Legislativo Judiciário Executivo

Foco de esquema de corrupção no Ceará, ex-prefeito Bebeto do Choró segue foragido

Mandado de prisão preventiva contra o político foi expedido em dezembro de 2024.

Escrito por
Bruno Leite bruno.leite@svm.com.br
Foto do prefeito foragido Bebeto Queiroz e o deputado Júnior Mano.
Legenda: Inquérito contra o prefeito cassado de Choró (CE) tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Foto: Reprodução/Facebook.

O prefeito cassado de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), continua com o mandado de prisão preventiva em aberto, mesmo após mais de um ano que se tornou alvo da ordem judicial, no contexto da Operação Vis Occulta, deflagrada pela Polícia Federal (PF) no final de 2024. 

O político, que foi cassado por decisão da Justiça Eleitoral, chegou a ser preso depois da eleição municipal que o elegeu em 2024, numa ação da PF com apoio do Ministério Público Eleitoral (MPE). Ele é acusado de comandar um esquema de compra de votos no último pleito.

O inquérito contra Bebeto tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob responsabilidade do gabinete do ministro Gilmar Mendes, em razão da citação de autoridades com foro privilegiado, a exemplo do deputado federal Júnior Mano (PSB).

Segundo indicaram as investigações, o político que está foragido participou de um esquema criminoso com influência nas eleições de dezenas de municípios do Ceará.

Investigações apontaram que valores utilizados para compra de votos foram obtidos por meio de um esquema de "caixa dois", envolvendo contratos públicos direcionados a empresas vinculadas à organização criminosa.

Conforme as autoridades policiais disseram na época, os recursos seriam destinados ao financiamento ilícito de campanhas eleitorais, comprometendo a lisura do processo democrático.

Como mostrou o Diário do Nordeste, até setembro do ano passado haviam sido realizadas apenas duas investidas para tentar localizar Bebeto Queiroz. Uma delas aconteceu no Ceará. A segunda, em outro estado nordestino.

Segundo uma fonte ligada à investigação, quando os policiais chegaram ao suposto local onde Bebeto estava, lá já não havia mais rastros da permanência do foragido.

O que dizem as forças de segurança?

Nesta sexta-feira (13), ao ser indagada, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS-CE) informou que a reportagem buscasse a Polícia Federal. De acordo com a pasta, a corporação é que "está coordenando a investigação relacionada ao caso". 

A PF, entretanto, respondeu que, "infelizmente, não comenta investigações em andamento".

A defesa de Bebeto disse que só se posiciona nos autos dos processos. Ao que disse uma nota, enviada ao PontoPoder pela assessoria de comunicação do político, "todas as manifestações são apresentadas exclusivamente nos procedimentos respectivos, foro adequado para o debate das questões em análise".

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Habeas corpus negado

Em julho de 2025, os advogados do réu chegaram a impetrar um habeas corpus para reverter o ato do ministro do STF, Gilmar Mendes, que determinou sua prisão.

A iniciativa buscada pela defesa foi negada pelo ministro Alexandre de Moraes. Ao indeferir, Moraes destacou o entendimento, firmado pelo Supremo, de que não é cabível habeas corpus contra ato de ministro ou de órgão colegiado da Corte. 

O início da investigação

A investigação que pesa contra Bebeto partiu de denúncias feitas pela ex-prefeita de Canindé, Rosário Ximenes (Republicanos).

Em depoimento ao Ministério Público do Ceará (MPCE), ainda durante a campanha eleitoral de 2024, ela disse que havia uma rede criminosa que operava por meio de ameaças a adversários e ofertas de "vantagens materiais e financeiras a eleitores em troca de votos". 

As investigações apontam ainda que o deputado federal Júnior Mano teria papel central no esquema. A denunciante alegou que a base do esquema era o repasse de emendas parlamentares do parlamentar para municípios cearenses. Nas prefeituras, os valores eram desviados para empresas comandadas por “laranjas”.

Foto de Júnior Mano, deputado federal pelo Ceará.
Legenda: Investigações da PF indicaram que Júnior Mano teria papel central no esquema criminoso.
Foto: Billy Boss/Câmara dos Deputados.

Em julho de 2025, Mano foi alvo operação Underhand, da PF, deflagrada no Ceará e no Distrito Federal. Na ocasião, o político teve seu gabinete como um dos endereços de cumprimento dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF.

Nesta sexta-feira, no contexto da divulgação de informações do relatório final da investigação, a equipe de comunicação do congressista emitiu um comunicado à imprensa afirmando que "a Polícia Federal nada encontrou de relevante" contra ele, mesmo depois de um ano de investigação.

"Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais", argumentou, salientando que o político afirma não ter cometido irregularidades.

Cassação de Bebeto

No mês de agosto do ano passado, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) decidiu manter a cassação de Bebeto Queiroz e do seu vice, Bruno Jucá (PRD), pela participação no esquema criminoso investigado.

A Corte ainda aplicou uma multa de R$ 53,2 mil, determinou a inelegibilidade do prefeito por oito anos e ordenou a realização de novas eleições na cidade — estas realizadas no início de março deste ano.

Na decisão, o TRE-CE destacou a robustez do conjunto de provas, que indica a captação ilícita de voto e o abuso de poder econômico, segundo os magistrados.

As provas incluíram mensagens extraídas de aparelho celular de Queiroz, revelando negociações explícitas de recursos em troca de votos, além de transferências bancárias realizadas por intermédio de pessoas próximas ao candidato. 

Os desembargadores apontaram ainda a apreensão de mais de R$ 500 mil em espécie às vésperas da eleição, e a participação de familiares de Bebeto na operacionalização dos repasses.

A decisão do TRE-CE confirmou uma sentença anterior, proferida em abril daquele ano pela 6ª Zona Eleitoral de Quixadá. Na oportunidade, a Justiça Eleitoral também declarou a inelegibilidade de ambos os políticos — a medida foi revisada para Jucá no julgamento do Tribunal Regional Eleitoral.

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