Comando financeiro e político: como funcionava esquema entre facção e vereadores em Morada Nova (CE)
Contrapartida a financiamento ilícito de campanhas teria dado proteção institucional para expansão da organização criminosa.
A operação da Polícia Federal em Morada Nova, no Vale do Jaguaribe, revelou o possível envolvimento da organização criminosa Guardiões do Estado (GDE) no financiamento ilícito de campanhas eleitorais de vereadores no município, voltado à eleição de 2024. O esquema seria formado por três núcleos estruturados e interligados, envolvendo o comando da facção, operadores financeiros e agentes políticos.
É o que aponta o pedido de prisão preventiva analisado pela 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza, ao qual o PontoPoder teve acesso. O processo resultou na detenção de 16 pessoas e no cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão, a partir da deflagração da "Operação Traditori", na quinta-feira (12).
Na ação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco-CE), integrada pela Polícia Federal (PF), cinco vereadores de Morada Nova foram presos preventivamente:
- Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
- Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
- Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
- Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
- Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.
O documento detalha um “amplo e estruturado” esquema de lavagem de dinheiro praticado por integrantes da GDE para o financiamento de campanhas eleitorais em Morada Nova, com recursos oriundos do tráfico de drogas e armas, principalmente.
“O conjunto de documentos, áudios, diálogos e relatórios permite a conclusão de que há um esquema profissionalizado, contínuo e altamente estruturado de geração, circulação, ocultação e reaplicação de recursos ilícitos, com evidente interesse de expansão da influência política da organização criminosa no município”
Segundo a investigação, os recursos passavam pela contabilidade da facção e eram aplicados em campanhas eleitorais, por meio de empréstimos e pagamentos em espécie. Por outro lado, o esquema exigia contrapartidas políticas e “proteção institucional", com a nomeação de membros da GDE em cargos públicos.
Em nota, a defesa do vereador Hilmar Sérgio diz aguardar acesso aos autos para ter conhecimento da acusação e espera provar sua inocência. “Hilmar Sérgio é servidor público concursado, vereador de oito mandatos consecutivos, e afirma não ter qualquer relação com o crime organizado. A ação judicial tomou-o de surpresa e ele se encontra pronto para colaborar com a justiça”, manifestou.
Já a vereadora Gleide Rabelo afirmou “total inocência” e compromisso em colaborar para a elucidação dos fatos, por meio de nota da defesa. “Gleide Rabelo é servidora pública concursada, vereadora de dois mandatos, com atuação destacada na comunidade. Nunca foi presa ou processada por qualquer fato”, pontuou.
O PontoPoder não conseguiu localizar a defesa dos demais suspeitos de envolvimento no esquema criminoso. O espaço segue aberto para manifestação.
NÚCLEOS CRIMINOSOS
Para o esquema ser estruturado, o grupo era dividido em três núcleos integrados, de acordo com a investigação. As alas se dividiam entre as funções de comando, operações financeiras e atuação política.
1º Núcleo - Comando da facção
- Um líder da facção Guardiões do Estado (GDE) coordenava o esquema, mesmo preso. Por meio dele, o comando autorizava operações financeiras, orientava a realização de cobranças, supervisionava empréstimos e dava a palavra final sobre a destinação dos valores.
2º Núcleo - Financeiro-operacional
- A partir das ordens do comando, um operador central e diversos intermediários tinham a missão de recolher o capital ilícito, gerenciar a contabilidade paralela da facção, executar a lavagem de capitais e “agiotagem”, com empréstimo de valores a juros para terceiros, inclusive políticos.
3º Núcleo - Político
- Composto por candidatos e agentes públicos que receberam recursos ilícitos para custear suas campanhas eleitorais e, em contrapartida, estabeleceram com a facção “relações de dependência e reciprocidade”.
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CAMINHO DOS RECURSOS
Evidências colhidas de aparelhos celulares e relatórios financeiros revelam movimentações milionárias por meio do esquema criminoso. Segundo a investigação, um dos intermediários chegou a movimentar mais de R$ 6 milhões como “verdadeira ponte para a circulação do dinheiro da facção”.
Após a captação dos recursos, o núcleo financeiro-operacional da GDE ficava responsável pela lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada, contas de interpostas pessoas e operações imobiliárias. Seria o processo de "purificação” dos recursos ilícitos.
A partir da atuação da contabilidade do crime, o esquema seguia para repasse direto de recursos da organização criminosa a campanhas eleitorais, incluindo os cinco vereadores.
A investigação também cita Marco Bica (PT), candidato a prefeito derrotado em Morada Nova na eleição de 2024. Então titular da Superintendência de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra), ele foi alvo de diligências na operação da PF, mas não chegou a ser preso. Mesmo assim, o gestor decidiu se afastar do cargo "para preservar a Sohidra e garantir a tranquilidade das investigações”, alegando estar à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos.
Na deliberação, a Justiça Eleitoral negou a prisão preventiva de Marco Bica por considerar que não há atos concretos que revelem atuação em prol da organização criminosa. Contudo, os autos revelam circunstâncias que justificam o aprofundamento das investigações sobre a relação de proximidade política e pessoal dele com integrantes da facção.
CONTRAPARTIDAS POLÍTICAS
Com os recursos direcionados aos políticos, o esquema entrava na cobrança de contrapartidas. Como pagamento pelo apoio financeiro, os parlamentares beneficiados realizavam a nomeação de integrantes da facção para cargos comissionados em órgãos públicos, como na Câmara Municipal de Morada Nova.
Essa etapa tinha o intuito de garantir a infiltração do crime organizado na estrutura do poder público. Segundo a investigação, uma integrante da GDE, conhecida como “Conselheira da Disciplina Geral do Estado”, chegou a ser nomeada para um cargo em uma prefeitura do interior do Ceará.
“Verifica-se que o esquema não se limitou ao período pré-eleitoral nem se exauriu com a obtenção do mandato, mas, ao contrário, tem projetado seus efeitos diretamente sobre o exercício da atividade parlamentar, que, nesses casos, passa a funcionar como contrapartida política ao financiamento recebido”
A apuração revela, ainda, um “método de coerção típico de facções criminosas” no esquema, com cobranças violentas mediante ameaça armada. A violência seria uma forma de garantir a arrecadação, a cobrança de dívidas e a manutenção do poder da facção no meio político.
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DESDOBRAMENTOS POLÍTICOS
Além das prisões preventivas, a Justiça Eleitoral determinou o afastamento cautelar dos cinco vereadores de suas funções legislativas, por 180 dias, e o sequestro de bens e ativos financeiros dos envolvidos.
A Câmara Municipal emitiu nota após a operação, mas apenas informando que os trabalhos administrativos e legislativos dessa quinta-feira seriam suspensos, sem comentar as diligências. A Prefeitura de Morada Nova informou, por sua vez, não ser alvo da investigação e não possuir qualquer envolvimento com os fatos apurados.
O PontoPoder também acionou os partidos aos quais eles são filiados. O PT Ceará informou, por meio de sua secretaria de comunicação, que ainda não teve acesso ao processo e não foi notificado oficialmente até o momento.
Por meio de nota, nessa sexta-feira (13), a direção do PSB Ceará disse que "tomou conhecimento desses fatos, envolvendo filiados do partido em possíveis práticas delituosas", na quinta-feira, por meio da imprensa.
Apesar disso, segundo o órgão partidário, no que compete a ele, "cabe comunicar ao Diretório municipal tais fatos e solicitar as providências para que adote os procedimentos visando a apuração de possível infração ética do filiado, já que a competência para instauração de eventual processo, é da comissão de ética municipal, na forma prevista no Estatuto e Código de Ética do PSB".
"Nos casos de vereador e prefeito e/ou outros cargos no âmbito municipal é o diretório municipal que requer junto ao Conselho de Ética a devida instauração de processo. O diretório estadual acompanha e pode ser acionado pelas partes após correr o processo na esfera municipal do partido", apontou outro trecho.
"O Ministério Público, as Forças de Segurança e Criminal e o Poder Judiciário têm as suas devidas responsabilidades constitucionais. Ao partido, cabe apurar a conduta dos seus filiados levando em conta os fatos apurados, as decisões judiciais, a infidelidade e os atos que atingem a imagem da instituição partidária. Mas no caso do partido não se trata de condenar ninguém, quem condena a absorve é a Justiça", continuou.
De acordo com o comunicado, são cabíveis ao partido a aplicação de procedimentos disciplinares, como a expulsão, suspensão ou advertência dos filiados. "O partido respeita todas as decisões judiciais e se coloca sempre à disposição", completou o PSB Ceará.
O PP não se pronunciou. A reportagem será atualizada quando houver algum retorno.