Ator de 'Cidade de Deus' vive em situação de rua e conta que recebeu R$ 5 mil por papel
O intérprete de Neguinho chegou a ser preso quase um ano após o filme e hoje vive de cidade em cidade tentando a vida
O ator de "Cidade de Deus" Rubens Sabino da Silva, conhecido por estar em uma das cenas mais famosas da produção, onde é dita a frase "Dadinho é o c***lho, meu nome agora é Zé Pequeno, po***!", hoje vive em situação de rua. O filme, indicado quatro vezes ao Oscar, completou 20 anos neste ano.
O intérprete de Neguinho, personagem que teve a boca de fumo tomada por Zé Pequeno, revelou, em entrevista ao jornal Extra, que recebeu um cachê de R$ 5 mil, apesar do sucesso mundial da produção. À época, em 2002, ele tinha 18 anos e conseguiu o papel quando andava pelas ruas da Lapa e viu cartaz para o teste.
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"O filme é um dos mais vistos até hoje, foi indicado quatro vezes ao Oscar. Eu virei um morador de rua famoso, mas não rico, enquanto 'Cidade de Deus' arrecadou milhões. Na época, ganhei um cachê de R$ 5 mil. Com a nota do contador, passou para R$ 4,5 mil", revela.
Ele contou que está na rua praticamente a vida toda e já tentou oportunidades até em Portugal: "Eu ando por várias cidades do Rio, São Paulo, Minas, Sul do País. Vou pedindo esmola e que me paguem passagens. Às vezes, vou para lugares distantes, achando que ninguém vai me reconhecer. Eu não tenho casa, minha morada é o mundo. Ainda quero conhecer o Nordeste".
Prisão e isolamento
Em junho de 2003, quase um ano após o lançamento, Rubens foi preso por roubar a bolsa de uma mulher em um ônibus na zona sul do Rio de Janeiro. Ele contou, na ocasião, que estava sem comer há dias.
"Cometi um crime e me arrependo muito. Eu era muito moleque, fiz essa idiotice. Quando o camarada tem a ficha limpa, pode fazer concurso público. Eu não posso mais", comentou ao Extra. Ele teve problemas com drogas, mas afirmou que "está limpo".
O ator conta ainda que não gostou da forma como foi tratado pela produção de "Cidade de Deus" após a prisão. Os produtores o enviaram para um centro de recuperação onde ele passou três anos. Ele perdeu, inclusive, a oportunidade de ver a cerimônia do Oscar.
"Como é que um ator assiste à premiação do Oscar de um filme de que ele é um dos principais dentro de uma clínica de reabilitação? Eu vi pela televisão a festa acontecendo em um hotel aqui do Rio, todos reunidos, e eu afastado. Era para ser o auge da minha vida. Eu me fechei para tudo, não tenho contato com mais ninguém do elenco", desabafou ao jornal carioca.
Documentário
Rubens voltou a aparecer em uma produção audiovisual em “Cidade de Deus: 10 anos depois”, da Netflix, em 2012. "Fiquei muito exposto. Contei toda a minha história, me levaram na Central do Brasil, compraram uns quatro sacos de amendoim pra eu revender e me deixaram na rodoviária. Fui ingênuo, continuei na mesma, pedindo esmola na rua. Não quero mais ser visto como coitadinho", expõe.
Procurado pelo Extra, o diretor Cavi Borges disse que Rubens recebeu cachê pelas entrevistas: "A gente tirou dinheiro do próprio bolso para bancar o documentário. Eu avisei aos atores que eu tinha R$ 300 para dar por entrevista. Estive com Rubinho três vezes e dei R$ 1 mil".
"Aí ele sumiu por um tempo e voltou me cobrando mais R$ 1 mil, senão não autorizaria o uso de imagem. Quando conseguimos um patrocínio da Secretaria de Cultura para finalizar o filme, demos mais R$ 1 mil", relatou Borges.
Sobre as dificuldades de vida de Rubinho, o diretor conta: "Rubinho é um cara muito inteligente, articulado, um super ator. Mas tem o problema do vício em drogas. De tempos em tempos ele reaparece dizendo que eu e Fernando Meirelles [diretor de "Cidade de Deus"] o exploramos. É triste, porque Fernando tentou, inclusive, pagar reabilitação, e ele fugiu da clínica".