Campanhas eleitorais de 2026 têm integração de novas e velhas estratégias de marketing
Especialistas destacam ‘uma virada estrutural’ para as propagandas deste pleito.
As campanhas eleitorais irão começar oficialmente em 16 de agosto, conforme calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entretanto, as movimentações e os discursos políticos passam a surgir ainda na atual fase de pré-candidatura.
Jingles, carreatas, comícios, esses termos são conhecidos quando se trata da busca por votos. Apesar das propagandas tradicionais, as estratégias vêm mudando nos últimos anos, e estarão vivendo “uma virada estrutural” em 2026.
A afirmação vem de Lelo Maia, especialista em Marketing Eleitoral. Ele observa que as forças de disputa no pleito serão simultâneas, e estão surgindo graças à evolução e difusão das plataformas digitais. Influenciadores regionais, Inteligência Artificial (IA) e campanhas em aplicativos serão alguns dos eixos do marketing.
Com isso, o especialista entende que “o eleitor cearense em 2026 vai estar muito mais exposto à campanha eleitoral do que em qualquer eleição passada”, visto o alcance almejado pelos candidatos.
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A perspectiva também se reforça pela quantidade de cargos a serem renovados este ano, com vagas para Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador e Presidente. O número de candidatos, portanto, também deve contribuir para o maior disparo de propagandas eleitorais.
Além disso, para as vagas proporcionais, a Lei das Eleições, de 1997, assegura aos partidos a possibilidade de registrar até 100% do número de lugares a preencher mais um. Para o Ceará, isso significa que cada legenda pode ter até:
- 47 candidatos para deputado estadual;
- 23 candidatos para deputado federal.
Novas forças eleitorais
Para Lelo Maia, os eixos de campanha que necessitam de maior atenção serão aqueles difundidos em redes sociais. Os reels do Instagram e do Tik Tok, os grupos de mensagens comunitários e a Inteligência Artificial serão veementes nesse pleito.
Segundo o especialista, cada eixo merece um cuidado específico para o eleitor. Enquanto a armadilha da velocidade está inserida nos vídeos curtos, com gravações de convencimento em até 15 segundos, as comunidades do Whatsapp e Instagram atuam na perspectiva do “disfarce”.
“É a mensagem que chega vestida de conversa de gente próxima, de amigo, mas é campanha por trás”, explica Lelo.
Os grupos de mensagens, como bem explica o especialista, têm muito pode na decisão do voto cearense, às vezes mais que eventos em palanques e praças. Isso se dá porque o eleitor “se sente mais à vontade para expor suas opiniões e absorver opiniões alheias” nesse ambiente digital.
Já quanto à IA, a atenção necessária é para a possibilidade de falsificação:
Antes de repassar para o grupo da família, é importante que o eleitor confira. O eleitor que repassa fake news não é vítima, é parte de uma engrenagem. Por mais que ele não saiba disso, por mais que ele não tenha consciência disso.
A atenção para essa nova ferramenta também é apontada pelo especialista em Inteligência Eleitoral, Paulo Pontes, que afirma que há hoje uma “inteligência preditiva” ligada à IA.
“Hoje, eles estão trabalhando com análise de sentimento. A Inteligência Artificial (IA), nessas eleições, está com um olhar muito voltado para entender o que é que o eleitor está pensando e qual o sentimento que ele está tendo, que é o que a gente chama de inteligência preditiva”, explica Paulo.
Importância das ruas
Apesar da força digital, as ruas continuam sendo decisivas para o pleito:
No interior cearense, especialmente nos municípios pequenos ali do sertão, a rádio FM ainda decide voto. O jornal de bairro, o carro de som, a presença física do candidato em romaria, nas feiras livres dos municípios, nas igrejas, tudo isso pesa. Quem subestimar essa camada, perde o sertão antes mesmo da campanha começar.
As estratégias presenciais devem permanecer através da integração com as redes sociais, conforme concordam Lelo Maia e Rayane Moreira, consultora de Marketing Político. Isso significa que comícios, palanques e passeatas, hoje, funcionam como “matéria-prima” para a criação de conteúdo digital.
Em quem os candidatos vão mirar?
Os especialistas apontam para campanhas mais personalizadas e focadas em perfis específicos. Paulo Pontes observa haver um foco nos eleitores que ainda não estão inseridos nas “bolhas” polarizadas, entre o que classifica como “lulismo e bolsonarismo”.
“Isso quer dizer que, na eleição presidencial no Brasil, ou em qualquer estado que esteja trabalhando com polarização, os dois lados, direita e esquerda, vão brigar por apenas 10% da população”, afirma Paulo.
Para o especialista, os candidatos devem apostar em propagandas para os núcleos ainda passíveis de mudança no sufrágio, como a Geração Z, o público da terceira idade, empresários, liberais, evangélicos e o eleitor independente, que não vota nos lados polarizados.
O voto do público mais novo que compõe a Geração Z, ou seja, jovens entre 16 e 24 anos, também é destacado por Lelo Maia. Ele considera este um “eleitor mais volátil, mais conectado nas redes sociais e que decide por afinidade cultural antes de ideologia”.
Além de responder melhor às estratégias de marketing eleitoral das redes sociais, o peso destes jovens também aumentará para os próximos pleitos, sendo este o momento de as siglas os conquistarem.
Agenda eleitoral
As estratégias da base governista e da oposição, apesar de focarem na integração entre o presencial e o digital, têm distinções quanto às temáticas escolhidas para conquistar o eleitor. Como pontua a consultora Rayane, um lado irá focar nas realizações e entregas, enquanto o outro trará contrastes e críticas.
Lelo Maia, por sua vez, aponta os eixos principais que devem estar em foco para cada lado nessas eleições, quando tratado dos candidatos que disputam vagas majoritárias.
Para o cargo de governador do Ceará, por exemplo, a aposta dos especialistas se fixa nos seguintes tópicos:
- Base governista: capilaridade municipal, narrativa de entrega e robusto horário eleitoral;
- Oposição: pauta de segurança pública, discurso de renovação e mídia paga.
Além disso, a presença simultânea em todas as microrregiões cearenses também será essencial para o marketing dos candidatos à governador, segundo Lelo.
Senadores, deputados e presidente
Em escala, as estratégias dos candidatos podem até se assemelhar, mas os focos eleitorais mudam a depender do cargo disputado. Nas duas vagas para senador, por exemplo, o especialista em Marketing Eleitoral observa a ideia de construir uma marca pessoal forte de cada candidato.
“Aqui, não é capilaridade que decide a disputa, é diferenciação. É o político que se diferencia do outro. É quem o eleitor lembra primeiro quando pensa em senador”, pontua Lelo.
Já para as vagas deputado, os candidatos devem focar nas micro bases territoriais, ou seja, um “segmento de identidade que sustente capital eleitoral próprio”.
Em concordância, Paulo Pontes observa, ainda, a contribuição das prefeituras para uma possível reeleição desses parlamentares:
Chegou o momento de os prefeitos devolverem os benefícios conquistados através das emendas de deputados. Então, assim como a gente teve o maior índice de reeleição [de prefeitos] nas últimas eleições de 2024, que foi 85%, se prevê que os prefeitos, mais do que nunca, vão trabalhar para a reeleição dos seus deputados, que estão em parceria dessa relação institucional que se considerou através das emendas.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.