com a eleição: em meio a um racha na base governista, com a ruptura entre PT e PDT, ele elegeu o sucessor ainda no 1º turno, com 53,69% dos votos.
A própria eleição ao Senado Federal foi histórica: com 69,8% dos votos válidos, batendo o recorde de Cid Gomes e se tornando o candidato mais votado para o cargo na história do Ceará.
"Daí em diante, Camilo ampliou a popularidade, fortaleceu o próprio capital político e construiu uma trajetória de peso em termos de articulação, a exemplo das eleições municipais de 2024 em Fortaleza, em que ele ajudou muito na vitória de Evandro Leitão, mesmo em um contexto de derrotas do PT nas capitais", elenca Mariana Dionísio.
Em 2024, a conquista do comando da capital cearense, que se torna a única governada pelo PT, se une a uma ampliação do número de prefeitos eleitos pelo PT no Ceará. O partido elegeu 47 gestores municipais, tornando-se a legenda a governar a maior parcela da população cearense — pouco mais de 3,76 milhões de pessoas vivem nos municípios cearenses que elegeram prefeitos ou prefeitas petistas.
Além disso, Camilo Santana "foi para um ministério que é um dos mais robustos do governo, que é uma vitrine nacional importantíssima, com recursos muito robustos. (...) Entre as pastas do governo Lula, a Educação é a que mais tem entregado. Isso reforça, cada vez mais, esse nome do Camilo", acrescenta Monalisa Torres.
"A vinda do Camilo (para a campanha eleitoral no Ceará) tem importância por tudo isso. Por ele ser o principal líder político do Estado, por ele concentrar uma capacidade de mobilização do eleitorado muito alta e por ele ser um nome até mais forte do que o governador para estar no debate público com o candidato forte da oposição", completa Marcos Paulo Campos.
Se o capital político de Camilo foi importante para a eleição de Elmano de Freitas em 2022, a participação dele na campanha eleitoral de 2026 deve continuar a ser fundamental.
O próprio governador falou sobre a relevância do 'padrinho' político nas articulações deste ano. "Vamos ter uma disputa muito intensa. (...) Poder contar com nosso ministro Camilo é algo muito importante para nossa pré-candidatura", disse ele, durante coletiva de imprensa na quarta-feira (21), no Palácio da Abolição.
Um dos principais aliados de Camilo, o senador Cid Gomes (PSB) seguiu sentido oposto e apontou riscos para a atuação do ministro. "Se ele sair (do ministério), isso é terrível para o Elmano. O Camilo, como foi um excelente governador, saiu muito bem avaliado, ele não deixa de ser uma sombra para o governador Elmano. Agora, se ele sai do ministério, isso deixa de ser uma sombra e passa a ser um fantasma", disse em entrevista à Folha de S. Paulo.
O risco de uma "sombra" do antecessor
O conceito de "sombra" também é usado por Monalisa Torres, mas para falar justamente de Cid Gomes. Ao citar 2026 como a possibilidade de "consolidação" da liderança de Camilo Santana, a professora argumenta justamente que, apesar de um crescimento da força política do ministro nos últimos anos, ele "ainda tem muitas sombras do antecessor".
Uma importância que é de Cid Gomes, mas também da família Ferreira Gomes — hoje, dividida, mas ainda com peso nas articulações eleitorais. "A gente ainda vê muita sombra dos Ferreira Gomes. Os Ferreira Gomes fazem uma coisa já vira manchete. Isso demonstra que eles têm importância ainda, que eles são muito ouvidos, que eles ainda têm muita influência", pontua.
Candidato ao Governo do Ceará?
Ao PontoPoder, os especialistas divergem sobre se a dependência do "padrinho político" na campanha à reeleição é um cenário novo na disputa pelo Governo do Ceará. Marcos Paulo considera que, em 2018, Camilo "ainda não era uma figura tão independente do Cid". "É na pandemia que a liderança dele se autonomiza em relação ao Cid e até supera o Cid", argumenta.
Mariana Dionísio discorda. Para ela, "Camilo não precisou de um nome mais forte para se reeleger, porque ele mesmo era a liderança". "O Ceará liderava rankings educacionais, havia construído uma narrativa positiva consistente, ao mesmo tempo em que a oposição estava completamente fragmentada e enfraquecida", cita a professora.
Em 2018, Camilo Santana foi reeleito ainda no 1º turno com quase 70% dos votos válidos. Na época, o adversário mais próximo foi General Theophilo, com 12,59% da votação, que disputava pela primeira vez uma eleição e que possuía apenas dois partidos na coligação.
Dionísio cita um paralelo mais próximo com o ex-governador Lúcio Alcântara, que perdeu a reeleição em 2006 para Cid Gomes. "No caso dele, mesmo com aprovação pessoal razoável, o eleitorado já sinalizava cansaço com o grupo político, e isso coincide com o que vemos hoje em alguns grupos de eleitores", diz.
"O que a gente está vendo no Ceará, inclusive, é o questionamento sobre as próprias condições de competitividade que o Elmano tem", afirma Monalisa Torres. "E isso não tem sido um discurso que vem só da oposição, como uma forma de desgastar internamente o grupo do governo. (...) O próprio grupo do governo tem colocado em suspeição a competitividade do Elmano", diz.
Algo semelhante ocorreu em 2024, quando a perda de força do então prefeito de Fortaleza José Sarto (na época, no PDT) fez com que começasse a circular o nome de Roberto Cláudio, ex-prefeito e padrinho político de Sarto, como possibilidade de candidatura.
"Isso foi colocado e gerou desgaste, inclusive internamente", afirma Monalisa Torres. Sarto acabou tendo apenas 11,73% dos votos válidos e se tornando o primeiro prefeito a não ir para o 2º turno na disputa pela reeleição.
Apesar disso, os momentos vividos pelas respectivas lideranças e pelos próprios partidos é distinto. Enquanto o PDT tentava se recuperar do racha com o PT e do desembarque de dezenas de lideranças, inclusive prefeitos, com a ida de Cid Gomes para o PSB, o PT vive momento de fortalecimento — com resultados eleitorais positivos nas últimas eleições, bancadas numerosas no Legislativo e o comando do Executivo nas três instâncias.
O que não significa que a candidatura de Camilo Santana ao Abolição não será o caminho escolhido. "O cenário do Ceará apresenta um risco imediato e concreto", afirma Dionísio. "O PT não pode se dar ao luxo de perder o Ceará, o que deixa Camilo sem muita margem de escolha", reforça. Uma escolha que, no entanto, também deve gerar dificuldades.
"Precisa ser muito bem calculado, caso seja a decisão do partido, do grupo. Quando se abre mão da reeleição para colocar outro nome que se considera mais (competitivo), o partido e o grupo estão reconhecendo que o governo falhou, como se fosse assim uma declaração de incompetência".
Camilo Santana versus Ciro Gomes
Haveria um custo político para Camilo Santana ao voltar a concorrer ao Governo do Ceará? O professor Marcos Paulo Campos considera que não. "Ele é senador, ainda tem mais quatro anos (de mandato no Senado), tem suplente de alta confiança, é o maior líder político do Estado e desse governo. Então, não haveria algo traumático, a não ser que houvesse dificuldade do próprio governador Elmano de ceder, mas não me parece que é o caso", argumenta.
Para Dionísio, o custo para o ministro reside muito mais no risco de perder a eleição no Ceará, inclusive para futuros projetos nacionais. "Perder o Ceará seria crítico para a trajetória futura de Camilo. Não importa quão bem-sucedido seja nacionalmente. Se perder sua base de origem, seu poder político ficará estruturalmente fragilizado", diz.
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A própria citação de Camilo como quem irá "salvar" um projeto em caso de um aumento do acirramento do cenário eleitoral no Ceará também reforça o "peso que ele tem a nível estadual e de como situação e oposição veem e reconhecem o tamanho do Camilo", aponta Monalisa Torres.
Uma eventual candidatura de Camilo Santana ao Governo do Ceará "encarnaria o conflito real" da eleição de 2026, projeta Marcos Paulo. "O Ciro Gomes, se vier candidato, não vem para reagir ao governo Elmano, ele vem para reagir à liderança do Camilo. Então, a eleição (com Camilo como candidato) teria o conflito político real que ela expressa", diz.
Apesar de ainda não admitir que será candidato ao Governo do Ceará, Ciro Gomes tem liderado as articulações para a formação de uma frente ampla de oposição para enfrentar Elmano de Freitas.
Ao se filiar ao PSDB, em dezembro, Ciro disse ser “soldado do partido”, deixando em aberto a possibilidade de uma candidatura a governador. Durante o evento, Ciro Gomes se referiu ao "Governo Camilo Santana", apesar do petista ter deixado o cargo há quatro anos.
"O Ciro Gomes vai ser candidato não para interromper uma gestão desastrosa, porque não é o caso. O governador Elmano não tem uma gestão que seja reconhecida, de ponta a ponta, como incompetente, nada disso. Ele tem problemas em algumas áreas, mas ele tem uma avaliação acima da média, inclusive", afirma Campos.
"O Ciro está vindo para quebrar o ciclo político liderado pelo Camilo. Então, se o Camilo for candidato, na eleição vai estar totalmente nítido esse conflito. Se o Elmano for candidato, esse conflito estará presente, embora tenha alguma diferença porque o candidato será o Elmano e não Camilo, mas o embate é entre o Ciro e o Camilo".
Projeção nacional ou articulação local?
São muitas as conjecturas, tanto de políticos como de analistas, sobre qual deve ser o papel desempenhado por Camilo nas eleições de 2026. Por enquanto, no entanto, a única confirmação é o desejo pela saída do Ministério da Educação e pelo retorno ao centro das articulações estaduais.
Com o ganho de projeção em todo o País e o nome ventilado para candidaturas nacionais, não seria prejudicial esse "recuo"? "Às vezes voltar, dar um passo atrás é estratégico, porque está dando um impulso para alçar voos maiores lá na frente", responde Monalisa Torres.
Ela argumenta que, com um cenário estadual difícil, a vinda de Camilo para participar da campanha no Ceará como, pelo menos, até o momento, articulador e cabo eleitoral; pode mostrar que, "mesmo num cenário adverso, com uma base política complicada, heterogênea, ele é capaz", o que pode colocá-lo como "um nome muito mais viável para 2030 do que para 2026".
O retorno de Camilo vem, portanto, como modo de organizar uma base governista heterogênea em um momento de fortalecimento da oposição.
"É um recuo estratégico para se fortalecer aqui, para mostrar que é competitivo, para mostrar que é capaz, para mostrar que consegue organizar essa base heterogênea, porque o Lula é isso. O PT só conseguiu fazer o que fez porque conseguiu coordenar uma coalizão difícil e heterogênea e plural, do ponto de vista inclusive ideológico e partidário. E o Camilo está construindo isso, está consolidando, consagrando essa imagem".
Dionísio também considera que, apesar do crescimento de Camilo como liderança nacional, é necessário que ele consolide e proteja a aliança política liderada por ele no Ceará a um custo de sofrer "um arranhão significativo" na imagem em caso de derrota de Elmano para Ciro Gomes.
"Isso poderia enfraquecer sua credibilidade como liderança capaz de transferir votos e mobilizar bases eleitoralmente, e quando uma liderança empresta seu capital político e não obtém sucesso, parte desse capital é consumido no processo".
Articulação de palanques estaduais em todo Nordeste
Os analistas pontuam ainda a importância de Camilo Santana para a campanha à reeleição de Lula tanto no Ceará como no Brasil — inclusive, com a perspectiva de que o ex-governador assuma a coordenação da campanha petista no Nordeste, de olho em cenário estaduais difíceis para além do Ceará, como na Bahia e no Rio Grande do Norte.
"Essas eleições não são descasadas. Tanto o palanque do governo (estadual) se alimenta e se fortalece, ou não, a depender da força da candidatura nacional, mas a candidatura nacional também depende desse espaço que é dado, desse voto casado, digamos assim, que é construído nas campanhas quando a gente pensa em eleição geral", reforça Torres.
Portanto, Camilo deve ser uma "peça importantíssima" para o fortalecimento da campanha de Lula, porque "a atuação no MEC e as vitórias nas urnas conferiram a ele credibilidade e baixa rejeição", completa Dionísio.
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Uma eventual coordenação de campanha no Nordeste viria como resultado da atuação dele como ministro da Educação, pasta "que mais tem entregado, que mais tem colocado em prática políticas positivas, políticas que têm ajudado na melhoria da popularidade na imagem do governo", afirma Torres. Além disso, os programas da Educação têm sido articulados com os estados, o que aproxima Camilo das gestões estaduais, inclusive as nordestinas.
"Esse caminho, essa intermediação, ele já vem fazendo", afirma. "Então, não vai ser difícil ele trabalhar e atuar nesse campo como interlocutor, como coordenador de campanha no Nordeste. Fora isso, antes da própria chegada ao Ministério, ele já teve uma certa experiência na época do Consórcio Nordeste".
Portanto, existe um potencial dele como "pivô de integração regional e fortalecimento de Lula no Nordeste", mas ainda é preciso entender como a atuação institucional dele no MEC deve se converter em votos. "Essa força eleitoral dependerá também da sinergia com lideranças estaduais e da capacidade de traduzir prestígio institucional nas urnas", completa Dionísio.