Homem-Aranha completa 60 anos e um cearense escreveu a história sobre a noite mais triste do herói
O "amigão da vizinhança" saiu dos gibis e tornou-se uma franquia de sucesso na TV e cinema. Autor do livro "A Noite em que a Marvel fez o Mundo Chorar", Eduardo da Silva Pereira ilumina a origem do personagem e como essa HQ do Aranha revolucionou o mercado editorial dos EUA
Seis décadas se passaram e um adolescente criado no universo dos gibis se mantém no imaginário como o “amigão da vizinhança”. Tudo começa em agosto de 1962, quando a história do órfão super-herói ganha as páginas da revista "Amazing Fantasy #15".
Stan Lee (1922-2018) e Steve Ditko (1927-2018), as mentes por detrás do personagem, pouco imaginavam que o jovem Peter Parker se tornasse um dos heróis mais populares da Marvel. Na contramão dos quadrinhos da época, dominado por figuras atléticas e infalíveis, a dupla idealizou outro tipo de protagonista.
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Diferente de um Superman ou Quarteto Fantástico, os leitores conheceram um menino franzino de colegial. Nada do padrão dos quadrinhos, geralmente marcado por adultos, cientistas ou milionários. Aquele jovem sofria bullying dos colegas, era dispensado pelas meninas, morava com os tios idosos e ainda tinha que aguentar os gritos de um patrão explorador. Surgia o Homem-Aranha.
Com faixa etária semelhante, o público gradualmente criou uma identificação com o herói. O sucesso ultrapassou as fronteiras das HQs e fez vida em outras mídias. Virou desenho animado e séries de TV nos anos 1970. Ou seja, o "miranha" já era um produto audiovisual muito antes da atual franquia milionária dos cinemas.
Resgatamos as origens do carinho pelo personagem e conversamos com Eduardo da Silva Pereira, cearense que lançou o livro "A Noite em que a Marvel fez o Mundo Chorar: a História por Trás da Morte da Namorada do Homem-Aranha". "Na obra, contamos a origem do Aranha, os bastidores da HQ da morte de Gwen Stacy e os impactos dessa revista no mercado de comics americanos", compartilha o escritor.
Nunca bate, só apanha
Vale lembrar, além do Aranha, Hulk, Thor e Homem de Ferro também integram a lista dos sessentões da Marvel em 2022. Porém, nenhuma destas crias se firmou tão bem como a válvula de escape para jovens leitores. Era possível enxergar a si mesmo no "Cabeça de Teia" e se imaginar com as mesmas habilidades.
Vamos de história. Peter Parker é um estudante qualquer do ensino médio. Picado por uma aranha de experimento científico, o menino desenvolve força sobre-humana, como a capacidade de escalar superfícies sólidas, reflexos rápidos e sentir a presença de perigo. A barra pesa quando seu tio Ben é assassinado durante um assalto e ele aprende a dolorosa lição: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
Devido aos problemas reais (falta de grana, não ser o padrão) o cotidiano de Parker interessava aos leitores tanto quanto o vigilante que salvava o dia.
Cinco anos da primeira aparição nos quadrinhos, o Homem-Aranha estreou na TV. A animação é até hoje lembrada pelos fãs e deixou como legado o tema musical que acompanha o personagem até hoje. Fãs de quadrinhos, o Ramones regravaram uma elogiada versão da música de abertura dos anos 1960. Nos esquetes de Os Trapalhões era comum ouvir Didi Mocó cantar: “Homem-Aranha, Homem-Aranha, nunca bate, só apanha...”
Falando em Brasil, o desenho ganhou algumas pitorescas modificações na dublagem local. Peter Parker virou Pedro Prado. J.Jonah Jameson (o dono de jornal que atormenta o Aranha) foi mudado para J. Jonas Jaime e Tia May virou Tia Maria.
O cearense que escreveu sobre o Aranha
Nascido em Aracati (150 km de Fortaleza), Eduardo da Silva Pereira tinha apenas seis meses de vida quando veio morar na capital cearense. Foi com as HQs Disney (editora Abril), lembra, que desbravou o universo dos quadrinhos. Aos 10 anos conheceu a turma dos super-heróis com o Batman e o Homem-Aranha.
Eduardo explica que a vontade de pesquisar sobre a nona arte veio nos anos 1990, época em que encontrava as revistas Wizard Brasil nas bancas da cidade. O processo de estudar a área chamou atenção de um dos maiores pesquisadores e escritores do País de temas ligados aos quadrinhos, cinema e comunicação, o jornalista e biógrafo Gonçalo Júnior.
Ele assina obras como "A Guerra dos Gibis - a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964" (2004), "Maria Erótica e O Clamor do sexo" (2010) e "Eu Não Sou Lixo - A trágica trajetória do cantor Evaldo Braga" (2017). Gonçalo também é editor da Editora Noir, casa que publicou o trabalho de Eduardo da Silva Pereira.
Segundo o autor cearense, os leitores "A Noite em que a Marvel fez o Mundo Chorar..." descreve a origem do personagem aracnídeo, os bastidores em torno da HQ da morte de Gwen Stacy e os impactos dessa obra no mercado editorial de quadrinhos dos EUA.
Uma rápida contextualização. Lançada em 1973, com dois arcos de histórias, a revista "A Noite em que Gwen Stacy Morreu" figura na lista de tramas clássicas do Homem-Aranha. Numa luta contra o inimigo Duende Verde, Parker não consegue salvar a namorada, que morre após cair de uma ponte.
A HQ da morte de Gwen Stacy, se tornou, entre estudiosos do tema, o ponto de separação entre a Era de Prata e de Bronze dos comics e determinou que as HQs de super-herói podem tratar de temas e temáticas adultas"
Quadrinhos x cinemas
Hoje, as criaturas heroicas dos quadrinhos testemunham uma proximidade sem igual com o cinema. Podia não ter o mesmo investimento ou badalação dos dias atuais, mas os super viveram uma febre de seriados 'live action" no final dos anos 1970. Hulk era um dos programas que faziam a cabeça da criançada na frente das telinhas. Com o Aranha não foi diferente.
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Contudo, o orçamento curtinho da produção "The Amazing Spider-Man" não colaborava muito. Cria do canal CBS, a série foi ao ar em setembro de 1977 e contou com duas temporadas. Com 92 minutos, duração semelhante à de um longa-metragem, o episódio piloto da série chegou a ser exibido em salas de cinema.
Enquanto isso, no Japão, estreava a versão nipônica do Aranha. Aqui, o herói ganha poderes de um alienígena e assim como Jaspion também tinha um robô gigante.
Somente em 2002, após um longo histórico de confusões e projetos engavetados, o Aranha finalmente ganhou uma adaptação oficial para os cinemas. Dirigido por Sam Raimi e estrelado por Tobey Maguire, "Homem-Aranha" foi um sucesso e consolidou o espaço dos super-heróis em Hollywood.
Para Eduardo da Silva Pereira, os quadrinhos hoje atravessam um encolhimento do número de leitores e a transformação de um produto pop em produto de nicho. Assim, os gibis como conhecemos estariam ameaçados pela força do audiovisual?
"O quadrinho comercial de super-heróis, sim. Pois, editoras como Marvel e DC Comics, nas últimas duas décadas perderam milhares de leitores... Mas, se tornaram produtoras de conteúdo para serem utilizados por outras mídias como cinema, tv, internet e assim atingir o grande público", finaliza o autor cearense
Os próximos projetos em livro de Eduardo da Silva Pereira serão "Bill Finger: O Verdadeiro Criador de Batman" (Editora Noir), "Joe Simon: O Primeiro Soldado" (Editora Noir), "Don Heck: O esquecido da Marvel" (ainda sem editora), "Quino: O Criador da tira de Mafalda" (sem editora) e "Moebius: O Gênio dos Quadrinhos".
"A Noite em que a Marvel Fez o Mundo Chorar: A história por trás da morte da namorada do Homem-Aranha"