De saco de pipoca aberto a brinco de R$ 1,50: pessoas compartilham as frustrações de Amigo Secreto

Experiências surgem no rastro do que vivenciou o influenciador Esse Menino; em alguns casos, houve até quem desistiu de participar da brincadeira para sempre

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 17:56)

A exibição do amigo secreto dos famosos realizado pelo Fantástico, no último domingo (19), ganhou repercussão sobretudo por conta de um detalhe inusitado: a reação do influenciador digital Esse Menino diante do presente entregue pelo ator Michel Gomes. Ele recebeu uma luminária após presentear o apresentador Marcos Mion com um tênis personalizado.

Não demorou para que usuários da internet destacassem a disparidade de valores dos dois objetos. Em tom de piada, Esse Menino publicou uma foto nas redes sociais ao lado da luminária, seguida da legenda: “feliz festas”.

Veja também

Não é de hoje, contudo, que a dinâmica do Amigo Secreto pode ser bastante negativa. Amanda Borges, 26, que o diga. A enfermeira coleciona experiências catastróficas quando o assunto é receber presentes durante a típica brincadeira de fim de ano. Tudo começou já na primeira vez da qual ela participou, ainda na escola primária.

“Muito empolgada, no auge dos meus nove anos, cheguei na escola e ninguém tinha levado o presente, apenas eu. E, mesmo assim, entreguei o par de brincos à minha amiga. Quando cheguei em casa, mainha quase me mata: primeiro porque dei presente e, segundo, porque gastei a caneta dela brilhosa fazendo a cartinha”, recorda.

A segunda vez ocorreu quando era adolescente. Amanda presenteou o amigo oculto com um boné de R$30. Em contrapartida, recebeu um brinco, segundo ela, “simpático”, que depois descobriu custar RS1,50.

Amanda Borges guarda histórias de frustração com a brincadeira de confraternização desde a infância
Legenda: Amanda Borges guarda histórias de frustração com a brincadeira de confraternização desde a infância

“O outro caso foi quando eu trabalhava. Fiz uma listinha de coisas que gostávamos, pra ficar mais fácil, e coloquei na opção cores: ‘Tudo, menos rosa’. Minha amiga secreta me deu uma saia rosa choque e disse pra eu desmistificar meus preconceitos com cores”.

Essas, conforme sublinha, são as mais memoráveis, mas Amanda já recebeu até dinheiro amassado com a desculpa da pessoa de que “não sabia o que dar”. Outra vez, deu de presente um livro, porém o amigo disse que não gostava de ler. Como não tinha levado nada para presentear, entregou a obra ao próprio amigo secreto dele.

Resistência para participar

De acordo com a enfermeira, o último grito de socorro foi o repasse da lista de desejos de cada um dos participantes da brincadeira. Depois que lhe mandaram desmistificar preconceitos, nunca mais ela participou. Hoje, quando alguém vai presentear Amanda, ela volta ao esquema de listas, dessa vez para selecionar coisas de que gostaria de possuir.

“Mando pros meus amigos e eles sempre falam: ‘Amanda, manda a lista do que tu quer e, assim, somos todos felizes’. Inclusive, muitos deles adotaram a lista de presentes”, destaca. Quando questionada por que foi tão frustrante não receber boas lembranças de Amigo Secreto, ela é enfática: “Porque eu adoro cuidar muito do presente. Investigo, procuro saber os gostos, faço coisas até manuais, customizo… Aí, ganho um gloss de R$5. Puxado, né?”.

inter@

“Amigo Secreto ajuda bastante na interação e na criação de novas amizades, mas, para que ele tenha esse efeito, quem dá o presente tem que pelo menos possuir bom senso na hora de escolher algo que possa ser do gosto da pessoa. Dá pra perceber isso sutilmente. Não precisa ser de um valor alto, só precisa ser condizente com quem receberá”, situa.

A empreendedora Daniela Mota, 39, concorda com a questão. Para ela, a dinâmica natalina é um momento de demonstrar o que sentimos pelos pares e de confraternizar. Não à toa, a necessidade da coerência no instante de presentear alguém.

“Por isso acho que só funciona com a família e com os amigos. Nesses casos, cada um já conhece o outro. Não é questão de valor financeiro, mas de valor emocional. Algo pode custar R$1, mas eu sei que a pessoa vai gostar”, diz. A opinião ganhou mais força depois das péssimas experiências na dinâmica – uma, em específico, ainda mais séria para ela.

Daniela Mota hoje se recusa a participar da dinâmica, após diversos desacertos ao ser presenteada
Legenda: Daniela Mota hoje se recusa a participar da dinâmica, após diversos desacertos ao ser presenteada

Aconteceu há 10 anos com colegas de trabalho, quando Daniela ainda lecionava em uma escola. Ela presenteou a pessoa contemplada com um kit de uma famosa marca de perfumaria – contendo perfume, hidratante e sabonete. No lugar, recebeu um brinco estimado em R$5. “Fiquei muito frustrada porque apenas eu tinha recebido um presente assim, sabe? Todos receberam bons presentes, e eu não”, lembra.

Desde a época, a empreendedora não participa mais de Amigos Secretos. “Peguei trauma”, ri. “Foi decepcionante porque sempre quero dar algo especial para alguém, mas a maioria das pessoas não pensa assim. Isso se tornou algo negativo na minha vida”.

Sabonetes por um pacote de pipoca

A estudante do curso de Humanidades da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Thais Chaves, 21, também guarda uma história de insucesso no Amigo Secreto, quando ainda estava no 8º ano do Ensino Fundamental.

Ao saber quem ia presentear, pensou em escolher um bom objeto para também ganhar um assim. A lei do retorno, porém, não funcionou.

“Eu dei uma caixinha de sabonetes da Natura – naquele tempo era um bom presente. Passei a semana toda esperando saber quem tinha me tirado e o que ia me dar. Chegou o dia, o menino tava na arquibancada e, quando perguntaram quem tinha me tirado – porque não aparecia ninguém – ele se ligou e pediu desculpas. Não tinha comprado nada. Como era hora do recreio, ele me deu como presente a metade da pipoca que estava comendo”, rememora.

Thaís Chaves, apesar de já ter ganhado presentes frustrantes, acredita na simbologia do Amigo Secreto
Legenda: Thaís Chaves, apesar de já ter ganhado presentes frustrantes, acredita na simbologia do Amigo Secreto

Embora continue participando da dinâmica por julgá-la divertida, Thais nunca esqueceu esse episódio. Naquele tempo, ficou chateada, mas, hoje, lembra como algo engraçado, passível de acontecer com qualquer um.

“Foi frustrante receber um saco de pipoca aberto. Acho que eu só queria algo legal, que eu gostasse, ou uma coisa significativa. Quando isso aconteceu, fiquei pensando que nunca mais iria participar. Mas aí a raiva foi passando e, no outro ano, eu tava lá de novo”.

Para ela, a simbologia do Amigo Secreto reside no fato de ser um momento de descontração entre amigos e colegas. Não sem motivo, acho muito divertido o mistério de saber quem tirou quem – mais do que a questão do presente em si, inclusive. Assim, no intuito de tornar a dinâmica prazerosa para todos, Thais elenca algumas sugestões.

“No momento de combinar, as pessoas deveriam estipular um valor que caiba na realidade financeira de todos. E, individualmente, podem escolher algo pensando no que realmente os participantes iriam gostar. Acho que até bottons de personagens preferidos são válidos – são baratos e são sobre a pessoa. Por sinal, acredito que essa é a questão, relacionada com aquele pensamento de ‘vi tal coisa e lembrei de você’ ou ‘isso é muito a sua cara’”, enumera.