Quais os desafios de Lula no Nordeste para as Eleições de 2026
Fortalecimento do bolsonarismo e queda na avaliação do governo podem ser entraves para garantir o eleitorado da região.
A chegada de 2026 acelera as estratégias eleitorais para garantir a vitória na disputa no próximo mês de outubro. Com a pré-candidatura à reeleição dada como certa, o presidente Lula (PT) tem a missão de repetir, ou até de ampliar, o resultado eleitoral alcançado no Nordeste nas eleições de 2022, quando a região garantiu o terceiro mandato do petista.
O cenário político, no entanto, tem configuração bastante distinta. Há quatro anos, Lula era o candidato de oposição ao então presidente Jair Bolsonaro (PL) e trazia consigo, em meio à crise econômica enfrentada pelo País, a "nostalgia" dos dois primeiros mandatos petistas no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2010. "Isso gerou uma expectativa muito grande de reviver esses 'momentos dourados'", aponta a cientista política e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, Jéssica Duarte. Contudo, essas expectativas nem sempre foram atendidas, especialmente no Nordeste.
Segundo dados do Instituto Quaest, a avaliação positiva do Governo Lula na região esteve abaixo dos 60% durante todo o primeiro semestre de 2025, chegando a alcançar 52% em março. Apesar da recuperação entre agosto e outubro, ela voltou a cair e encerrou o ano em 57%.
"Por uma série de motivos, sejam econômicos, internacionais ou de questões políticas, como na relação institucional com o Congresso, o Lula acabou não conseguindo atender a essa expectativa muito grande que o eleitorado brasileiro tinha como um todo, mas especialmente o eleitorado do Nordeste, que é um eleitorado lulista e que, nos governos anteriores do presidente Lula, foi o que sentiu a maior diferença na qualidade de vida, na ascensão social".
Além disso, Lula irá enfrentar uma oposição, principalmente bolsonarista, que foi sendo melhor organizada nos últimos anos, inclusive no Nordeste. A vitória eleitoral em cidades como Acaraju e a boa performance de candidatos bolsonaristas em municípios como Fortaleza é um indicativo dessa força, que deve estar presente em 2026. "O bolsonarismo tem um desejo de quebrar a 'cidadela petista' do Nordeste", explica Marcos Paulo Campos, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA).
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Os cientistas políticos entrevistados pelo PontoPoder elencam, entre as estratégias que devem ser adotadas pelo petista, a melhora na comunicação do Governo Lula 3, a necessidade de presença no Nordeste e a prioridade no aceno a eleitorados menos alinhados com o lulismo — como os evangélicos.
A força do bolsonarismo no Nordeste
A indefinição sobre quem será o candidato da direita à presidência da República — substituindo Jair Bolsonaro, inelegível e preso desde novembro do ano passado – não significa que não houve vitórias eleitorais da oposição no Nordeste. Nas eleições de 2024, por exemplo, a disputa entre bolsonaristas e petistas — ou aliados de Lula — foi acirrada.
Dentre as capitais nordestinas, Aracaju elegeu Emília Corrêa (PL) para a Prefeitura e Maceió reelegeu João Henrique Caldas (PL). Em Fortaleza, o deputado federal André Fernandes (PL) perdeu no 2º turno para Evandro Leitão (PT), mas com a menor diferença de votos registrada até aqui nas disputas municipais — de pouco mais de 10,8 mil votos.
"O bolsonarismo se organizou mais na região e buscou ter mais espaço, disputou com maior intensidade, organizou melhor as oposições aos governos estaduais da região e principalmente buscou canalizar, capitalizar na região qualquer insatisfação com o governo federal", pontua Campos.
Um dos exemplos dessa organização da oposição ocorre no Ceará. Ao longo de 2025, diferentes alas da oposição ao governador Elmano de Freitas (PT) defenderam uma 'frente ampla' para a disputa pelo Governo do Ceará, inclusive unindo antigos adversários políticos, com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) despontando como pré-candidato ao Palácio da Abolição.
O acirramento das disputas estaduais deve acender um sinal de alerta nas estratégias eleitorais do atual presidente no Nordeste. Isso porque, conforme explica o professor Marcos Paulo Campos, não interessa apenas garantir a vitória na disputa pelo quarto mandato no Palácio do Planalto.
"No Nordeste, o Lula não quer apenas os votos presidenciais. O Lula, o PT e a sua aliança certamente querem os senadores, querem as bancadas federais, querem os governos de Estado para constituir toda uma frente política que dê suporte ao possível Governo Lula 4".
A influência dos evangélicos
Os dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, mostram que os protestantes alcançaram o maior percentual da história do Brasil, representando 26,9% da população. No Nordeste, esse percentual é menor, com 16,4% se declarando evangélicas, enquanto 72,2% se dizem católicas.
Jéssica Duarte pontua, no entanto, que existe uma predominância da direita, especialmente bolsonaristas, nos templos evangélicos, especialmente os neopentecostais. "A gente não pode tratar os evangélicos nem mesmo o recorte neopentecostal como se fosse homogêneo", pondera a cientista política. "Mas há uma influência sim da extrema-direita e da oposição ao Governo Lula nesses espaços".
Ela considera que o afastamento entre os evangélicos e a esquerda, especificamente o PT, ocorreu ainda durante o Governo Dilma, quando os petistas entraram em uma "zona de conforto". "Uma zona de conformo muito grande, de acreditar que o eleitorado mais humilde, o eleitorado de trabalhadores, enfim, o brasileiro como um todo, havia sido conquistado. E foi aberto um espaço muito grande nas periferias, mesmo nas igrejas, na religião", diz.
"Na política não existe espaço vazio. Esse espaço sempre vai ser ocupado por alguém. E a extrema-direita conseguiu, de uma maneira muito estratégica, passar a ocupar esses espaços, a prestar esses serviços, chegar em alguma medida onde o estado não chega, onde as políticas sociais ainda não são suficientes para as pessoas mais humildes, que se sentem insatisfeitas, que enfrentam uma realidade muito dura".
Para Duarte, existe uma dificuldade do PT de voltar a ocupar esses espaços e de "disputar narrativas dentro do campo religioso". Mas alguns acenos são feitos a essa parcela do eleitorado, como o reconhecimento da cultura gospel como manifestação cultural — decreto assinado por Lula no dia 23 de dezembro.
Há ainda a perspectiva da indicação do titular da Advocacia Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Evangélico e membro da Igreja Batista, ele chegou a participar de um encontro no Palácio do Planalto, junto a Lula, com bispo evangélicos em outubro.
No âmbito partidário, o PT lançou um curso online e gratuito chamado "Fé e Democracia para Ativistas Evangélicos Brasileiros", uma iniciativa realizada no primeiro semestre de 2025, cujo objetivo era justamente aproximar o partido da comunidade evangélica.
"É um eleitorado importante. A maior parte dessas pessoas já votaram no Lula antes, especialmente os evangélicos do Nordeste. Eles já votaram no Lula uma vez, duas vezes, possivelmente também votaram na Dilma. Então, são pessoas que estavam dispostas a votar na esquerda ou no PT ou no Lula, mas essas pessoas foram acessadas por outros grupos políticos e hoje elas estão sendo rejeitadas por parte da esquerda", afirma Duarte.
"É uma parte importante do eleitorado, especificamente do Nordeste, e que pode sim impactar o desempenho do Lula nessa região", destaca a cientista política.
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Impacto eleitoral da queda na avaliação de 'Lula 3'
A oscilação nos percentuais de avaliação positiva do Governo Lula 3 no Nordeste possuem influência de fatores citados anteriormente, como o crescimento dos evangélicos — e uma maior rejeição dessa parcela da população à esquerda — e mesmo a maior organização da oposição na região.
Para Jéssica Duarte, deve se somar a isso uma "demora" do governo federal "para conseguir ter uma comunicação efetiva". "Essa oscilação dos dados passa muito por essa guerra de narrativas", pontua a pesquisadora. "A gente vive um período de polarização política, de disputa de narrativas muito intensa e com uma força significativa das redes sociais".
Se, por um lado, existem informações falsas ou descontextualizadas sobre as ações do governo federal, por outro, há também uma dificuldade de fazer com que as iniciativas feitas pelo Governo Lula cheguem até a população. "Não adianta a economia melhorar se as pessoas não têm a percepção de que a economia está melhorando. Não adianta as políticas serem efetivas se as pessoas não percebem as políticas como efetivas ou não se enxergam como beneficiadas pela política", resume Duarte.
Professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Luciana Santana reforça, portanto, as principais prioridades do Governo Lula para 2026: "se comunicar melhor" e "ter uma estratégia mais assertiva, principalmente com presença na região".
"Ele precisa se comunicar melhor, ter maior presença na região Nordeste, ampliar o arsenal de políticas e programas que façam diferença, que tenham impacto efetivo no eleitorado dos estados da região Nordeste. A gente tem visto muita coisa na área da assistência social, na área da saúde, na área da educação, mas precisa entender se o governo está conseguindo se comunicar de forma eficiente. Ainda não está claro se estão conseguindo".
E a melhora observada na avaliação positiva entre agosto e outubro? Os entrevistados do PontoPoder são unânimes ao falar que esse crescimento tem mais a ver com a conjuntura nacional do que com pontos específicos relacionados ao Nordeste.
Vale lembrar que foi em agosto que o 'tarifaço' do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em vigor no Brasil. "Isso gerou orgulho nacional e uma visão do Lula como um líder forte, como um líder novamente capaz de representar o Brasil e colocar o Brasil no alto, de cabeça erguida", pontua Duarte.
Um resultado positivo de reflexos ainda mais rápidos entre os nordestinos. "O Nordeste em si tem uma inclinação, um alinhamento mais imediato ao atual presidente e aos governos petistas. Então, esse alinhamento também faz com que você tenha uma percepção mais rápida de melhora na região", acrescenta Santana.
"O Nordeste, pelas características da região, recepciona melhor os efeitos positivos", concorda Campos. "Mas também aqui no Nordeste tem governos estaduais e prefeituras de capital, enfim, que se relacionam de forma muito positiva com o Governo Federal, ou seja, ampliam a mensagem do Governo Federal".
As estratégias eleitorais para 2026
Apesar de importante, a avaliação do Governo Lula é apenas um dos fatores que deve influenciar na escolha do eleitor em outubro. A melhora na própria qualidade de vida — em temas econômicos, mas também de saúde, educação e segurança —, a ideologia, o conjunto de crenças e valores e mesmo a identificação com o candidato.
Há ainda outro elemento fundamental: a comparação entre as candidaturas. "Na eleição a pessoa está escolhendo entre um indivíduo e outro, ou entre uma ideologia e outra. Tem o fator da comparação entre os candidatos, tem o fator de todas as narrativas que vão ser disputadas durante a campanha eleitoral (...) e também tem a taxa de rejeição dos candidatos", diz a cientista política.
Por isso, no Nordeste, é importante que Lula faça gestos a um eleitorado que não está automaticamente alinhado ao governo, mas que exatamente por ser nordestino "tende a votar no petismo e no lulismo", argumenta Marcos Paulo Campos. Ele cita como exemplo o eleitorado de centro, "que não é aquele eleitor que quer ouvir falar sobre política social, sobre combate à pobreza, sobre combate à desigualdade".
"Temas que são mais dos 35% (do eleitorado) que o Lula costuma ter de cara", cita. Esses são eleitores que gostam de "ver o governo atuando em certas áreas, por exemplo, no combate à corrupção".
"Quando tem a Polícia Federal atuando com toda a força, o presidente dizendo que assim deve ser, inclusive se colocando como aquele que garante todas as condições para que a Polícia Federal aja no combate à corrupção e no combate ao crime – inclusive a Polícia Federal fazendo ações casadas com governos estaduais para asfixiar os recursos do PCC, do Comando Vermelho —, isso é um conjunto de coisas que vão falando para um eleitor não imediatamente petista".
As estratégias eleitorais de Lula para 2026 precisam ser, então, variadas. Com forte ligação, e identificação, com o presidente há, pelo menos duas décadas, os eleitores nordestinos podem ter maior facilidade de votar em Lula — mesmo aqueles que não estão automaticamente alinhados com o atual governo.
"(Em 2022) Foi uma eleição muito apertada. Então, perder qualquer percentual de eleitorado, em qualquer região do País, tem um peso considerável (...) e no Nordeste, em específico, porque é a região onde naturalmente tem esse alinhamento mais direto a candidaturas petistas para as eleições presidenciais. A perda de eleitorado pode colocar em risco ou, pelo menos, tornar a eleição mais dramática para a candidatura petista".
Para isso, é preciso fazer acenos contundentes a eleitorados mais difíceis, como os evangélicos, e aprimorar ações voltadas a temas delicados, como segurança pública e combate a corrupção. E uma divulgação efetiva de ações e programas federais, com a melhora na comunicação, tanto do governo, mas também da campanha.
Existe ainda a necessidade de fortalecimento das candidaturas estaduais alinhadas ao Governo Lula – seja para governador, deputados federais ou senadores —, buscando "frear o crescimento de candidaturas da centro-direita, especialmente ligadas a Bolsonaro", como diz Santana, e "ampliar o capital político" de Lula.