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Júnior Mano e família de Wesley Safadão são investigados por propina e privilégios indevidos

Relatório da Polícia Federal acessado pelo PontoPoder apontou contexto de “entrelaçamento” entre a família do cantor e o deputado federal.

Escrito por
Luana Severo luana.severo@svm.com.br
(Atualizado às 19:15)
Montagem de fotos mostra print de conversa entre Júnior Mano e Safadão e o deputado indo para o avião do artista.
Legenda: O inquérito mostrou prints de diálogos entre o deputado federal Júnior Mano e o cantor Wesley Safadão. Também há registros do parlamentar utilizando aeronaves do artista.
Foto: Reprodução.

Uso indevido de aeronave privada em campanha, suspeita de propina e de desvio de verba pública, articulação eleitoral e pressão para acelerar a fixação de datas de shows em benefício de prefeituras aliadas. Esses são os indícios levantados pela Polícia Federal ao apontar que a relação entre o deputado federal Junior Mano (PSB) e o cantor Wesley Safadão teria ultrapassado a barreira das agendas e cordialidade e transbordado para a "gestão concreta de interesses" — especialmente com os irmãos do artista, Watila, e o ex-prefeito de Aracoiaba, Edim Oliveira (PP).

No inquérito que o PontoPoder teve acesso, a investigação aponta que a relação entre a família "Safadão" e o parlamentar ultrapassou a cordialidade para uma gestão concreta de interesses, onde a estrutura de shows e de bens de luxo do cantor teria sido utilizada de maneira coordenada como engrenagem política de Júnior Mano.

Um dos primeiros indícios abordados no processo de quase 400 páginas é uma suposta cobrança de propina no valor de R$ 200 mil que teria sido feita por Mano à empresa BetVip, de Safadão, para um evento em Nova Russas, em 2024.

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Em um dos prints anexados ao processo, há uma conversa entre Mano e Safadão no WhatsApp, em que o deputado diz: “Cantor, passando aqui humildemente um patrocínio da bet vip no valor de 200k para o nosso evento, precisando muito mesmo. Olha a grade e me ajude!! [sic]”. Para a PF, o texto indica "trato direto e sem intermediários" com o artista.

Junto ao pedido de "patrocínio", o político anexou vídeos, fotos e encartes sobre o evento que tinha Safadão como a principal atração. Pouco depois, o cantor pediu para retomar o diálogo apenas no dia seguinte, porque estaria de saída para uma "oração". "Ore por nós", respondeu Mano.

Print de conversa entre Júnior Mano e Safadão.
Legenda: Um dos diálogos aponta para uma suposta cobrança de propina.
Foto: Reprodução.

A suspeita dos investigadores é que os pedidos de “patrocínio” do parlamentar tenham sido, na verdade, um jeito camuflado de receber propina, com a devolução de parte dos valores contratados para os shows, a exemplo de uma apresentação de Safadão em Nova Russas, onde ele teria recebido R$ 900 mil, e em Morada Nova, onde o cachê teria sido de R$ 1 milhão.

O PontoPoder solicitou posicionamento sobre o assunto à assessoria do artista, mas foi informado que não haverá.

Suposto recebimento de propina

Conforme o documento, a solicitação de dinheiro por Júnior Mano a Safadão pode ter sido feita após a indicação do cantor como atração musical em Nova Russas — cidade administrada pela esposa do político, Giordanna Mano (PRD). À época, o artista foi contratado na modalidade de inexigibilidade de licitação (quando a concorrência é considerada inviável), pelo valor estimado de R$ 900 mil.

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O cachê é semelhante ao que foi pago pela Prefeitura de Morada Nova — cidade de influência de Júnior Mano — a Safadão em outro evento, em que o cantor teria recebido R$ 1 milhão. "Esse extrato referente à contratação em Morada Nova foi encontrado nos arquivos pessoais do parlamentar [Júnior Mano]. Esse contexto permite inferir que os prints localizados se tratam de solicitação camuflada de propina, com devolução de parte do valor contratado", escreveu a PF.

Print de um dos contratos de Wesley Safadão com a Prefeitura de Nova Russas.
Legenda: Um dos contratos do cantor com a Prefeitura de Nova Russas foi no valor de R$ 900 mil.
Foto: Reprodução/Portal da Transparência.

Liberação de aeronave de WS para campanha eleitoral

Outro ponto da relação entre Mano e Safadão que causou "estranhamento" à Polícia Federal foi a solicitação feita pelo parlamentar ao ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, para liberar duas aeronaves vinculadas ao cantor, com a justificativa de uso urgente em campanhas eleitorais e alegação de tramitação documental protocolada na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

Print de diálogo entre Júnior Mano e o ministro de Portos.
Legenda: A investigação mostrou uma conversa entre o deputado Júnior Mano e o ministro de Portos e Aeroportos.
Foto: Reprodução.

"Bom dia, meu ministro querido. Tudo na santa paz? Passando 2 pedidos pra você do mesmo assunto: liberação de 2 aeronaves do Wesley safadão (o vendedor só libera com essa autorização) da Anac. Precisando urgente, porque vou andar nesse menor nas campanhas, não aguento mais carro... rsrs", escreveu o deputado federal em um dos prints analisados pela PF.

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Gestão de agenda para beneficiar prefeituras aliadas

Em outro diálogo com uma mulher identificada como servidora do Serviço Social do Comércio (Sesc), Júnior Mano demonstra estar preocupado com a agenda de shows de Wesley Safadão em Nova Russas. Na conversa, via WhatsApp, ele pede celeridade administrativa para evitar o repasse da agenda a terceiros: "Tô preocupado com a data do cantor passar pra frente", disse.

Segundo a PF, a "defesa ativa, pelo deputado, de compromissos voltados ao interesse da Prefeitura de Nova Russas e de determinado cantor", reforçam a "intersecção entre políticas municipais e agenda de atrações artísticas".

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Carro de luxo na garagem

O relatório da Polícia Federal também menciona o cumprimento de mandados de busca e apreensão no condomínio onde morava Júnior Mano em Fortaleza. No local, foi encontrado um veículo de luxo registrado em nome da empresa YW Administração de Bens LTDA, de propriedade de Watila Oliveira da Silva, irmão e gestor da carreira artística de Safadão.

O automóvel estava estacionado em uma das vagas privativas pertencentes ao apartamento do deputado, o que, para os investigadores, comprova o vínculo com a família "Safadão" e aponta indício de ocultação patrimonial.

Direcionamento de verba

Conversas com o assessor direto de Júnior Mano, Adriano Bezerra, também foram alvo da investigação feita pela PF. Em um dos prints anexados ao processo, é negociada a liberação de recursos para "10k de asfalto" na sede de Aracoiaba, cidade até então administrada por outro irmão do cantor, Edim Oliveira (PP).

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