Inspirado em textos de Caio Fernando Abreu, documentário traça panorama do HIV e da Aids no Brasil

Lançado em 2019, “Cartas para além dos muros” está disponível na Netflix, apresentando, de forma sensível e urgente, relatos que evidenciam a necessidade de superação dos estigmas sobre a doença

Legenda: O médico e escritor Drauzio Varella é um dos entrevistados do documentário
Foto: Divulgação

Caio Fernando Abreu (1948-1996) faleceu meses antes da descoberta dos medicamentos que possibilitaram o controle do vírus HIV e a garantia da vida. Além da vasta obra publicada em livros, o escritor gaúcho também assinou crônicas na coluna mantida no jornal O Estado de São Paulo, na qual falava abertamente sobre a própria realidade de portador do vírus da Aids. Esses textos inspiraram um documentário lançado em 2019, distribuído pela Netflix e disponível no catálogo do streaming.

“Carta para além dos muros” é homônimo ao espaço assinado por Caio no periódico paulista e tem direção de André Canto. A película apresenta, de forma sensível e urgente, uma miríade de relatos cuja ênfase se dá, sobretudo, na necessidade de superação dos estigmas sobre a enfermidade que continua acometendo milhões de pessoas ao redor do globo.

Conforme dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), 38 milhões de indivíduos em todo o mundo viviam com HIV até o fim de 2019. No mesmo ano,  690 mil morreram de doenças relacionadas à Aids. A disfunção é responsável por danificar o sistema imunológico e interferir na habilidade do organismo de lutar contra outras infecções, a exemplo de tuberculose e neurotoxoplasmose.

No Brasil, as pesquisas mais recentes indicam redução dos casos da doença, embora a situação permaneça delicada. Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde aponta que desde 2012 há diminuição na taxa de detecção, que passou de 21,9/100 mil habitantes para 17,8/100 mil habitantes em 2019 – um decréscimo de 18,7%. A taxa de mortalidade por Aids também apresentou queda, de 17,1% nos últimos cinco anos. Contudo, destacar a importância do tratamento e diagnóstico precoce ainda é um desafio a ser superado por agentes de saúde para que os números continuem em tendência decrescente.

É precisamente sobre a realidade brasileira que o documentário enfoca, traçando um encorpado panorama a partir de discussões a respeito de temáticas como discriminação, liberdade sexual, o papel da Igreja no pico da epidemia de Aids, a luta de profissionais no entendimento e conscientização da enfermidade, entre outras. O resultado é uma produção que, ao longo de 81 minutos, tem sede de muitas mudanças.

Teia de intimidades

Para falar sobre o assunto, a direção do filme – o primeiro do gênero a refazer a cronologia do HIV e da Aids no Brasil, encabeçando o projeto #PrecisamosFalarSobreIsso – selecionou alguns dos principais nomes no ramo. Entre eles, estão o médico e escritor Drauzio Varella;  a mãe do cantor Cazuza, Lucinha Araújo; a dermatologista Valéria Petri, que identificou o primeiro caso de Aids no País, além de ativistas, pesquisadores e pessoas que vivem com o HIV e trabalham de forma a acabar com o estigma.

Costurando os depoimentos, está Caio (nome fictício), cujo vagar pelo incontrolável fluxo de São Paulo suscita relevantes descrições acerca de sua própria condição de portador do vírus HIV. Ao mesmo tempo, o personagem também estabelece uma interessante correspondência com o escritor gaúcho homenageado pelo filme a partir das já mencionadas crônicas dele publicadas no jornal, o que faz a produção ganhar ares bastante poéticos, todavia não menos contundentes.

Legenda: O diretor do documentário, André Canto
Foto: Divulgação

Trata-se de uma esmerada reconstrução histórica de um passado bastante recente que, pelo fato de ainda ecoar com tanta proeminência, ilumina várias questões do contemporâneo. “Como pode uma doença escolher uma pessoa pelo time que ela torce?”, provoca Valéria Petri no início da projeção, suscitando ramificações muito além do lugar comum.

Valendo-se da cor vermelha e da efervescência da capital paulista para amalgamar os relatos, o documentário, assim, abraça o grito de liberdade sexual no período pós-ditadura, os primeiros indícios dos casos de Aids, a forma como a imprensa e setores conservadores da sociedade trataram a questão e, de forma mais contundente, os diversos modos de erguer-se para a vida, ainda que diante da tenebrosa atmosfera de incógnitas e apreensão.

Longe de uma sentença de morte

Uma dessas maneiras de afirmar a existência se deu a partir do trabalho de Brenda Lee (1948-1996), militante transexual dos direitos LGBT. Considerada o “anjo da guarda das travestis”, ela ajudava pessoas discriminadas, doentes ou não, a manter a dignidade. Outra é a do médico Paulo Roberto Teixeira, cujo esforço se deu no sentido de disseminar ideias claras sobre a doença entre os outros profissionais da Medicina em uma seara repleta de preconceitos e intolerâncias.

Legenda: O cantor e compositor Cazuza é mencionado no documentário
Foto: Divulgação

O cantor e compositor Cazuza (1958-1990) e a polêmica capa da revista Veja sobre o artista, publicada em 26 de abril de 1989, também são mencionados no filme, bem como o desbalanço racial dos casos da enfermidade e as políticas públicas voltadas para o controle do vírus. Nesse ínterim, a corrida para o acesso gratuito a medicamentos de combate à moléstia e a urgência de tratar questões relacionadas à Aids em escolas, projetos e comunidades ganham ricas proporções, disparando a inevitabilidade de múltiplos engajamentos.

“Carta para além dos muros” se sobressai ao afirmar, com todas as letras, olhares e realidades, que a presença do vírus HIV no organismo está longe de ser uma sentença de morte. Se for para extinguir algo, que seja sobretudo a epidemia moral que insiste em eclodir genocídios e erguer muros. E isso a magistral “Blues da Piedade”, reproduzida ao término da película, faz questão de clamar em alta voz. 

Carta para além dos muros
Dirigido por André Canto

Com Drauzio Varella, Lucinha Araújo, Nair Brito e outros
2019, 85 minutos
Disponível no catálogo da Netflix

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