Após um ano e meio, comunidades retomam atividades em Fortaleza; 'vamos agora resgatar os jovens'

Avanço da vacinação, melhora nos indicadores da pandemia e medidas sanitárias permitem retorno gradual seguro

CELC
Legenda: Na 4ª etapa do onjunto Ceará, quadras, campos, praças e outros espaços públicos voltaram a ser frequentados por gente de toda idade para prática de esportes
Foto: Thiago Gadelha

O forró que embalava os ensaios de quadrilhas juninas no calçadão do Vila do Mar, no bairro Pirambu, silenciou por 18 meses; assim como o berimbau e o arrastar de pés da capoeira na quadra do Conjunto Ceará. Com o recuo da Covid, porém, os ritmos voltam a pulsar.

Comunidades das periferias de Fortaleza têm conseguido retomar, de forma gradual, as atividades sociais, culturais e esportivas que ocupam e formam a mente de crianças e adolescentes em espaços públicos da cidade.

No calçadão do Vila do Mar, por exemplo, os fins de tarde voltaram a ser preenchidos, desde agosto deste ano, pelas atividades do Instituto Cai Cai Balão, que oferta capoeira, esportes, danças e aulas de zumba à população do entorno do Grande Pirambu.

“Ficamos parados com as atividades presenciais de março de 2020 a julho de 2021, mas continuamos com ações online. Hoje, acompanhamos os decretos, de acordo com o que vai liberando, vamos aumentando a quantidade de crianças”, comemora Fábio Lessa, arte-educador e liderança dos projetos.

capoeira no calçadão do Vila do Mar
Legenda: Aula de capoeira no calçadão Vila do Mar, no bairro Pirambu
Foto: Arquivo pessoal

O Instituto Cai Cai Balão surgiu a partir do grupo de quadrilha junina de mesmo nome, criada há 41 anos. Segundo Fábio, os ensaios, confecção de roupas e acessórios tomam todo o tempo dos adolescentes – que caíram no ócio com a ausência das programações.

“Alguns meninos participavam da quadrilha há muito tempo, e nesses dois anos sem atividades presenciais não conseguimos mantê-los perto. Aconteceram situações em que quase perdemos eles pro crime. E queremos agora resgatar esses jovens”, projeta o arte-educador.

Fábio destaca que as próprias famílias pedem pelo retorno pleno das atividades, porque não conseguiram, “sozinhas”, lidar com as crianças e adolescentes durante o longo isolamento social.

A mãe chorou me dizendo que ‘graças a Deus que o projeto ia voltar’, que não tinha condições de atender os filhos. Senti, a partir de uma mãe, a relação de alegria e de alívio das famílias.
Fábio Lessa
Arte-educador

“Quando o esporte parou, eles fraquejaram”

A meia hora do Pirambu, na 4ª etapa do bairro Conjunto Ceará, quadras, campos, praças e outros espaços públicos voltaram a ser frequentados por gente de toda idade para prática de handebol, futsal, capoeira, muay thai, vôlei e futebol de campo, após longos meses de isolamento.

As atividades são capitaneadas pela Associação Celc, tendo como “base” principal a “ex-quadra da fumaça” – equipamento abandonado, utilizado para consumo de drogas, que foi revitalizado e reativado de maneira independente pela comunidade.

“Batizamos o local de Espaço Celc. Nos últimos meses, estamos ocupando outros espaços, porque crescemos bastante. Famílias inteiras participam juntas das atividades”, orgulha-se Juruna Lima, coordenador da Celc e morador da comunidade há 38 dos 40 anos de vida.

CELC
Legenda: As atividades capitaneadas pela Associação Celc têm como “base” principal a “ex-quadra da fumaça” – equipamento abandonado, utilizado para consumo de drogas, que foi revitalizado e reativado pela comunidade
Foto: Thiago Gadelha

Durante os meses “parados” pela Covid, a vulnerabilidade se impôs. “É uma constante na vida deles”, lamenta Juruna, referindo-se aos adolescentes e jovens que se refugiam no esporte para não “fraquejarem”.

“Tinha menino que tava comigo há anos, e na pandemia eu soube que tinha se envolvido com crime, sido preso. O prejuízo social foi o pior possível. Quando o esporte parou, eles fraquejaram”, diz Juruna, que faz questão de alertá-los: “se tiver com viagem torta, não vai jogar”. 

Ele mesmo, capitão do barco, se viu, muitas vezes, afogado na ansiedade, quando a rotina foi congelada pela pandemia. Foi a primeira vez, desde a adolescência, que se viu parado por tanto tempo.

Saio do trabalho e vou direto pro projeto. Desenvolvi o lance da ansiedade, coisa que eu nunca tinha tido. Sempre estamos de mãos atadas quanto às crianças, mas ali eu literalmente não podia fazer nada, não podia ir à casa deles, chegar perto. Foi pesado.
Juruna Lima

CELC
Legenda: Famílias inteiras participam juntas das atividades”, orgulha-se Juruna Lima, coordenador da Celc
Foto: Thiago Gadelha

Para Flávio, 10, que pratica futsal duas vezes por semana, a paralisação das atividades foi além: resultou em aumento de peso e ansiedade, como relata a mãe, a agente de saúde Francilene da Silva, 44.

“De início, fiquei muito resistente de ele voltar, por medo do vírus. Mas resolvi permitir, com todos os cuidados, e percebi a diferença: o Flávio é outra criança quando está fazendo atividades”, pontua Francilene, que vê os problemas de saúde mental entre crianças se multiplicarem na rede de saúde.

Usufruir do espaço público enquanto o filho pratica esportes é “válvula de escape” inclusive para ela, cuja única saída de casa, além do trabalho, é para levar Flávio ao futsal na quadra do bairro.

É o nosso lazer. Antes, a gente ia menos a esses locais do nosso bairro, porque ia pra shopping, praia. Hoje, valorizamos mais.
Francilene da Silva
Agente de saúde

Vida de volta às ruas

Para crianças, adolescentes e adultos, voltar ao convívio e a compartilhar atividades é “imprescindível” sob diversos aspectos, já que “estar somente em família não é suficiente”, como pontua Ticiana Santiago, psicopedagoga e professora universitária.

“Retomar essas atividades e interações sociais de crianças e adolescentes com seus pares, com qualidade e de forma estratégica, é importante para o desenvolvimento, a noção de identidade e a subjetividade, nesse momento de transição”, destaca.

Fortalecer os vínculos, ela frisa, é ainda mais indispensável num contexto em que a sociedade tenta retomar a normalidade, mas ainda lidando com a pandemia – crise que levou crianças e adultos ao adoecimento, inclusive mental.

Estar em espaços públicos, como praças, quadras e campos, em contato com a natureza, permite que eles corram, pulem, se expressem, principalmente quando temos casas cada vez menores.
Ticiana Santiago
Psicopedagoga

Para Ticiana, é preciso que as famílias voltem a priorizar a ocupação desses espaços públicos – tanto pelo perfil de sociabilidade quanto pela ainda necessária prevenção contra a Covid. “Que voltem a ir a praças e parques, lugares mais abertos, e menos shoppings”, finaliza.

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