Em parceria com a Nasa, Uece usa 'minicérebro' e testa remédio disponível no SUS para Síndrome de Rett

Pesquisa também pode ampliar estudos sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Escrito por
Gabriela Custódio gabriela.custodio@svm.com.br
Professora Denise Carvalho, do Laboratório de Genética Médica (Lagem), da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
Legenda: Considerada rara, a síndrome de Rett é causada por uma alteração no gene MECP2 do cromossomo X e pode afetar entre 5 e 10 meninas a cada 100 mil no mundo.
Foto: Divulgação/UECE

Um medicamento acessível, disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), tem sido testado como possível terapia para a Síndrome de Rett, uma doença genética rara. Um estudo da Universidade Estadual do Ceará (Uece) está investigando a eficácia da lamivudina, um antirretroviral, para interferir na progressão da doença.

Ainda no escopo dessa pesquisa — realizada em parceria com a Universidade de San Diego, na Califórnia, e com a Nasa — há a perspectiva de avaliar, no futuro, o impacto da medicação para casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Coordenada pela professora Denise Carvalho, do Laboratório de Genética Médica (Lagem), a pesquisa se trata de um ensaio clínico em que 12 meninas diagnosticadas com Síndrome de Rett vão tomar a lamivudina por um período de três a seis meses.

Essa etapa ocorre após bons resultados em estudos pré-clínicos in vitro e em camundongos, liderados pelo pesquisador brasileiro Alysson Muotri nos Estados Unidos.

A Síndrome de Rett é causada por uma alteração no gene MECP2 do cromossomo X e pode afetar entre 5 e 10 meninas a cada 100 mil no mundo. Inicialmente, a criança tem o desenvolvimento normal, mas a doença leva a uma perda gradual de habilidades sociais, da fala e dos movimentos.

Os sintomas levam a comportamento do espectro autista, como os movimentos repetitivos.

“Com o tempo, nos casos mais graves, elas (as pacientes) podem desenvolver epilepsia refratária, convulsões de difícil tratamento, perda da coordenação, movimentos estereotipados, alterações motoras, perda da habilidade de andar — em mais de 50% dos casos — e perda da fala. E ainda podem ter alterações respiratórias”, explica a professora e médica geneticista Denise Carvalho.

A pesquisa teve início a partir do trabalho de Muotri com os chamados minicérebros, estruturas criadas em laboratório para replicar o cérebro humano em estágios iniciais.

“Não são cérebros pequenos, mas células que foram derivadas de outras células e que conseguem se comprometer com a linhagem neuronal. Isso quer dizer que elas viram neurônios. O dr. Alysson conseguiu ‘a receita para fabricar neurônios’ a partir de células como as da pele”, explica.

Professora Denise Carvalho, do Laboratório de Genética Médica (Lagem), da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
Legenda: O Laboratório de Genética Médica (Lagem) da Uece está realizando um ensaio clínico para investigar se a lamivudina, medicamento disponível no SUS, pode ser utilizada para frear a Síndrome de Rett.
Foto: Divulgação/Uece

Efeitos da lamivudina nos 'minicérebros'

Com isso, o pesquisador enviou "minicérebros" desenvolvidos a partir de células da pele de pacientes com Síndrome de Rett para estações espaciais para acelerar os efeitos da doença, uma vez que as células “envelhecem mais rápido” em ambiente de microgravidade. Isso permitiu observar alterações que, normalmente, levariam mais tempo para se manifestar nas pacientes.

Com as células de volta à Terra, o pesquisador utilizou lamivudina, medicamento antiviral que já é utilizado principalmente no tratamento da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e da hepatite B crônica (HBV).

“É um medicamento seguro, que já é usado e que praticamente não tem efeitos colaterais — só um pouco de náusea no início. Crianças com meses de vida não tiveram nada, praticamente. Nunca houve nenhuma morte, nada”, destaca a professora.

A escolha por esse tipo de remédio se deu porque os vírus, que são parasitas intracelulares obrigatórios, acabam deixando fragmentos de material genético no DNA humano.

“À medida que vamos passando (nosso DNA) para os nossos filhos, também passamos pedaços de DNA desses vírus, que são 'inocentes', mas podem se modular e causar alterações em alguns genes”, explica Denise Carvalho, apontando que isso ocorre em algumas síndromes, como a de Rett.

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Nos testes in vitro, o medicamento levou à regeneração das células. O passo seguinte foi testá-lo em camundongos com Síndrome de Rett, uma vez que eles também apresentam os estereótipos do autismo, com dificuldades de coordenação e de equilíbrio, além da inflamação. No curso natural da doença, esses animais normalmente morrem no sétimo dia de vida.

“Em torno do quinto ou sexto dia de vida, ele (Alysson Muotri) administrou o medicamento e o camundongo passou a viver normalmente, como outro camundongo normal, e involuiu todos os estereótipos de autista. Parou de ter os movimentos repetitivos e a inflamação diminuiu”, explica a professora.

Professora Denise Carvalho, do Laboratório de Genética Médica (Lagem), da Universidade Estadual do Ceará (Uece).
Legenda: A lamivudina é medicamento antiviral seguro, praticamente sem efeitos colaterais, utilizado no tratamento da infecção pelo vírus do HIV e da hepatite B crônica.
Foto: Divulgação/Uece

Ensaio clínico no Ceará

Foi depois de todas essas fases que a pesquisadora foi convidada por Alysson Muotri para liderar o ensaio clínico no Ceará. “Acolhi o pedido e imediatamente comecei a me mobilizar”, diz ela.

O estudo já foi aprovado localmente pelo comitê de ética e já foi enviado para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Atualmente, as 12 voluntárias estão realizando os exames necessários.

O objetivo é avaliar o que ocorre tanto em termos bioquímicos quanto no comportamento das pacientes, para saber se é possível detectar a mesma melhora que houve nas células e no modelo animal. Com a resposta do medicamento, o material também será enviado para a Nasa, para avaliação dos efeitos.

“Nós colocamos escalas de análise do nível de autismo e de linguagem específica para Rett, para analisar como essas crianças estão agora, no tempo 'zero'. Vamos analisar, no meio do estudo e no final, como esse comportamento evoluiu, por meio de escalas renomadas nacional e internacionalmente e dos parâmetros bioquímicos”, explica.

Caso os resultados sejam positivos, Denise Carvalho destaca que esse pode ser o passo para a criação de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para Síndrome de Rett no mundo. “Ainda não existe hoje porque não tem um medicamento para a doença”, destaca.

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Minicérebros para estudar o autismo

Em meio a essa pesquisa, a equipe do Lagem, da Uece, também está criando o primeiro modelo de "minicérebro" no Nordeste para o estudo do TEA. Com isso, pode ser possível avançar em possibilidades de terapias para diferentes tipos de autismo e auxiliar na melhora da qualidade de vida de crianças e adolescentes.

“Já estamos fazendo banco para outros perfis de autismo, para mandar para a Nasa, da mesma maneira: fazendo punch da pele, desdiferenciando, cultivando em fibroblastos, congelando e depois colocando as receitinhas para virarem neurônios”, aponta.

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