Morada Nova: Câmara Municipal suspende atividades após prisão de vereadores
Como desdobramento, a Casa deve convocar suplentes e definir a composição da nova Mesa Diretora.
A Câmara Municipal de Morada Nova suspendeu as atividades administrativas e legislativas após ser alvo de operação da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (12). A vice-presidente da Casa, Jane Martins (PDT), chegou a abrir sessão plenária após o espaço ser liberado pelos agentes policiais, mas os trabalhos foram encerrados por falta de quórum. Nesta data, segundo a corporação, cinco vereadores foram presos preventivamente, incluindo o presidente, Hilmar Sérgio (PT), e outros membros da Mesa Diretora.
Apesar de contar com 15 vereadores, incluindo os que foram alvo de mandado de prisão, registraram presença apenas quatro parlamentares, conforme o 2º vice-secretário, Davi Sousa (PT). Ao PontoPoder, ele informou que a Câmara ainda não foi notificada judicialmente sobre a prisão dos colegas. Por isso, não há como dar andamento formal a procedimentos de convocação de suplentes e de eleição da nova Mesa Diretora.
"Soubemos da notícia, mas não recebemos decisão judicial. A sessão começou por volta das 9h30, pós-operação, porque não tivemos acesso à Câmara antes disso. Agora, é aguardar", disse.
A reportagem buscou a vereadora Jane Martins para mais detalhes sobre os trabalhos na Casa, mas não houve retorno. Também sem sucesso, o PontoPoder tentou entrar em contato com a 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza, responsável pela expedição dos mandados, para entender por que a Câmara não foi notificada judicialmente.
Vereadores são alvo de operação
Os parlamentares são suspeitos de financiarem suas campanhas políticas nas eleições de 2024 com recursos oriundos de lavagem de dinheiro de uma facção criminosa da região.
Foram cumpridos 30 mandados de busca e apreensão nos municípios de Fortaleza, Chorozinho, Morada Nova, Limoeiro do Norte e Pedra Branca, no Ceará, além da cidade de São Paulo (SP). A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE) vistoriou diversos endereços; entre eles, estão a sede da Câmara Municipal e residências e empresas ligadas aos investigados. Foram presos preventivamente:
- Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
- Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
- Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
- Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
- Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.
Marco Bica, titular da Superintendência de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra), ex-procurador da Prefeitura de Morada Nova e ex-presidente da Câmara, também foi alvo da operação, mas não está preso.
Além das prisões e buscas, a decisão da 93ª ZE determinou o afastamento cautelar de agentes públicos, bem como sequestro e bloqueio de bens e valores dos investigados, com o objetivo de interromper o fluxo financeiro da organização criminosa.
Procurado pela reportagem, o PT Ceará informou, por meio de sua secretaria de comunicação, que ainda não teve acesso ao processo e não foi notificado oficialmente até o momento. O PontoPoder procurou a assessoria de imprensa do PSB e a direção do PP. A reportagem será atualizada quando houver algum retorno.
Como funcionava o esquema?
Daniel Pinheiro, delegado da Polícia Federal responsável pelo caso, explicou à reportagem que os vereadores investigados teriam sido beneficiados financeiramente, durante as eleições de 2024, por uma facção criminosa que atua na região. O dinheiro era movimentado por uma empresa de fachada – foram lavados cerca de R$ 100 milhões –, em esquema que se alimentava com trocas de favores. Da parte dos políticos, o pagamento ocorreria com "nomeações".
O policial não revelou o nome do grupo criminoso, nem em que setor a empresa era registrada. Também não detalhou se as nomeações ocorriam no Município ou em outras instâncias. Por meio de nota, a Prefeitura de Morada Nova esclareceu que "não é alvo da investigação e não possui qualquer envolvimento com os fatos apurados".
Já a Secretaria dos Recursos HÍdricos do Ceará (SRH), a quem a Sohidra é vinculada, comunicou que está apurando os fatos e realizando uma análise interna sobre a situação. "As informações estão sendo avaliadas e, assim que houver definição sobre as medidas cabíveis, elas serão comunicadas oficialmente", complementou.
A discrição se deve ao trâmite sigiloso do processo nos órgãos competentes. O que se sabe é que os vínculos políticos da facção não eram o foco inicial da investigação, mas sim o tráfico de drogas. Por isso, conforme o delegado da Polícia Civil de Morada Nova, Erivelton Almeida, a PF foi agregada ao processo somente após o surgimento de indícios de crime eleitoral.
"Em 2024, a gente instaurou um inquérito para investigar tráfico de drogas e organização criminosa na cidade. Era a Polícia Civil de Morada Nova juntamente com o Departamento do Interior Sul (DPI Sul - PCCE). Nessa operação, a investigação culminou em 21 mandados de prisão, cumpridos em fevereiro de 2025. Conseguimos prender 21 membros dessa facção. Dentre eles, tinha um que era o chefe financeiro da facção, e ele pegava parte desse dinheiro e fazia investimentos. Foi detectado que ele financiava campanhas de políticos. Como é um crime eleitoral, a gente repassou esse material para a Polícia Federal", relatou.
A partir daí, a operação desta quinta ocorreu por meio da FICCO/CE. A composição reúne forças de segurança estaduais e federais, incluindo Polícia Civil do Ceará (PCCE), Polícia Federal, Polícia Militar do Ceará (PMCE), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização (SAP), Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce).