Caso Júnior Mano: PF aponta engrenagem para comprar eleições, capturar prefeituras e desviar verbas
A defesa de Júnior Mano nega irregularidades, critica conclusões da PF e aponta vazamento seletivo de informações; advogados de Bebeto dizem que se manifestarão apenas nos autos.
A Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o relatório final das investigações contra o deputado federal cearense Junior Mano (PSB) e o ex-prefeito foragido de Choró, Bebeto Queiroz (PSB). A dupla é apontada como peças centrais de um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares para financiar campanhas eleitorais, controlar gestões municipais e obter enriquecimento ilícito com recursos públicos.
O documento, ao qual o PontoPoder teve acesso nesta sexta-feira (13), foi enviado ao relator do caso na Suprema Corte, o ministro Gilmar Mendes, no último dia 29 de janeiro. Nele, os investigadores descrevem o que seria a atuação do deputado e daquele que atuaria como seu braço direito e principal operador do esquema, o ex-prefeito de Choró.
A assessoria jurídica do deputado federal Junior Mano afirmou que a PF não encontrou elementos relevantes contra o parlamentar. A defesa classificou as conclusões do relatório final como “exageradas, genéricas e sem provas”, destacando que o deputado não é ordenador de despesas nem participa de licitações. O deputado também negou irregularidades e criticou o vazamento seletivo de informações sigilosas em meio às definições de candidaturas para as eleições. Já a defesa do ex-prefeito Bebeto Queiroz disse que todas as manifestações serão feitas apenas nos autos dos processos.
Como funcionava e quais os objetivos do esquema?
Segundo as investigações, a captação de recursos para sustentar a organização ocorria principalmente por duas vias ilícitas: a negociação de emendas parlamentares federais, que previam um retorno de propina variando entre 12% e 15%, e fraudes sistemáticas em licitações municipais.
Conforme a PF, nessas licitações, empresas controladas pelo grupo, como a MK Empreendimentos, AM Transportes e Cariri Edificações, simulavam concorrência entre si para garantir o domínio dos recursos públicos, que eram posteriormente desviados mediante fraudes na execução das obras. Para movimentar esses valores sem despertar alertas das autoridades, a organização utilizava um sofisticado sistema de lavagem de dinheiro, com o emprego de "laranjas" e empresas de fachada.
Os recursos lavados eram reinvestidos na compra direta de votos, com valores negociados entre R$ 200 e R$ 500, incluindo a prática da "casadinha" para prefeito e vereador e até a entrega de materiais de construção em troca de apoio, segundo as investigações.
Ainda de acordo com o relatório policial, o gabinete de Junior Mano exercia um monitoramento rigoroso desse investimento através de planilhas detalhadas, que mapeavam o controle político sobre 71 municípios cearenses. A manutenção do esquema também dependia do controle da narrativa pública, operado através do suborno sistemático de radialistas e jornalistas para silenciar críticas ou atacar adversários políticos sob comando do parlamentar.
Paralelamente, o grupo tentava ampliar sua influência sobre a máquina pública, exercendo ingerência sobre a Caixa Econômica Federal para tentar nomear aliados, visando facilitar a liberação de verbas federais oriundas de contratos de repasse.
O conjunto probatório colhido pela PF aponta ainda que, em nível municipal, o controle chegava a ser absoluto em cidades como Choró, onde tesoureiros pediam autorização a Bebeto para movimentar recursos da prefeitura em favor de interesses privados do grupo. Todo esse esquema delitivo tinha como objetivo final garantir um sólido "recall de votos" para Junior Mano em pleitos estaduais e federais, de acordo com a Polícia.
Quem é quem no esquema?
Bebeto Queiroz, ex-prefeito de Choró, foragido
A PF identifica Carlos Alberto Queiroz Pereira, o “Bebeto do Choró”, como o líder máximo e “núcleo irradiador” das condutas investigadas. Ele teria a palavra final sobre a gestão dos recursos ilícitos e a coordenação da compra de votos, inclusive com ingerência em diversas gestões municipais.
Ao analisar documentos e aparelhos eletrônicos dos investigados, os agentes da Polícia Federal encontraram elementos que indicam Bebeto como controlador de dezenas de empresas usadas para pagar despesas pessoais e eleitorais dele e de aliados políticos, além de manter troca de mensagens com a negociação de valores para a compra de votos. Ele também atuava, segundo a apuração, para influenciar agentes da Segurança Pública.
Ele é indiciado por organização criminosa, compra de votos, lavagem de dinheiro e fraudes licitatórias em concurso com outros investigados.
Deputado federal Junior Mano (PSB)
O deputado federal Junior Mano aparece no relatório como líder político e patrocinador institucional, responsável por oferecer proteção política, articular emendas parlamentares, indicar assessores e operadores e participar de estratégia eleitoral.
A PF aponta diálogos com Bebeto, menções a “cotas” de campanha, uso de assessores para operacionalizar recursos, suposta participação em manipulação de pesquisas e interferência na liberação de verbas via banco público. Ele é indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e compra de votos.
Cleidiane de Queiroz Pereira
A PF aponta a Cleidiane de Queiroz Pereira, irmã de Bebeto Queiroz, o papel de gestora operacional do esquema ao lado do familiar. A ela é atribuído o controle sobre planilhas de mapeamento de caixa dois, intermediação de pagamentos e logística de campanha. O relatório menciona comunicação constante da mulher com operadores, inclusive com o uso de linguagem cifrada para ocultar ilícitos. Ela é indiciada por organização criminosa, lavagem de dinheiro e compra de votos.
Maurício Gomes Coelho
Ele é apontado como operador financeiro central, responsável por movimentação de valores, saques fracionados e repasses para campanhas. A PF menciona condutas suspeitas, como saques de altos valores em datas próximas às eleições, empresas sem capacidade operacional e o uso do termo “imposto” como codinome para propina. Ele é indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro, compra de votos e fraudes licitatórias.
Carlos Douglas Almeida Leandro
Ele aparece como operador empresarial ligado a fraudes contratuais, com emissão de notas frias e simulação de medições de obras. A PF menciona diálogos tratando contratos como “dinheiro livre” e atuação em diversos municípios. Ele é indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro, fraude à licitação e compra de votos.
Lúcio Alves Barroso
O relatório descreve Lúcio Alves Barroso como operador político-financeiro local, com prestação de contas informal a Bebeto, entrega de dinheiro por intermediários e controle de contratos municipais. Ele é indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos.
Iago Viana Nascimento
É apontado como integrante do núcleo empresarial responsável por sustentar financeiramente o grupo. Controlador da empresa Colinas Construções, depois renomeada para SFC Serviços, ele atuaria no financiamento de campanhas, controle de empresas de fachada e direcionamento de recursos para compra de votos. Segundo a PF, a empresa recebia recursos de prefeituras e os convertia em dinheiro por meio de saques fracionados. Há indícios de participação em organização criminosa, compra de votos, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral.
Iago Mariano Pedrosa Santana
Aparece nas investigações como responsável por atender pedidos de Bebeto relacionados ao pagamento de radialistas e influenciadores, especialmente em Morada Nova, considerada estratégica para fortalecer eleitoralmente o deputado Junior Mano. Conversas indicam repasses para comunicadores que atacavam adversários políticos. Ele foi indiciado por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Alan Deybson Paulino Bezerra
Atuaria em funções logísticas e de confiança dentro do grupo. Ele teria participado da entrega de dinheiro em espécie, seguindo ordens diretas para separar e distribuir valores. Em depoimento, relatou a estrutura interna do grupo e apontou empresários como integrantes do núcleo financeiro. A PF vê indícios de organização criminosa com fins eleitorais e lavagem de dinheiro.
Bruno Nascimento dos Santos, Carlos Dyogo Queiroz Moura e Maria Aurilene Martins Pinheiro
A PF aponta o trio como laranjas e operadores do esquema, com contas usadas para ocultar origem e destino de valores e bens em nome de terceiros, além de incompatibilidade de renda. Eles são indiciados por organização criminosa, lavagem de dinheiro e compra de votos.
Adriano Almeida Bezerra
O assessor parlamentar é apontado como intermediador institucional, citado por pressão sobre servidores da Caixa e tratativas relacionadas à liberação de recursos, com atuação atribuída em nome de Junior Mano. Ele é indiciado por organização criminosa com fins eleitorais e lavagem de dinheiro.
O grupo atuou nas eleições de quais municípios?
A Polícia Federal enfatiza, em seu relatório, que a atuação dos investigados era caracterizada por uma vasta capilaridade territorial, espalhando-se por dezenas de municípios cearenses, inclusive com um controle detalhado em planilhas que abrangiam prefeituras, partidos e a situação eleitoral de 71 municípios cearenses.
Segundo o relatório, o epicentro das atividades ilícitas se concentrava em Canindé e Choró, cidades onde a influência de Bebeto Queiroz era mais expressiva e onde se registravam os maiores volumes de recursos movimentados por empresas de fachada. Além desses, cidades como Morada Nova, Baixio, Capistrano e Ibicuitinga são destacadas como pólos centrais de interesse, onde o grupo operava para capturar a máquina pública e garantir o controle sobre o orçamento público.
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De acordo com a PF, a engrenagem financeira e política da organização estendia-se também a Nova Russas, base política de Junior Mano e município comandado por sua esposa, a prefeita Giordanna Mano (PRD). As investigações citam ainda indícios de operação do grupo em Itapajé, Tianguá, Pacajus, Aquiraz, Maracanaú, Aracati, Pacatuba, Quiterianópolis, Beberibe, Cascavel, Caucaia e Ocara.
Outras frentes de atuação, envolvendo desde fraudes em licitações até o monitoramento constante de intenções de voto, incluíam os municípios de São Gonçalo do Amarante, Mombaça, Iguatu, Aratuba, Boa Viagem, Limoeiro do Norte, Quixadá, Tururu e General Sampaio.
O relatório menciona ainda intervenções ou repasses financeiros vinculados ao grupo em cidades como Acopiara, Amontada, Pedra Branca, Aracoiaba, Pacoti, Salitre, Pires Ferreira, Reriutaba, Catunda, Monsenhor Tabosa e Guaiúba.
O que dizem os indiciados?
Procurada pelo PontoPoder, a assessoria jurídica do deputado federal Junior Mano disse que, após um ano de “ruidosa investigação, a Polícia Federal nada encontrou de relevante contra o parlamentar”.
“As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas. Junior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais”, aponta a nota assinada pelo corpo jurídico do deputado.
“O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade. É lamentável o vazamento seletivo de informações sigilosas justamente num momento em que os partidos começam a definir as candidaturas para as eleições deste ano. Esperamos que o inquérito aberto pela PF para apurar o vazamento de dados protegidos por sigilo apresente uma resposta clara contra o uso de informações processuais com fins políticos”, concluiu.
A defesa do ex-prefeito Bebeto Queiroz informou que “todas as manifestações são apresentadas exclusivamente nos procedimentos respectivos, foro adequado para o debate das questões em análise”.
A defesa dos outros citados não foi localizada pela reportagem.