O que Caio Fernando Abreu tem a nos dizer? Pesquisadores situam legado de ousadia

Nos 25 anos de partida de um dos expoentes da literatura brasileira contemporânea, estudiosos se debruçam sobre uma obra cada vez mais sintonizada com o hoje, sobretudo pelo desejo de liberdade

Legenda: O escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu: legado de coragem e desassossego na literatura brasileira
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Sentado na grama, de pernas cruzadas, Caio Fernando Abreu veste uma camiseta em que está escrito “Why to be normal?”. O tecido é branco e as letras, em preto, se destacam no corpo magro do escritor. É uma provocação, mas também um símbolo. À época da entrevista, concedida ao programa Estação Cultura, da TV Educativa de Porto Alegre (TVE), era 1994 e o nome de Caio ganhava uma dimensão extra, para além das narrativas sob sua pena. Naquele ano, descobriu ser portador do vírus HIV, responsável por, dois anos depois, abreviar sua existência. Afinal, por que mesmo ser “normal”?

O desalinho entre um modo de vida dito padrão e as inquietações típicas do espírito criativo do também jornalista e dramaturgo pode ser observado bem antes desse momento, porém. Sua vasta obra, produzida entre as décadas de 1960 e 1990, se situa no instante em que o País esteve sob o jugo da ditadura militar, período de intenso autoritarismo e repressão política. À medida que a censura procurava silenciar as produções artísticas, acentuando torturas e exílios, o gaúcho de Santiago – tida como “a Terra dos poetas” – se emaranhava ainda mais em si, tornando-se voz de uma geração desejosa de liberdade. 

Não à toa, até hoje pululam na internet citações, verdadeiras ou não, atribuídas a ele – feito Clarice Lispector (1920-1977), Caio ganhou status pop, disparador de compartilhamentos. Há algo no texto confessional e combativo do autor que fascina e dribla o correr do tempo, traduzindo minúcias das gerações de outrora e de agora. “Os temas que ele agencia na sua obra falam muito aos jovens leitores do século XXI, sobretudo aqueles que buscam se ver representados no que leem”, considera Claudicélio Rodrigues, professor do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), coordenador do Grupo de Estudos da Língua de Eros e pesquisador de antologias sobre sujeitos sexuais dissidentes.

De acordo com o estudioso, essa afirmação vai ao encontro de uma literatura, a seu ver, não mais receosa de se assumir gay, lésbica, trans. “As lutas dos sujeitos sexualmente dissidentes se expandiram dos movimentos sociais e políticos para o artivismo e a literatura. Nesse sentido, Caio é pioneiro porque é um dos que, nas últimas décadas do século XX, vai imprimir com muita sensibilidade o tema da sexualidade, da morte, da solidão e da dor nos seus contos”, explica.

Legenda: À medida que a ditadura procurava silenciar as produções artísticas, Caio se emaranhava ainda mais em si, tornando-se voz de uma geração desejosa de liberdade
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De fato, entre as experiências das personagens de CF, há sempre lugar para a encenação de uma intimidade, uma aprendizagem da sexualidade, da dor e do prazer da homoafetividade. Assim, percebe Claudicélio, Caio surge vivíssimo 25 anos depois de sua partida, completos nesta quinta-feira (25).

“Cada vez mais, jovens falam sobre os livros dele e ele é levado ao palco, ao cinema, vira nome de prêmio [o prêmio para obras literárias inéditas, criado pelo Festival Mix Brasil]. Recentemente, também apareceu numa antologia chamada ‘Poesia gay brasileira’ (independente, 2017), e foi lançado um livro com seus poemas reunidos, porque ele também era poeta e cronista. Ou seja, Caio está aí, multifacetado, falando aos quatro cantos desse país que ‘os dragões não conhecem o paraíso’”, complementa.

Feito quem deseja vingança

O professor ainda sublinha a novidade promovida pelo autor no campo literário da representação dos sujeitos. Caio é da geração do desbunde, do pé na cara da hipocrisia da sociedade brasileira, da família “de bem” heteronormativa e católica por excelência. Portanto, os contos de sua autoria – o escritor se consagrou especialmente pelo trabalho em narrativas curtas – desassossegam o leitor conservador, imergindo-o no espírito da contracultura nacional.

“É preciso ser jovem, de espírito jovem, para ler o Caio. Como dizem os críticos, parece que ele escreve como quem deseja vingança. E, por isso, muitas vezes o jovem retratado ali sofre com a homofobia. É um solitário e um sujeito ávido pelos prazeres, nem que sejam rápidos. Escrever sobre isso num Brasil governado por militares, num regime democrático suspenso, em que imperava a lei da censura, é não só um ato de coragem, mas um prenúncio do ativismo do que viria a ser a literatura LGBTQ+ pós anos 2000”, dimensiona Claudicélio.

A percepção ecoa na fala de Márcia Ivana de Lima e Silva, professora titular do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora convidada do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). Segundo ela, a atualidade da obra de CF está ligada à arquitetura do verbo – “le mot juste”, como se diz em francês: a palavra certa no lugar certo, alinhando-se perfeitamente às temáticas tratadas, mantidas como bastante atuais.

“Caio trabalha com as referências de sua época, como marcas, músicas e filmes, mas com uma qualidade estética ímpar, que coloca sua obra em situação superior, se comparada às demais de sua geração. A liberdade nas relações, as experiências sensoriais e extra sensoriais, a necessidade de afirmação da individualidade são alguns temas que se destacam em seu trabalho e que permanecem como assuntos que ainda mobilizam as pessoas na nossa sociedade”, detalha Márcia Ivana.

A primeira experiência dela com a literatura de Caio foi com “Morangos mofados” (Agir, 1982), obra-prima do escritor, ainda na Faculdade de Letras da UFRGS. “Ali, já me impressionei pela força da narrativa e pela ousadia da temática”, confessa. Um encanto que a levou a coordenar, anos depois, o Acervo Caio Fernando Abreu, tendo em vista que, em 2004, o cenógrafo e diretor de teatro gaúcho Luciano Alabarse, amigo do escritor, doou parte do espólio sob sua posse para o Instituto de Letras da universidade.

“Durante o período que coordenei o Acervo, orientei TCCs, dissertações e teses; Marie-Helene e eu encontramos um conto inédito, ‘Uma história de peixes’, e Letícia Chaplin e eu organizamos a poesia inédita de Caio, que foi publicada em 2012”, diz, citando o livro “Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu”, saído pela editora Record.

Legenda: "Caio está aí, multifacetado, falando aos quatro cantos desse país que ‘os dragões não conhecem o paraíso’", aponta pesquisador
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“Difícil escolher um texto preferido dele, mas tenho uma relação especial com o conto ‘Para uma avenca partindo’, que me remete à efemeridade e à precariedade das relações e da vida, narrado por uma voz que tenta entender, tenta se fazer entender, tenta, tenta, tenta…”, destaca. E, se fosse para escrever uma mensagem para o homenageado neste dia, a pesquisadora não titubeia: “Você acertou em cheio!”.

Pulverização de fetiches

Da parte de Claudicélio Rodrigues, a travessia pelas tessituras narrativas de CF se deu muito tardiamente – depois de concluída a graduação, em 1990, e por vontade própria. Contudo, feito Márcia Ivana de Lima e Silva, ele também iniciou o contato com o autor por meio de “Morangos mofados”, destacando um texto em específico da obra: o conto “Sargento Garcia”.

“Me arrebatou, aquele misto de medo e desejo que ele imprime ali, o lugar do flerte homossexual – um quartel, a relação entre um jovem e um adulto… É quase um fetiche. Isso Caio faz muito bem na sua escrita, ele pulveriza fetiches ao longo dos contos”, repara. “O livro ‘Os dragões não conhecem o paraíso’ (1988) foi o segundo que li. O conto ‘Dama da noite’, que o Silvero Pereira brilhantemente levou aos palcos desse país, é um exemplo da prosa ferina, refinada, muito teatral, oralizante”.

Mas a relação descrita no texto seria heterossexual? “O próprio autor dedica o conto à escritora Márcia Denser, sua amiga (numa entrevista que fiz com ela ano passado, me revelou que a personagem ali foi inspirada mesmo nela). A releitura de Silvero, a transcriação para o universo travesti, mostra que a obra de Caio no campo das afetividades é avessa a demarcações”, tensiona o professor.

E completa: “Por isso uma representação hétero ao olhar de um escritor gay é instigante e desconcertante. Como diz Italo Moriconi, num texto das obras completas de Caio: ‘Há contos em que a trepada é hétero, mas o imaginário é gay’”. Why to be normal?


> Para conhecer Caio Fernando Abreu: alguns dos principais livros do escritor

Morangos mofados: É considerada a obra-prima de Caio, sendo o quarto livro de contos assinado por ele. Publicado em 1982 pela editora Agir, ganhou reedição pela Companhia das Letras em 2019, com posfácio inédito de José Castello. Nas páginas, uma intensa e muitas vezes dolorosa travessia por temas como homossexualidade, preconceito, drogas, solidão e morte.

Onde andará Dulce Veiga?: Romance publicado pela Companhia das Letras em 1990, foi adaptado para o cinema em 2008 com título homônimo – sob direção de Guilherme de Almeida Prado e com Maitê Proença e Eriberto Leão no elenco. A trama, ambientada nos anos 1980, conta a história de um jornalista que tenta descobrir onde se encontra a cantora do título, longe dos holofotes desde 1960.

A vida gritando nos cantos: O talento de Caio como cronista pode ser apreciado neste livro, publicado em 2012 pela Nova Fronteira. Os textos são divididos e organizados em três momentos, com os seguintes títulos: “(1986-1988)”, composto de 66 crônicas; “(1993-1996)”, com 39 , e “Crônicas sem data”, com quatro narrativas, todas publicadas no jornal O Estado de São Paulo no decorrer de dez anos (1986-1996).

Caio Fernando Abreu: Contos completos: Um compêndio com a totalidade dos contos escritos pelo autor, gênero com o qual ele foi amplamente reconhecido. Publicados entre as décadas de 1970 e 1990, os textos são o retrato de uma geração, trazendo a atmosfera dos anos de chumbo como parte constituinte de uma prosa que se consagrou pelo estilo combativo e radical.

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