Morre Jaguar, cartunista que marcou a resistência à ditadura com o jornal 'O Pasquim', aos 93 anos

Jaguar foi um dos fundadores do jornal carioca que revolucionou a imprensa brasileira

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 18:43)
Carioca nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar começou a carreira desenhando para revista 'Manchete'
Legenda: Carioca nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar começou a carreira desenhando para revista 'Manchete'
Foto: Reprodução/YouTube/Instituto Moreira Salles

O cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, conhecido por Jaguar, morreu aos 93 anos, neste domingo (24).  Ele estava em internação com pneumonia no Copa D’Or, no Rio, há três semanas. A morte do cartunista foi confirmada ao jornal O Globo pela viúva, Celia Regina Pierantoni.

Jaguar foi um dos fundadores do "O Pasquim" — jornal satírico que enfrentou a ditadura militar. Carioca nascido em 29 de fevereiro de 1932, Jaguar começou a carreira desenhando para revista "Manchete" em 1952. Adotou o famoso pseudônimo por sugestão do cartunista Borjalo.

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Nas redes sociais, personalidades lamentaram a partida do cartunista. O escritor Afonso Borges disse que "Jaguar vai atravessar o tempo e a história da cultura brasileira como o mais resistente de todos" e definiu ele sendo o profissional "mais resistente".

Última entrevista

Em julho deste ano, nas comemorações do centenário do jornal O Globo, Jaguar posou para um ensaio fotográfico da revista ELA. Na ocasião, ele concedeu a última entrevista da carreira.

“Tive uma vidinha boa. Não me aprofundava em meditações, ia vivendo o momento”, disse, acrescentando que ainda seguia a mesma filosofia. “Não planejo o futuro nem lamento nada do que fiz", declarou Jaguar.

Quem foi Jaguar?

Nascido em 1932, Jaguar se consagrou como um dos principais cartunistas da revista "Senhor" nos anos 1960 e colaborou também para a Revista "Civilização Brasileira", a "Revista da Semana", a "Pif-Paf"e para os jornais "Última Hora" e "Tribuna da Imprensa".

Em 1968, lançou o primeiro livro, “Átila, você é bárbaro”, que combatia o preconceito, a ignorância e a violência. 

Com Tarso de Castro e Sérgio Cabral, fundou o "Pasquim" em 1969. Irreverente e combativo, que floresceu à sombra da ditadura militar e congregou alguns dos maiores expoentes do jornalismo e das artes brasileiras, como Millôr Fernandes e Ziraldo, Henfil, Pauloi Francis e Sérgio Augusto.

Para o cartunista, O Pasquim era "o auge do sucesso". "Até a censura era um barato", disse me uma entrevista.

"Era feita pelo Coronel Juarez, um bonitão, sósia do Gary Cooper. Recebia a gente na garçonnière dele. Pegava o material e riscava a lápis. A gente argumentava. Havia diálogo", contou.

Por que o Pasquim acabou?

Entre 1969 e 1991, O Pasquim teve 1.072 edições, que contaram com mais de 1.200 entrevistas com grandes nomes da época. Foi Jaguar quem batizou O Pasquim e foi o único da equipe original que permaneceu no semanário alternativo até a última edição.

A partir dos anos 1980, o jornal viveu uma saga para tentar "manter a sua relevância num país em transformações", escreve o jornalista, escritor roteirista e produtor cultural Ricky Goodwin, no texto "Lendo o Pasquim, do meio para o fim", no site da Biblioteca Nacional, onde a coleção completa do periódico pode ser acessada gratuitamente.

Ele elenca fatores comportamentais e econômicos como percalços enfrentados pelo jornal. Nesse período, surgiu uma geração que já não via O Pasquim como representante e porta-voz, além de "estrangulamentos econômicos", com apreensões de edições publicadas e atentados em bancas.

"Virou um chavão, dentro da história do Pasquim, comentar que a patota reuniu ótimos humoristas e jornalistas e péssimos administradores. Quase sempre, em sua trajetória, suas finanças foram mal equilibradas, e o sucesso nunca foi sinônimo de estabilidade. Entrava muito dinheiro e saía muito dinheiro. Até que o dinheiro parou de entrar. As vendas foram caindo. Os grandes anunciantes foram abandonando o jornal — muitos pressionados pela ditadura —, afetando a sua receita", narra Goodwin.

O Pasquim também foi impactado pela inflação, que levou a um aumento de 250% nos custos gráficos durante o ano de 1980. O preço das edições nas bancas aumentou, afastando leitores, e o pagamento a colaboradores e funcionários passou a atrasar.

Ao longo dos últimos anos, o jornal também passou por problemas e mudanças editoriais. O fim do Pasquim chegou de forma abrupta aos leitores, em outubro de 1991.

"Quando o número 1.072 ficou pronto e foi para as bancas, em outubro de 1991, [João Carlos] Rabello decidiu que não fariam o 1.073. Não houve nenhum motivo específico. Só o cansaço. E a falta total de grana", escreve Goodwin.

"Jaguar também estava cansado, 21 anos depois. Num primeiro momento, ficou aliviado com o fim. Como quando desligam os tubos de um parente e dizem: descansou. Depois, claro, sentiu a ausência: lutara tanto para continuar mantendo aceso o sonho do humor", escreve Goodwin.

A matemática por trás da decisão foi explicada anos depois: "A inflação estava em 80% ao mês. O jornal era impresso e distribuído para jornaleiros Brasil afora. A distribuidora recolhia o dinheiro das vendas e repassava à [Editora] Siguim 45 dias depois. Às vezes demorava até três meses para entrar tudo. Quando aquele dinheiro chegava não valia mais nada".

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