Caso Júnior Mano: deputados federais do Ceará são citados em investigação de desvio de emendas
Os parlamentares, porém, não aparecem no relatório da PF como indiciados.
O relatório final elaborado pela Polícia Federal que investiga um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares para a compra de votos em municípios cearenses, que teria como operador o deputado federal Júnior Mano (PSB), incluindo a menção a outros quatro deputados federais do Ceará, foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O documento, ao qual o PontoPoder teve acesso, mostra a citação ao deputado federal Matheus Noronha (PL), filho do ex-deputado federal Genecias Noronha (PL) — também citado — que não aparecia em documentos divulgados em 2025.
Além dos políticos que integram a mesma família e Júnior Mano, três congressistas — Yury do Paredão (MDB), José Guimarães (PT) e Eunício Oliveira (MDB) — que já haviam aparecido em documentos do caso, em razão de citações em conversas, seguem no documento final.
No contexto da primeira divulgação dos nomes, no ano passado, a PF indicou a necessidade de uma apuração específica sobre os achados relacionados aos deputados federais. E a Suprema Corte acatou o pedido.
Naquela ocasião, o ministro Gilmar Mendes, relator no STF, autorizou diligências policiais no gabinete de Mano e em endereços em cinco cidades. No mesmo documento, o Supremo abriu investigação sobre a participação dos outros deputados federais no esquema de desvio de emendas.
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O caso, notório pelo envolvimento do prefeito cassado de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), está no Supremo Tribunal Federal em razão do foro privilegiado dos políticos investigados.
O esquema em questão teria influenciado as eleições de dezenas de municípios do Ceará em 2024. Investigações apontaram que valores utilizados para compra de votos foram obtidos por meio de um esquema de "caixa dois", envolvendo contratos públicos direcionados a empresas vinculadas à organização criminosa.
Os recursos seriam destinados ao financiamento ilícito de campanhas eleitorais, comprometendo a lisura do processo democrático.
Júnior Mano foi indicado à época como “operador ativo da engrenagem criminosa”, enquanto os demais surgiram em citações de terceiros, sem apresentar diálogo ou contato direto com Bebeto, suposto coordenador do esquema junto a empresas de fachada. Ele está foragido desde dezembro de 2024.
Avanços nas investigações
Citações que antes eram consideradas esparsas ganharam densidade no relatório final, com a apreensão de dispositivos eletrônicos. A PF concluiu que o uso de emendas parlamentares — especialmente as "emendas pix" — servia como ferramenta de financiamento ilegal de campanhas e enriquecimento indevido.
A extração de dados dos celulares de Bebeto e seus assessores comprovou que a liberação de recursos federais estava condicionada ao pagamento de percentuais fixos ao grupo criminoso.
O relatório menciona que o interesse dos parlamentares por informações sensíveis — como pré-candidaturas ligadas a facções criminosas — e a posse de documentos de investigações em curso indicam uma rede de monitoramento para proteção do esquema.
Júnior Mano mantinha 'sociedade' com Bebeto
No relatório final da PF, Júnior Mano é apontado como o líder político do grupo, atuando em "sociedade" com Bebeto. O documento destaca que ele operava emendas parlamentares com cobrança de propina, geralmente estipulado em 15%, para alimentar um caixa paralelo destinado à compra de votos e financiamento de campanhas aliadas.
O pessebista ainda utilizava seu cargo para interferir em nomeações e decisões na Caixa Econômica Federal, visando facilitar contratos de repasse que beneficiavam o esquema.
Em seu gabinete e residência, os policiais encontraram planilhas que relacionavam mais de 70 prefeituras sob sua influência e agendas com anotações de "urgência de pagamentos".
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelaram pagamentos de faturas de cartão de crédito que consumiam quase a totalidade de renda mensal declarada pelo deputado federal, além de depósitos fracionados em espécie.
Interpelada, a assessoria de Mano enviou uma nota declarando que, após um ano de investigação, "a Polícia Federal nada encontrou de relevante" contra ele. "As conclusões do relatório final são exageradas, genéricas e sem provas", discorreu.
"Júnior Mano não é ordenador de despesas, não participou de licitações e, portanto, não tem como controlar a aplicação final de recursos federais. O deputado reafirma, com firmeza, que não cometeu qualquer irregularidade", continua o comunicado.
Yury do Paredão
No relatório final, a investigação avançou ao identificar uma interlocução direta e indireta do parlamentar com o núcleo de Bebeto do Choró. Foi assinalada a indicação de uma "emenda pix" no valor de R$ 10 milhões para Choró em 2024.
Uma assessora de Yury foi flagrada em diálogos cobrando de Bebeto planos de ação sobre essa emenda, evidenciando que o operador tinha poder de decisão sobre recursos federais no município.
Em mensagens diretas, o próprio deputado questiona Bebeto sobre limites de saúde em "alguma cidade sua", o que a PF interpreta como o reconhecimento de que Bebeto controlava de fato certas gestões municipais.
Em nota, o político disse que "ser citado não significa ser investigado" e "tampouco implica autoria ou participação em qualquer ato ilícito".
Ao que pontuou, ele "não é investigado por nenhuma instituição", sempre prestou contas de suas ações "com transparência e responsabilidade", assim como "permanece à disposição das autoridades e da imprensa para prestar todos os esclarecimentos necessários".
José Guimarães
As menções envolvem a oferta de emendas parlamentares intermediadas por aliados políticos. Diálogos interceptados mostram Bebeto negociando uma suposta emenda proveniente de Guimarães para a saúde em Choró e Canindé.
A negociação passaria por Ilomar Vasconcelos (PSB), atual vice-prefeito de Canindé, que chega a afirmar em áudio que o "pessoal do Guimarães" queria fazer o negócio e que ele (Bebeto) ficaria com 12% de comissão.
Indagada, a equipe de comunicação do petista enviou uma certidão de antecedentes criminais, emitida em 31 de julho de 2025 pelo STF, indicando "não constar" registro de processo de natureza criminal de competência originária da Corte em nome do político. "Não há atualização", frisou a assessoria na devolutiva.
Eunício Oliveira
O relatório o coloca como agente ativo em certas articulações. Bebeto faz referência a Eunício não apenas como apoio político, mas como alguém que atuava na destinação de verbas.
Em um áudio, Bebeto afirma ter ouvido o emedebista dizendo que mandaria R$ 1 milhão adicional para contribuir com Canindé, além dos recursos de Guimarães.
O político foi procurado através da assessoria para que pudesse se manifestar, mas não houve resposta até a última atualização deste texto.
Genecias Noronha
Ele é mencionado devido a transações financeiras vultosas identificadas em relatórios de inteligência. Segundo o relatório, Bebeto recebeu duas transferências de R$ 1 milhão cada provenientes de Genecias Noronha.
Além disso, um assessor de seu filho (o deputado Mateus Noronha) foi encontrado no apartamento funcional de Junior Mano durante uma operação policial.
Procurado, o político alegou que nunca negociou emendas parlamentares. "Estive 12 anos como deputado federal e nunca tive processos por corrupção. Nunca fui citado em nada ilícito", completou em mensagens enviadas ao PontoPoder.
Mateus Noronha
Foi identificada uma conversa com Junior Mano, na qual discutem a indicação de "3,5" (interpretado como R$ 3,5 milhões), reforçando a conexão operacional entre os gabinetes dos parlamentares. Procurado, o político não comentou sobre o assunto.