Legislativo Judiciário Executivo

Qual o histórico e o que está em jogo na escolha do candidato a vice-presidente da República?

De FHC a Lula, a trajetória das chapas presidenciais mostra que a vice-presidência ocupa lugar estratégico no desenho do poder e na estabilidade do governo.

Escrito por
Beatriz Matos, de Brasília producaodiario@svm.com.br
Fotografia em plano médio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin, lado a lado, sorrindo. Lula, à esquerda, segura um microfone e veste um terno azul-marinho com camisa azul clara. Alckmin, à direita, veste terno azul-marinho, camisa branca e gravata lilás. Ao fundo, outras pessoas aparecem desfocadas em um ambiente com painéis verdes.
Legenda: A vaga de vice de Lula está em plena discussão para fortalecer a chapa presidencial nas eleições de 2026.
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Desde a redemocratização, o Brasil aprendeu que o vice-presidente não é uma figura decorativa. Em alguns momentos, foi uma ponte de estabilidade. Em outros, tornou-se protagonista da crise. A decisão de manter ou trocar o companheiro de chapa, especialmente em uma tentativa de reeleição, sempre revelou muito mais do que afinidade pessoal.

De acordo com os especialistas ouvidos pelo PontoPoder, o vice é uma equação de estratégia, cálculo de poder e também, leitura de risco institucional.

Recentemente, esse cálculo voltou ao centro do tabuleiro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está reavaliando a composição da chapa e deve utilizar a posição do vice como instrumento de ampliação da base no Congresso Nacional.

O que antes circulava apenas nos bastidores de Brasília começou a ganhar corpo e já transborda para o debate público. Lideranças partidárias do centrão sabem que a cadeira ao lado de Lula é a peça-chave para garantir sustentação num eventual novo mandato. Partidos como o MDB, PSD e outras siglas do centrão já começaram a sinalizar que há espaço para negociação.

É nesse ambiente de rearranjo que o vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), se antecipou. Ele já demonstrou interesse em continuar na chapa, mas também comunicou ao presidente que não é “empecilho” para a formação de uma aliança com outro partido na vice. Alckmin também reafirmou que não pretende disputar outro cargo eletivo caso precise sair da vice-presidência. Ainda assim, deixou uma porta entreaberta ao afirmar que pode ajudar Lula “em qualquer posição”, se houver um pedido direto do presidente.

Veja também

PSB quer Alckmin na disputa

A fala de Alckmin, no entanto, não resume a posição do partido que integra, o PSB. Durante uma agenda com Lula, o presidente nacional do PSB, o prefeito do Recife João Campos, deixou claro que a legenda não apenas deseja, mas “considera importante” a permanência do vice Alckmin na chapa de reeleição.

Para o PSB, a vice não é apenas simbólica. A permanência de Alckmin é vista como estratégica para ampliar a bancada federal do partido em 2026, tanto na Câmara quanto no Senado.

João Campos tem reforçado e defendido publicamente a permanência do nome pessebista na chapa: “não se mexe em time que está ganhando”. E completou que Alckmin “faz um grande trabalho” e demonstra “grande capacidade”

O fator Alckmin

A escolha de Geraldo Alckmin em 2022 serviu como o xeque-mate definitivo, sendo um “casamento” perfeito para complementar o que faltava na esquerda e no Lula. Alckmin alcançava um setor que o PT, sozinho, não acessava: o empresariado.

Mas o que era uma "ponte" em 2022 hoje começa a parecer um tabuleiro instável.

Nos corredores de Brasília, a pergunta que não quer calar é se essa dobradinha sobrevive ao teste de 2026. O sinal de alerta acendeu quando o próprio Lula, em entrevista ao UOL, jogou um balde de água fria nos entusiastas da chapa e a pelo que parece, o presidente Lula já tem uma próxima missão para seu “futuro ex-vice”: "Alckmin tem um papel a cumprir em São Paulo", disse Lula. A fala do presidente já é o indicativo de que o “casamento arranjado” não vai vingar até a próxima disputa presidencial.

Mas, apesar de parecer que apenas o PT precisava de Alckmin, a escolha também era estratégica para o próprio vice. Afinal, Geraldo Alckmin estava sem partido após deixar o PSDB em 2021, legenda que ajudou a fundar e na qual permaneceu por 33 anos.

Foi nesse contexto que avançaram as articulações que o levaram ao PSB e, posteriormente, à composição da chapa com Lula.

A aliança deu certo, e segue dando. Hoje, além de vice-presidente, Alckmin comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Nos bastidores do Planalto, aliados avaliam que a atuação do vice-presidente nas negociações do chamado “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos (EUA) no ano passado ajudou a elevar a popularidade do pessebista. Foi ele quem coordenou reuniões com representantes da indústria, articulou com o Ministério da Fazenda e trabalhou para evitar uma escalada comercial que pudesse afetar exportações brasileiras.

Em setembro do ano passado, uma pesquisa da Genial/Quaest, que ouviu mais de 2 mil entrevistados, mostrou que Geraldo Alckmin desponta como opção preferencial entre eleitores lulistas. Em um possível cenário sem Lula na disputa, 9% dos entrevistados gostariam que Alckmin fosse o sucessor do líder petista. Inclusive, Alckmin aparece à frente de nomes historicamente mais vinculados ao presidente, como Fernando Haddad, que registrou 5% da preferência.

Histórico das chapas

Desde a aprovação da Emenda Constitucional de 1997 que passou a permitir a reeleição para cargos do Executivo, a manutenção do vice-presidente tornou-se o movimento predominante nas disputas por um segundo mandato. O levantamento das chapas presidenciais desde 1994 revela que presidentes candidatos optaram por preservar seus companheiros de governo.

  • Fernando Henrique Cardoso (PSDB) governou entre 1995 e 2002 ao lado de Marco Maciel (PFL, partido que hoje integra o União Brasil após fusões). Reeleito em 1998, manteve o mesmo vice.
  • Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez o mesmo. Eleito em 2002 e reconduzido em 2006, teve como vice o empresário mineiro José Alencar (PL-MG, depois PRB-MG) nos dois mandatos.
  • Dilma Rousseff (PT) repetiu a chapa com Michel Temer (PMDB, hoje MDB) na reeleição de 2014. Tendo assumido a Presidência em agosto de 2016, após o impeachment da petista.
  • Jair Bolsonaro foi a única exceção. Eleito em 2018 pelo PSL ao lado do general Hamilton Mourão (PRTB), optou por trocar o vice na tentativa de reeleição. Em 2022, já filiado ao PL, Bolsonaro substituiu Mourão por Walter Braga Netto (PL).

Ao analisar o histórico recente das chapas presidenciais, o jurista e cientista político Melillo do Nascimento destaca que a relação entre presidente e vice nem sempre segue a mesma lógica. “Entre ganhos políticos e lealdade pessoal, o presidente que apostou nesta última teve melhor relação com o seu vice”, afirma. Ele cita como exemplo “a experiência mais bem-sucedida” a parceria entre Lula e José Alencar e, em contraste, “a pior experiência” a de Dilma Rousseff com Michel Temer, se referindo ao impeachment que a ex-presidente sofreu em 2016.

O especialista em Políticas Públicas, Eduardo Galvão, até explica que a repetição da manutenção nas reeleições não é coincidência. “Isso não se consolidou como tradição por hábito, mas por cálculo. Em ano de reeleição, estabilidade é ativo”, afirma. Segundo ele, “trocar o vice significa reabrir negociações, redistribuir poder e assumir riscos desnecessários em um momento em que o discurso central é continuidade”, explicou.

O cientista político Jackson De Toni também reforçou que manter ou trocar o vice é sempre um movimento estratégico. “Historicamente, quando se troca o vice, quase sempre é sinal de mudança de estratégia — ou para ampliar coalizão, ou para reorganizar facções internas.” Para ele, mantém-se o vice quando a coalizão está relativamente estável; troca-se quando há fricção intra-coalizão ou necessidade de sinalizar novo equilíbrio de forças.

O cargo que pode virar Presidência

O jurista Melillo Nascimento resume a equação política por trás da escolha de um vice-presidente: “São diversos elementos que compõem esta equação: relação pessoal, lealdade política, cálculo eleitoral, importância da bancada, apoios regionais”. Ele acrescenta que, embora a máxima diga que “em time que está ganhando, não se mexe”, a política “não é feita apenas de racionalidade”, afirmou.

O especialista Eduardo Galvão, explica que o peso institucional do cargo de vice vai além da estratégia eleitoral. Para Galvão, a experiência brasileira reforçou que o cargo não é decorativo. “O vice-presidente nunca foi detalhe”, destacou. Ele lembrou que a Constituição de 1988 estabelece que o vice substitui e sucede o presidente, o que transformou o cargo em variável central de continuidade institucional.

O professor trouxe exemplos claros de que vice não é “só um detalhe”, relembrando experiências brasileiras passadas que reforçam esse entendimento. Como por exemplo, a sucessão de Itamar Franco, após a renúncia de Fernando Collor em 1992, e a ascensão de Michel Temer, depois do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, consolidaram essa percepção: “o vice pode se tornar presidente de um dia para o outro”, afirmou Eduardo Galvão.

É nesse cenário que a disputa por espaço na coalizão, ou, a escolha do vice, ganha densidade política. O cientista político Jack De Toni, relembra que após o impeachment de Dilma a vice passou a ser analisada também sob a ótica de risco: “vice é reserva de poder e pode se tornar pivô de rearranjo de coalizão em crise”, pontuou.

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados