Jovens e adultos da periferia lideram o perfil do leitor fortalezense, aponta estudo

Classe A - apesar de ter maior percentual de leitores do que de não leitores, de acordo com a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, - é onde numericamente encontramos menos leitores em Fortaleza, pois reflete a composição da população nesse extrato social

Estes são João Gabriel, de 7 anos, a mãe Paula Amanda, de 31 anos, e o amigo William Soares, de 19 anos, de máscara, segurando livros em frente a uma biblioteca comunitária no Curió
Legenda: João Gabriel, Paula Amanda e William frequentam, há dois anos, a Biblioteca Livro Livre Curió
Foto: Fabiane de Paula

William, Eder, Rejiane e Paula Amanda estão entre os 1,3 milhão de fortalezenses (54% da população local) considerados leitores pela 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Isso significa que todos leram pelo menos um livro, inteiro ou em partes, nos últimos três meses. Eles têm ainda em comum o fato de morarem na periferia da Capital e estarem na faixa etária de 18 a 39 anos, impactando significativamente no percentual de leitores de Fortaleza. Os indicadores são do estudo lançado neste mês de setembro pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com o Itaú Cultural.

Nota explicativa: Esse maior percentual de faixa etária e classe social reflete a composição desses segmentos, que contam com uma população mais numerosa em Fortaleza. No Brasil, a pesquisa encontra percentualmente mais leitores do que não leitores na faixa etária entre 05 e 14 anos; na classe A, e, em quem têm nível superior, apesar de estes dois últimos serem os segmentos nos quais foram identificados a maior queda no percentual de leitores.

A pesquisa foi realizada com 350 fortalezenses, no período de outubro de 2019 a janeiro de 2020, a partir de entrevistas domiciliares face a face e registro das respostas em tablets. Em todo Brasil, foram 8.076 entrevistas distribuídas em 208 municípios.

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Entre os quatro perfis entrevistados para esta reportagem, o investimento em obras literárias pode variar de R$50 até R$200 por mês, ainda que contem com outras alternativas de acesso em seus bairros, a exemplo das bibliotecas comunitárias. Aos 19 anos, William Soares não se reconhece como um consumidor frequente, mas admite pagar até R$80 em um só livro, caso se trate de um exemplar do qual ele goste muito.

Influenciado por amigos e pelo irmão, Talles Azigon, “um leitor assíduo”, como ele descreve o idealizador da Biblioteca Livro Livre Curió, encontrou bons motivos para mergulhar desde cedo nas experiências literárias. “A leitura me proporciona sentimentos, como se eu estivesse vendo ou vivendo aquela história”, relata.

Isolamento 

No caso de Eder Abner, 24 anos, o isolamento social imposto pela pandemia foi o principal motivo para ele começar a comprar livros. Antes, o jovem percorria diferentes bibliotecas da periferia, incluindo a do Barroso, que ele ajudou a organizar; a do Curió, também frequentada por William; uma da Sabiaguaba; outra do Antônio Bezerra; e uma no bairro Panamericano.

Este é um rapaz jovem, de máscara, lendo um livro na Biblioteca Viva, do Barroso
Legenda: Eder foi influenciado pelos professores a ler mais. Ele ajudou a organizar a Biblioteca Viva, no Barroso
Foto: Fabiane de Paula

“O máximo que costumo investir é R$ 50, tirando do valor que recebo do programa bolsa jovem da prefeitura de Fortaleza. Faço a aquisição destes exemplares pela internet”, enfatiza o fã declarado de Machado de Assis, o autor mais lembrado e também aquele que os brasileiros mais gostam, de acordo com os dados nacionais da mesma pesquisa.

“Machado de Assis é sempre uma opção para mim. Quando estou com dúvidas sobre qual livro ler, pego um dele. Mas não sei bem o que me atrai nos escritos desse autor, talvez o realismo, o modo como ele dialoga com o leitor, as surpreendentes reviravoltas em suas histórias. Talvez estes e muitos outros elementos juntos”, declara Eder.

Influências

Durante a pandemia, Rejiane Cavalcante Jardelino, 31 anos, residente no bairro Presidente Kennedy, também colocou a leitura em dia e até descobriu um livro preferido: “1808”, de Laurentino Gomes. “Ele tem detalhes incríveis que faz com que possamos ver a história com outros olhos. Conta muito sobre a nossa identidade como nação. História é como ler a nossa vida”, acredita.

Sua relação com a leitura tornou-se mais intensa há 10 anos, quando começou a trabalhar como auxiliar administrativa no Projeto Comunitário Sorriso da Criança, no bairro onde mora. O local conta com uma biblioteca, que passou a ser visitada frequentemente pela funcionária. 

Esta é uma mulher jovem, de máscara, com alguns livros na Biblioteca Sorriso da Criança, no bairro Presidente Kennedy
Legenda: Rejiane acredita que a leitura desenvolve tranquilidade, imaginação e conhecimento
Foto: Fabiane de Paula

Na hora de investir em algum livro, ela sempre pensa nesse espaço que lhe acolheu. “Quando compro, leio e depois faço doação, tanto para biblioteca, para pessoas que não podem comprar ou até mesmo para um amigo que gostaria de ler aquele livro. Gasto o que eu puder, parcelo em suaves prestações no cartão de crédito”, explica Rejiane.

Outra pessoa que faz questão de investir nas obras literárias é a operadora de telemarketing Paula Amanda Nascimento Guia Lima, 31 anos. Ela e o filho João Gabriel, 7 anos, somam-se aos outros entrevistados na faixa de 15% dos fortalezenses que sempre vão a uma biblioteca. Neste caso, a Livro Livre Curió, que em 2020 completou dois anos de atuação.

João aprendeu a ler brincando com os livros do espaço comunitário e, hoje, é o principal incentivador da mãe. “Chego a gastar R$200 em livros, dependendo das obras que ele se interessa. E nos últimos três meses eu, cheguei a ler uns nove livros ou mais, porque sempre acompanho meu filho nas leituras”, contabiliza Paula Amanda.

Tributos

O perfil dos leitores acima indica quem mais será afetado pela proposta de tributação de livros apresentada pela equipe econômica do Governo Federal. O fato, reforçado pela 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, é que 27 milhões dos 44 milhões de consumidores de livros do País são das classes mais baixas.

Esta é uma imagem da mãe Paula Amanda com o filho João Gabriel, ambos de máscara, folheando um livro
Legenda: João Gabriel, 7 anos, é o principal incentivador da leitura da mãe, Paula Amanda, 31 anos
Foto: Fabiane de Paula

Em Fortaleza, apenas 3% dos leitores são da Classe A, enquanto as Classes B, C, D e E apresentam, respectivamente, 22%, 52% e 24% (juntas) desse público. A compra de livros acontece, em maior parte, nas livrarias (33%), seguido de bancas de jornal e revista (11%) e igrejas (9%). O problema é que essas obras podem ficar até 20% mais caras com o fim da alíquota zero nos impostos sobre elas, como apontam entidades do setor livreiro.

Esse debate sobre a tributação ganhou força quando o Governo Federal enviou ao Congresso o Projeto de Lei que propõe a criação da Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), em substituição aos atuais PIS e Cofins. Os livros, atualmente, são imunes de impostos, segundo o artigo 150 da Constituição Federal e pela Lei 10.865/2004. Mas isso pode mudar.

Caso o Congresso aprove a proposta, William, Eder, Rejiane, Paula Amanda e outros 27 milhões de brasileiros da periferia sentirão o impacto no bolso. O conhecimento de si e dos outros, principal motivo apontado por eles para aderirem ao hábito de leitura, será limitado. Quem vai pagar essa conta, já se sabe. A pergunta que fica é: por quê?

 

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