Festival Jazz & Blues de Guaramiranga completa 20 edições e diversifica seus apelos

Das pequenas atividades aos grandes enlaces dentro e fora dos palcos, vivenciar a edição comemorativa do evento representou abraçar diversidades sonoras e humanas

Legenda: Movimento intenso promovido por Vanildo Franco, Eder "O" Rocha e Vivi Pozzebón
Foto: Foto: divulgação

É verdade que, quando estamos atentos ao redor, tudo se ilumina. Essa máxima aprendi desde cedo, no alto de minha tenra idade de pimpolho, e tenho tentado levá-la para quaisquer lugares onde vou. Ao pisar pela primeira vez em Guaramiranga, não foi diferente. Apurei os sentidos, persegui as falas, segui a trilha do som.

Descobri, no caminho, oásis inteiros. Aportar na cidade para acompanhar a 20ª edição do Festival Jazz & Blues de perto representou imersões em vários aspectos, muitos deles vindos à luz por meio de conversas no meio da rua ou no interior de um camarim esbranquiçado pela luz pálida no teto. Ali, junto ao frio serrano de 19ºC, diferentes calores e olhares se misturavam e faziam brotar conhecimento e também aconchego.

Elementos, vale sublinhar, presentes sobretudo nos palcos oficiais e alternativos do evento. Troca benéfica de energias, a condução de cada apresentação ou formação parecia destilar, em quem repassava e em quem recebia, feições de gente nova: havia olho brilhando, atenção em escutar, seriedade no compartir.

Foi assim, por exemplo, com as oficinas de guitarra e percussão, capitaneadas respectivamente por Felipe Cazaux e a dupla Vanildo Franco e Vivi Pozzebón, em dois dias de evento. Entre palmas e silêncios, era fácil enxergar alguém com rosto de novidade: começava algo ali que talvez não tivesse mais fim, ora. Quem controlaria o desejo de aprender e se renovar? E como segurar o movimento inquieto que pairou na praça principal da cidade quando, com instrumentos de percussão, todos foram enlaçados por algo feito irmandade?

Legenda: Oficina de percussão levou participantes à praça principal da cidade
Foto: Foto: divulgação/Felipe Abud

Esse mesmo saber que escorria pelos olhos, chegava às mãos a cada palma direcionada a quem ocupava o tablado da Cidade Jazz & Blues. E foram muitos nomes emblemáticos a passar por ali: do Trio Jobim às homenageadas Marimbanda e Marajazz, passando pela energia frenética de Terrie Odabi, a potência incontornável de Jesuton e a calmaria carioca do mestre Guinga, acompanhado de Nailor Proveta e Teco Cardoso.

A turma do show "George Harrison em Blues" também não ficou atrás. Juntos, Felipe Cazaux, Roberto Lessa, Kildare Rios, Márcio Holanda, Eduardo Neves, Rafael Balboa e Marcelo Holanda protagonizaram momentos de intensa troca com o público ao fazê-los entoar clássicos como "Here Comes The Sun" e "My Sweet Lord". Saiu tudo em uníssono, beneficiado pela ausência das costumeiras cadeiras no espaço, o que fez com que, das crianças aos idosos, houvesse gente pulando, entregando-se à magia que a boa música é capaz de proporcionar e promover.

Extensão

De certa forma, essas manifestações agigantadas no palco revelavam também os diminutos detalhes que vinham à tona no backstage. Eram comuns os abraços e as risadas entre os artistas, feito gente que não se encontra faz tempo. O público respondia a esses enlaces não apenas encostando uma mão na outra para saudá-los, mas, inclusive, transpondo a linha, fazendo até quadrilha improvisada, um dos pontos altos do evento, logo em seu primeiro dia.

Aconteceu no meio do show ao pôr do sol realizado por Vanildo Franco, Eder "O" Rocha e Vivi Pozzebón. Uma turma de diferentes partes do Estado, que havia acabado de se conhecer, uniu alegrias e as espalhou por entre todos os presentes. Jazz & Blues, afinal, é ciranda afetiva. Insígnia viva de cearensidade.

É também cuidado, consciência necessária sobre o ambiente ao entorno. Por isso mesmo, crianças foram convidadas durante o evento a pensar em como estavam se colocando perante o planeta a partir do uso racional da água, ao passo que os adultos emergiram em trilhas ecológicas para observar os pássaros e congratular a natureza que, naquele mato serrano, ganha ares mais próximos, de família ao lado.

Legenda: Observação de pássaros e trilhas ecológicas foi uma das atividades alternativas aos shows durante o festival
Foto: Foto: divulgação/Bruno Soares

Nada seria possível, contudo, se as próprias manifestações do município-sede não fossem atrativas ao desbravar. Na rua principal da cidade, artistas exibindo talentos, vinis pendurados ao vento, pequenas casas dividindo espaço com o comércio, gente sempre passando de um lado para outro abocanhando as novidades: em tempo carnavalesco, tudo virava convite para uma prosa animada. E, ao fundo, o som de um sax ou violão inspirado, fazia cada coisa ficar mais especial.

Enquanto paisagem sonora que, a cada ano, se renova e se agiganta para receber mais gente, o Festival Jazz & Blues não poderia escolher outra mãe senão Guaramiranga: é terra onde tudo se encontra e se ilumina. Ambos em sintonia. Que venham mais 20 anos.

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