Cearense dom Hélder Câmara no peito do Galo da Madrugada
Muitos religiosos — das mais variadas igrejas e denominações — costumam vociferar contra o Carnaval. Nunca foi o caso de dom Hélder Câmara (1909-1999), o cearense internacional escolhido pelo bloco pernambucano Galo da Madrugada como o grande homenageado de 2026.
Arcebispo emérito do Recife e Olinda, a ilustríssima cria do Seminário da Prainha (Fortaleza) sabia valorizar a festa sem preconceito ou sermões moralistas. “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida”, dizia, abençoando os foliões que passavam nas proximidades da igrejinha das Fronteiras, na capital de Pernambuco.
Com sagacidade e humor do Ceará, dom Helder perguntava, diante dos fiéis mais assombrados: “Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval”.
Por essas e outras tiradas espirituosas é que o arcebispo recebe a homenagem sob o tema “Galo Folião Fraterno”. No próprio peito da ave gigante foi colado um coração que representa dom Helder, uma iniciativa dos artistas Leopoldo Nóbrega e Júlio Gonçalves.
Quem vê da ponte sobre o Rio Capibaribe, ao lado do Cine São Luiz e no caminho de “O Agente Secreto”, parece escutar a voz do homenageado, cochichando para a massa: “Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.