Por que é tão difícil fazer amigos na vida adulta?
No Dia do Amigo, celebrado nesta quarta-feira (30), psicólogo reflete sobre o dilema que atravessa gerações nesse mesmo período
Que a vida seria solitária sem os amigos, disso ninguém duvida. Mas à medida que o tempo passa e a idade avança, parece ser cada vez mais complicado estabelecer novas e duradouras parcerias. Essa realidade bateu à porta de Wanessa Alves, 28, há seis anos, quando ela desembarcou em Fortaleza vinda de Goiânia (GO).
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No primeiro contato com a capital cearense, a educadora física precisou de dois anos para fazer colegas e desenvolver uma rotina com eles. “Sou o tipo de pessoa que peneira muito as amizades. Nunca fui de ter muitos amigos. Sempre foram poucos, mas bons. Hoje, percebo que isso se mantém. Falo com todo mundo, mas meu grupo mais próximo de amigos é bem definido”, afirma.
Tempo e confiança são dois fatores que, conforme Wanessa, pesam no instante de iniciar novas relações fraternas na fase adulta. De um lado, trabalho e estudos consomem a ponto de minar encontros; do outro, a comunicação – sobretudo a partir das redes sociais – faz com que a atenção seja redobrada diante de quem está do outro lado da tela. Resultado: por vezes, um muro se ergue e pouco conseguimos nos conectar verdadeiramente com os outros.
No caso da goianiense, há um componente ainda mais importante: estar presencialmente com quem se gosta é essencial. Assim, durante o período mais nebuloso da pandemia de Covid-19, ela não fez nenhum amigo – não apenas pela distância, mas também pela vontade de apenas conservar os que já tinha. “Acho que 80% das pessoas estão atrás de um celular. A gente não sabe quem ocupa o outro lado, o que me deixa insegura”, sublinha.
“Procuro pessoas divertidas para estar junto, que tenham conversas legais, extrovertidas, animadas. Acho que, quando você tem amizade com uma pessoa mais fechada, não flui. Hoje o meu círculo social de amigos é composto de pessoas muito bacanas, com quem eu amo estar presente. Pessoas que gostam das mesmas coisas que eu, frequentam os mesmos lugares... Acho que finalmente encontrei minha tribo desde que cheguei aqui”.
Um dos primeiros grupos foi formado em um box de Crossfit, e permanece sólido. Ainda que atualmente, por conta do expediente, a educadora física pouco esteja vendo os companheiros, prevalece a satisfação de ter com quem contar. Wanessa, por fim, reflete sobre a diferença entre amigos feitos ainda na infância e na adolescência, e aqueles cultivados agora.
“Até hoje tenho amigos de longa data. Quando você é adulto, não tem o mesmo tempo que tinha quando era criança, para estar 24 horas conversando e tudo. Existem pessoas de quem estou distante, mas, quando preciso de alguma coisa, estão ali pra me ajudar, escutar, dar apoio. Considero muito isso numa amizade, sabe? Nem sempre a gente vai poder se comunicar, se ver, se falar. Mas, quando precisamos, estamos ali. É essa constância”.
O tempo da confiança
De fato, quando crianças, tudo é mais simples. Não é necessária muita coisa para um riso de canto de boca, um corre para aqui, um esconde para lá. Ao considerarmos a mesma questão na fase adulta, a coisa muda de figura. Entra em cena a solidão.
Somos seres ao mesmo tempo sozinhos – uma vez necessitarmos de espaço, respeito ao que somos e momentos de solitude – e coletivos, pois estamos inseridos em uma cultura e uma estrutura de valores à medida que vamos mudando o mundo e sendo afetados por ele.
Doutor em Psicologia pela Universidade de Barcelona (ESP), o psicólogo José Clerton Martins diz que o outro nos integra. E, se esse outro é um amigo, vai nos dando indicadores de como somos e estamos no mundo. “Um amigo é um apoio, um alento, um suporte. Pois, para existir tal condição, foi necessário um tempo. Se, nesse tempo, construiu-se a base para que aconteça a amizade, algo leva muito de nós e do outro: a confiança”.
Eis aí a base da pergunta: mas, afinal, por que é tão difícil fazer amigos na vida adulta? Talvez devido à falta de tempo para construir essa confiança. “Sim, vivemos, como nos ensinou Bauman, tempos de liquidez, em que o foco do interesse imediatista costuma conduzir as relações. Por outro lado, Byung-Chul-Han nos orienta ao cansaço ao caracterizar nossa sociedade como a sociedade do cansaço, sem tempo. Com o foco na realização de metas, como convocar o tempo da confiança?”, provoca o estudioso.
Confiança, de acordo com José Clerton, significa “tecer junto”. Isso convoca tempo e doação. Logo, como doar-se sem confiar? Estamos repensando tais valores. A condição de humanidade convoca à divisão e à cooperação. E tal condição nos arrasta a outra possibilidade de caminho: somos à medida que nos ajustamos a uma meta de existência em solidariedade. “Já sentimos os efeitos de uma vida solitária e individualista. Eles dão mostra da condição social cotidiana. Repensamos esse modelo agora”.
Quando temos cronogramas de trabalho rigorosos, grande envolvimento na vida familiar ou uma combinação de ambos, nosso tempo para investir em amizades diminui. Mesmo quando conhecemos um novo amigo promissor, pode ser difícil encontrar tempo para investir na amizade. Isso é um problema maior para adultos com mais idade, quando a maioria das pessoas vê as obrigações aumentarem.
“Existem muitas pesquisas nessa área. Inclusive uma bem recente, pela BBC. Todas apontam que nosso estilo de vida dificulta tal possibilidade, embora ela seja uma necessidade para nossa qualidade existencial. Como já dizia o poeta: amigo é coisa para guardar”.
Como fazer amigos na fase adulta?
Segundo José Clerton, os passos para fazer amigos na vida adulta são simples e ao mesmo tempo difíceis. Investir tempo em construir confiança; fazer-se presente sem invadir; investir afeto e dedicação; demonstrar cuidado com a relação e o bem do outro. Como fazer isso com o tempo tomado por afazeres e uma agenda apertada? Eis o desafio.
“Mas tudo é possível”, acredita o psicólogo. “O tempo para constituir afetos é pouco pensado. Nos acostumamos com as relações já estabilizadas. As liberações em tempos cada vez mais difíceis não nos deixam a condição do tempo de ‘fiar junto’ – criar confiança – e vamos nos acomodando a isso. Tudo fica muito passageiro entre uma obrigação e outra. Bem claramente: o que parece livre parece apenas uma leve impressão”.
Fato é que o valor de uma amizade verdadeira é incalculável, e ele é buscado de várias formas. Até mesmo em plataformas como o Tinder – destinada originalmente para relacionamentos amorosos – é possível buscar e fazer parcerias fraternas. Em 2019, quando o criador da rede social mais famosa dos anos 2000, Orkut Büyükkökten, esteve no Brasil, revelou que utilizava a mencionada plataforma com os dois propósitos afetivos.
“Em redes como Instagram e Twitter você não conhece pessoas novas. Geralmente, conversamos com nossos amigos ou seguimos celebridades. E os aplicativos de namoro se tornaram a grande ferramenta para que eu possa, realmente, entrar em contato com outras pessoas. Por isso, uso o Tinder para encontrar novas amizades, mas também para namorar”.
No mesmo segmento, o Tinder também abriga perfis cujo objetivo não está centrado em encontros amorosos. São aqueles de natureza grupal, com cada vez mais popularidade. Eles servem como ponto de encontro para participantes que querem fazer novos amigos. Em alguns deles, as regras são claras: temas como intolerância religiosa não são permitidos; e o envio de nudes é deliberado a partir de 22h, por exemplo.
Conforme Clerton Martins, “a amizade verdadeira nasce do desinteresse, da gratuidade e do que se costuma convocar como um tipo de amor que se chama ‘fraternal’. Fraterno convida a pensar sobre um sentimento de carinho muito forte, de dedicação, de interesse pela figura do outro, gerando sentimentos positivos e construtivos – podendo até, em certos momentos, levar o indivíduo a fazer grandes sacrifícios, que só seria capaz de fazer por ele mesmo. Nesse lugar reside a amizade verdadeira e isso convoca tempo”.
“Seja o que vier/ Venha o que vier/ Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar/ Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”: a garganta de Milton Nascimento ecoa e o sentido se alastra. A amizade é sempre, independentemente de qual curso da vida. Seja o que vier.