Grupo Bagaceira de Teatro comemora 20 anos com programação de aniversário virtual

O coletivo completa duas décadas de atuação no Ceará, mirando um horizonte de reencontros e resistência para continuar existindo

Legenda: Rogério Mesquita, Yuri Yamamoto, Rafael Martins, Ricardo Tabosa e Tatiana Amorim completam a formação atual do Grupo Bagaceira de Teatro
Foto: Foto: Joyce S. Vidal

Era abril de 2000 quando, por meio de uma ligação, Rogério Mesquita e Lívia Guerra decidiam, sem pensar muito, no nome “Bagaceira” para o grupo teatral que estava nascendo ali, na inscrição de trabalhos para o IV Festival de Esquetes de Fortaleza (Fesfort). Quase um mês depois, no dia 17 de maio daquele ano, uma nota publicada no caderno de cultura do Jornal Diário do Nordeste, fazendo menção à apresentação das peças “Papoula” e “Solange Mulher”, cravava a “data de nascimento” desse coletivo que, em 2020, já celebra duas décadas de atuação.

Legenda: Nota sobre o IV Fesfort, no Caderno 3 / Diário do Nordeste, em 17/05/2000, marca o nascimento do Bagaceira, com duas peças no evento: Papoula e Solange Mulher
Foto: Foto: Arquivo Diário do Nordeste

Em meio à pandemia do novo coronavírus, quando todas as atividades que promovem algum tipo de aglomeração presencial estão proibidas, o grupo resolveu realizar uma programação de aniversário virtual. É preciso comemorar as 16 peças que circularam pelo País, as três produções audiovisuais realizadas e os 50 prêmios conquistados. 

Nesse sentido, por meio das redes sociais do Bagaceira, Rogério Mesquita, Rafael Martins, Yuri Yamamoto, Ricardo Tabosa e Tatiana Amorim, propõem revisitar a própria trajetória, a partir de fotos, textos, vídeos e lives com artistas parceiros. Além disso, realizam uma campanha virtual que visa o apoio financeiro para eles nesse cenário.

No longo percurso, os integrantes tanto se descobriram como profissionais da cultura, como já viram Fortaleza entre altos e baixos no que diz respeito ao investimento nessa área. Acompanharam a revolução do Colégio de Direção Teatral e o despontar do Dragão do Mar com os equipamentos independentes de seu entorno (Teatro da Praia, Teatro Radical, Centro Cultural Calango do Açude, Teatro Boca Rica, Teatro das Marias). Testemunharam a criação do Fórum de Teatro e o início das políticas de editais. Viram os cursos em nível superior da área surgirem na cidade, a exemplo das graduações do IFCE e da UFC. Vivenciaram o Theatro José de Alencar vivo e pulsante e a fase de palcos para longas temporadas dos grupos locais.

Legenda: “Papoula” é um dos primeiros trabalhos do Bagaceira. A comédia foi apresentada no IV Festival de Esquetes de Fortaleza (Fesfort), no Teatro da Praia, de Carri Costa
Foto: Foto: Jomar

Hoje o que temos empalidece diante desses poucos exemplos: a política dos editais está engessada há pelo menos uma década, ou seja completamente ineficaz em relação à demanda real dos artistas. Os espaços públicos, em sua maioria, carecem de um pensamento que vá além de pequenos eventos e as temporadas desapareceram da cidade, tornando invisível para a cadeia produtiva do teatro produzido por aqui, ou seja um prejuízo que vai além do financeiro, é simbólico”, analisa Rogério Mesquita, integrante desde a formação original.

Mesmo a Casa Da Esquina, sede do Bagaceira desde 2007, está com o futuro comprometido. Lá, eles promovem experimentos, temporadas, oficinas e também guardam seu acervo de trabalhos sobre o cotidiano humano. “Com a ineficácia de uma política pública para grupos que possuem espaços independentes e os efeitos dessa pandemia, provavelmente teremos que entregar o imóvel. No mês de junho, vamos começar uma série de ações virtuais pelas redes sociais, mas ainda não temos boas perspectivas”, diz Rogério.

Confiança

O público é, sem dúvidas, o maior presente que o coletivo conquistou nessas duas décadas. São os espectadores que fazem os integrantes levantarem a cabeça diante de qualquer dificuldade, e esse retorno se deve a um trabalho de base. Desde as primeiras temporadas do Bagaceira, os stands de venda de ingresso espalhados por diversos lugares da cidade são um hábito. Nunca se abriu mão de uma boa bilheteria e de uma comunicação efetiva com a plateia.

“Nestes 20 anos, temos dados coletados ao longo das nossas temporadas sobre a faixa etária, profissão, se é frequentador ou não de teatro, para que esse canal nunca se perca. Por isso que na nossa modesta sede, basta um final de semana de ‘Interior’, espetáculo do nosso repertório, para que a as contas do espaço saiam do vermelho”, comenta Rogério.

Legenda: “Interior” (2013) reverencia os artistas, a cultura interiorana e todos que vieram antes de nós
Foto: Foto: Caique Cunha

Na impossibilidade de se apresentar espetáculos curingas nesse contexto de pandemia, o grupo vem experimentando as atividades e campanhas pelas redes sociais. A ideia é investir cada vez mais nessas plataformas, inclusive do ponto de vista da criação daqui para a frente, reinventando modos de fazer, uma qualidade que eles também têm acumulada.

Desde muito cedo, a gente percebeu que a linguagem é limitada, que os conceitos não dão conta, que o Bagaceira não é feito pra ser explicado, mas acompanhado por meio das experiências com cada obra. Isso nos deu liberdade. O principal exemplo está no próprio nome ‘Grupo Bagaceira de Teatro’ que ficou defasado, visto que, dentre outras coisas, temos feito cinema e pretendemos continuar fazendo”, observa Rafael Martins.

Presente no coletivo desde 2000, ele recentemente assinou o roteiro do longa-metragem “Inferninho” (2018), ao lado dos diretores Pedro Diógenes e Guto Parente. O filme tem como um dos protagonistas Yuri Yamamoto, que, ainda na perspectiva audiovisual, assinou o roteiro e a direção dos curta-metragens “On my Own” (2008) e “Ao vento” (2016). 

Legenda: O filme “Inferninho” (2018), de Guto Parente e Pedro Diógenes, é uma das produções audiovisuais do Bagaceira. Em cena, Yuri Yamamoto e Demick Lopes
Foto: Divulgação

Também da formação original do grupo, Yuri percebe que todos envelheceram juntos e provoca, entre outras coisas, o sentido de continuar.

Nossos trabalhos sempre foram movidos por nossas inquietações, mas, nesse momento, cada um de nós está tão inquieto que, apenas olhamos um para o outro e percebemos. Decidimos não montar um trabalho para comemorar os 20 anos do grupo, ao invés disso, decidimos nos reencontrar na sala de ensaio, tentar nos entendermos, buscarmos o prazer, de pelo menos estarmos juntos, que é o sentido da coisa”. Daqui de fora, o público espera ansioso o resultado de mais esse processo.

Serviço
Campanha #bagaceira20anos.
Nas redes sociais do grupo durante todo o mês de maio 
@grupobagaceira no Instagram, Facebook e YouTube 
Site para contribuir com a campanha: sympla.com.br/grupobagaceira
Mais informações: (85) 98672-0555

Conteúdo extra:

Espetáculos:
1 Papoula e o Sabonete Cabeludo ( 2001)
2 Os Brinquedos no Reino da Gramatica (2002)
3 Ano 4 ( 2003)
4 Lesados (2004)
5 Engodo (2004)
6 O Realejo (2005)
7 Meire Love ( 2006)
8 POrnográficos (2007)
9 Tá Namorando ! Tá Namorando ! (2008)
10 InCerto (2010)
11 POr que a Gente Não é Assim? (2011)
12 A Mão na face (2012)
13 Interior (2013)
14 O Pequeno Casaco Solitário (2014)
15 Fishman (2015)
16 O Sr. Ventilador (2017)
 
Audiovisual:
1 On my Own (Curta-metragem, com roteiro e direção de Yuri Yamamoto, 2008)
2 Ao Vento (Curta-metragem com roteiro e direção de Yuri Yamamoto, 2016)
3 Inferninho (Longa-metragem com roteiro de Rafael Martins, Pedro Diógenes e Guto Parente, direção de Pedro Diógenes e Guto Parente, 2018)
 

Depoimentos dos integrantes

Qual foi o principal presente/descoberta que o Bagaceira lhe proporcionou nestes 20 anos?
 

Rafael Martins (Desde 2000 no grupo): Aprendi que há uma relação profunda entre arte e vida. Que a beleza, o sublime só nos visita depois de enfrentamentos, conflitos, mergulhos, leituras de mundo, percepções. A arte é experimental porque a vida também é. Ambas exigem coragem. E fazer parte de um grupo é mergulhar junto condição humana. Inventando as obras a gente também se inventa.

Ricardo Tabosa (Desde 2002 no grupo): A principal descoberta, pra mim, foi o ofício do ator. Entrei no grupo com 15 anos, estreei minha primeira peça profissional aos 16. Meu registro profissional foi tirado com as experiências de trabalho no grupo. Minha formação foi na prática. Hoje, consigo enxergar uma maturidade cênica no meu ofício que, no começo, era bastante ingênua. Então, me experimentar em espetáculos adultos, infantis, peças curtas, longas, no palco, na rua, em comédia, em tragédia, no teatro, em vídeo… Encaro como uma formação mesmo. Tudo é experiência acumulada e que fui exercitando ao longo do tempo. E a formação profissional foi acompanhando o processo de maturidade pessoal também. O trabalho em coletivo faz, paradoxalmente, refletir bastante sobre identidade também, sobre a busca do eu. E sinto que as descobertas, as investigações continuam acontecendo.
 
Rogério Mesquita (Desde 2000 no grupo): Me descobri artista, criador, produtor, ganhei parceiros no grupo e em diversas partes do mundo , conheci o Brasil inteiro  e o seu interior, e me assumo como um TRABALHADOR que movimenta a economia da cultura, que precisa gritar para ter seu devido respeito. 
 
Tatiana Amorim (Desde 2003 no grupo): Nesses 20 anos ganhei amigos e a descoberta de que eu realmente sou atriz.
 
Yuri Yamamoto (Desde 2000 no grupo): O Bagaceira é para mim um espaço de formação, na prática. Desde o inicio, da formação enquanto grupo, sempre confiamos um no outro. Essa confiança, possibilitou que cada um pudesse experimentar, nesse formato de grupo, suas habilidades. Além de todos atuarem, cada um também, ao longo do tempo, assumiu uma outra função e, tudo isso, na prática, errando e aprendendo com os erros. No grupo, experimentei dirigir, atuar, criar figurino, cenário, até arriscar escrever peças. Esse processo de trabalho prático, de tentar entender tudo isso em sala de ensaio, em produção etc, me fez entrar nesse processo de autoformação, tendo como objeto de estudo, cada trabalho proposto pelo grupo, sempre no caráter experimental.