Sexta-Feira 13: lenda de cobra gigante dentro de lagoa assombra moradores da periferia de Fortaleza

Reaparecendo de tempos em tempos e desaparecendo sem deixar rastros, a antiga “Isaura” amedronta gerações de fortalezenses

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Ilustração de uma cobra amarelada em um rio acinzentado. A cobra tem um olho só e dois chifres, como um boi, e está de boca aberta.
Foto: Lincoln Souza

Das profundezas das águas escuras de uma lagoa sai uma cobra gigante rastejando em sua direção. Esse é um dos temores que pairam sobre a comunidade dos bairros Floresta, Padre Andrade e Álvaro Weyne, na periferia de Fortaleza, há muitas sextas-feiras 13.

Mito ou não, muitos moradores evitam se arriscar nas proximidades da Lagoa do Urubu. Antes de se tornar um local temido pelo risco de ações criminosas, o reservatório é creditado como morada de uma serpente que tem até nome: Isaura.

Os relatos que correm nas redondezas atribuem o sumiço de animais que pastam na beira da lagoa ao grande réptil. Outro causo conta que, quando a Prefeitura decidiu limpar o local, em meados de 2005, a cobra se enrolou num trator, afugentando o operador da máquina.

“Eu já ouvi até que ela comeu gente”, comenta o barbeiro Gabriel Rodrigues, entre o riso e a nostalgia. “Escuto desde criança e dizem que até hoje ela vive por lá, mas ninguém sabe. Eu nunca vi”.

O comerciante Paulo Bezerra, morador do Floresta há quase 10 anos, também garante que nunca se deparou com Isaura, mas não se arrisca a desmentir quem afirma já tê-la visto rastejando por perto. “Quem fala mais é quem mora mais perto da lagoa”, explica.

Origem do mito

Uma das versões mais comuns relata a história de uma jovem chamada Isaura, tão bela que provocava inveja em outras moças do bairro. O sentimento negativo teria levado ao encantamento de uma rival que condenou Isaura a se transformar em uma enorme serpente.

Contudo, a história mais plausível não tem relação com encantamentos ou maldições. É o que revela a arte-educadora e memorialista Ivânia Maia, do projeto “Teatro nos quintais - Memórias virtuais da periferia de Fortaleza”, que entrevistou moradores antigos do bairro em busca de figuras populares e mitos do folclore popular da área.

O principal relato é da artesã e costureira Laura Nobre, falecida em 2018. Ela morava na Rua Carnaubal, no bairro Floresta, que passa ao lado da Lagoa do Urubu. Segundo a mulher, o mito de Isaura remete ao povoamento da região, quando ainda era cheia de mato e fauna nativa. 

Legenda: Laura Nobre, artesã que guardou na memória os causos da cobra Isaura.
Foto: Bruna Maia

Confira, abaixo, a história contada por Laura e outros habitantes a Ivânia:

Dizem que havia um casal de idosos que criava uma cobra - “certamente uma jiboia”, opina Ivânia -, como animal de estimação. Com o tempo, o casal morreu e a cobra migrou para a lagoa, onde foi crescendo e tomando grande proporção. 

Mas, de tempos em tempos, ela reaparece, e seu tamanho varia de acordo com quem a vê. Alguns falam que tem mais de 10 metros; que sua cabeça é do tamanho de vaca; o corpo, grosso como um tronco de carnaúba, e, a pele, desenhada em tons marrons. Da mesma forma, ela desaparece sem deixar vestígios e se esconde no capinzal da beira da lagoa.

Até hoje dizem que ela está lá, e que as cobras que acharam depois são seus filhotes,  mas a Isaura mesmo, não. Nas noites de lua cheia, quem passa pela Rua Carnaubal consegue ouvir o ronco dela. 

Ataque ou defesa?

A própria Laura Nobre testemunhou dois causos relacionados à cobra. No primeiro, um conhecido seu, o senhor Luís - a quem ela ajudava a vender pamonhas - sumiu enquanto passeava com a vaca que criava.

A esposa do homem procurou a artesã para ajudá-la nas buscas. Ele foi encontrado desmaiado perto de uma cacimba no entorno da lagoa. Ao acordar, a esposa perguntou:

– Homem, o que tu viu? O que aconteceu? 

– Mulher, ela tava aí! É de verdade mesmo, tava toda enrolada no coqueiro!

Sem encontrar a vaca, Luís até achou que Isaura havia comido o animal. Contudo, descobriu depois que, com o susto do qual ele foi vítima, a vaca correu e voltou para casa. 

Legenda: Sumiço de animais à beira da lagoa é atribuído à serpente gigante.
Foto: Fabiane de Paula

No segundo episódio, um rapaz decidiu tomar banho na lagoa e, aparentemente, começou a se afogar. O filho de Laura, Francisco, decidiu ajudá-lo e também pulou na água, mas desapareceu.

Foi então que Laura pediu ao marido, Raimundo, para acudir o filho. Já em terra, Francisco contou que não achou o afogado, mas viu uma enorme sombra se locomovendo dentro da água.

Somente no dia seguinte, surgiu o corpo morto do banhista desafortunado. Estava com as duas pernas quebradas.

“O povo assim que viu, logo falou: isso só pode ser coisa da Isaura! Na certa se enrolou nas pernas dele!”, rememorou Laura.

Segundo Ivânia Maia, Isaura fica irada e passa a assustar se alguém perturbar seu sossego, principalmente ao mergulharem na lagoa.

O poder da lenda

Para a memorialista, a saga de Isaura começa como uma história verídica que, com o tempo, vai ganhando a inclusão de novos aspectos - como o despertar provocado pela lua cheia, a exemplo dos lobisomens.

Além disso, a perpetuação do mito pode ter relação com alertas de mães, pais e responsáveis para evitar que os filhos pequenos saiam de casa sozinhos, reproduzindo medos como os da “Hilux Preta” e do “Velho do Saco”. 

“Os mitos surgem entre o real e o imaginário, e os seres humanos sempre precisaram de fantasia”, finaliza.