O que é o Globo de Ouro e por que a indicação brasileira importa?

Prêmio existe desde 1944, teve perfil recentemente renovado e firmou-se relevante holofote até o Oscar.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 14:16)
O troféu dourado do Golden Globes aparece em destaque, exibindo o globo terrestre envolto por uma fita de película cinematográfica sobre uma base metálica. O fundo é composto por uma parede preta com os logotipos da premiação e da Dick Clark Productions aplicados em cor dourada.
Legenda: Criado em 1944, Globo de Ouro é palco de visibilidade para produções no caminho até o Oscar.
Foto: Patrick T. Fallon / AFP

Uma premiação concedida anualmente por um grupo de profissionais de imprensa de todo o mundo em reconhecimento aos melhores filmes e produções de TV do ano anterior. Em resumo, o Globo de Ouro — cuja primeira edição data de 1944 — pode ser apresentado assim.

A descrição, no entanto, não dá conta das várias famas do prêmio — que vão de ser um dos mais animados da temporada às controvérsias recentes por falta de diversidade no corpo de votantes, por exemplo. Em 2026, o evento chega à 83ª edição neste domingo, 11, com exibição a partir de 21 horas na TV Globo, TNT e HBO Max.

Nos últimos cinco anos, no entanto, o Globo de Ouro passou por uma renovação de perfil acentuada, tornando-se mais diverso, ainda mais internacional e com mais personalidade própria — o que ajudou a lançar holofotes em obras que acabaram chegando mais fortes ao Oscar, caso do próprio brasileiro “Ainda Estou Aqui”.

“Ele abre a temporada de premiação dos Estados Unidos. Ainda que tenha um histórico de personalidade intensa e com resultados um tanto diferentes do restante das premiações, é uma espécie de largada”.

Quem explica é a jornalista, pesquisadora e crítica de cinema baiana Enoe Lopes Pontes, que também é votante do Globo de Ouro desde 2022, ano em que a premiação alargou o corpo de membros para diversificá-lo. 

“Com a entrada dos votantes internacionais, há uma maior pluralidade de vozes e de tipo de cinema também, de tipo de série”, destaca. Na edição de 2026, 477 jornalistas de todo o mundo participam da votação do prêmio, sendo 38 deles do Brasil.

A jornalista Enoe Lopes Pontes sorri frontalmente para a câmera, exibindo cabelos castanhos ondulados e uma blusa estampada em tons de amarelo e preto. O fundo é cinza, neutro e minimalista.
Legenda: A baiana Enoe Lopes Pontes é votante do Globo de Ouro desde 2022.
Foto: Reprodução / Globo de Ouro.

Para comparação, até ocorrer o aumento do número de votantes, eram cerca de 90 os profissionais que votavam para decidir os vencedores, todos membros da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês). A instituição foi responsável pela realização da premiação até 2023.

Holofotes para mais atores e atrizes

Apesar da bem-vinda abertura, o “formato” da premiação segue o mesmo desde pelo menos os anos 1950. Foi em 1951, por exemplo, que ficou estabelecido que o Globo de Ouro dividiria as principais categorias em duas, uma voltada a produções de drama e outra de comédia e/ou musical.

A divisão permite até hoje que mais filmes, séries e intérpretes sejam reconhecidos pelos trabalhos. Desde 2024, cada categoria de atuação indica seis artistas

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Só nas referentes ao cinema, há categorias de ator e atriz de comédia/musical, de drama, ator e atriz coadjuvantes. O total é de 36 indicados. Em comparação, o Oscar possui quatro categorias de atuação e indica cinco pessoas em cada, totalizando 20 indicados.

Essa amplitude, historicamente, fazia com que o Globo de Ouro indicasse nomes alheios ao debate da temporada de premiações, muitas vezes em ação vista e criticada como uma forma de garantir a presença de mais estrelas na cerimônia. Com a renovação do perfil de votantes, porém, esse número maior passou a ser encarado positivamente como forma de visibilizar artistas e filmes na temporada.

“Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”

O evento, como aponta Enoe, “sempre foi uma premiação de muita personalidade, com algumas divergências em relação ao Oscar”. Após a reformulação, a cerimônia aumentou a “sintonia” em relação ao principal prêmio da indústria, não exatamente prevendo vencedores, mas justamente ao trazer a citada visibilidade a nomes como, por exemplo, o de Fernanda Torres.

A atuação dela no drama “Ainda Estou Aqui” já era elogiada, mas foi com a vitória na categoria de Melhor Atriz de Drama no Globo de Ouro de 2025 que a brasileira encontrou holofotes que a fortaleceram para chegar na indicação ao Oscar.

Fernanda Torres sorri com entusiasmo enquanto segura o troféu do Globo de Ouro com as duas mãos à frente de um painel de patrocinadores. Ela usa um vestido preto de gola alta e acessórios prateados, em uma composição que destaca sua expressão de celebração e vitória.
Legenda: Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro em 2025, o que garantiu visibilidade e força para chegar até a indicação ao Oscar.
Foto: Robyn Beck/AFP.

O longa de Walter Salles não saiu vencedor da categoria de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, mas a vitória de Fernanda ajudou a produção a receber mais visibilidade. O resultado foram indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, na qual saiu vitoriosa.

Em 2026, o Brasil figura novamente na lista de indicações, dessa vez com “O Agente Secreto”. A obra de Kleber Mendonça Filho foi reconhecida nas categorias de Melhor Filme de Drama, Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator de Drama, para Wagner Moura.

A importância da presença brasileira no Globo de Ouro

“A indicação ao Globo de Ouro desenha um horizonte particularmente promissor em direção ao Oscar. Ela sinaliza uma aceitação relevante não apenas por parte da crítica, mas também da indústria estadunidense, que tem papel central na dinâmica da temporada de prêmios”, aponta Rachel do Valle.

Diretora de Programas do Projeto Paradiso, instituição filantrópica de apoio ao audiovisual brasileiro e que investe especialmente na internacionalização da produção nacional, ela destaca que “esse reconhecimento inicial é estratégico para a construção de uma campanha mais longa e sólida, ampliando as chances de o filme se manter em evidência” até o Oscar.

Rachel do Valle sorri usando um vestido preto e um colar de miçangas azul-turquesa de destaque, com a mão no bolso. A mulher possui cabelos curtos e cacheados, posando em um plano médio contra um fundo marrom neutro.
Legenda: Diretora de Programas do Projeto Paradiso, Rachel do Valle aponta que "a indicação ao Globo de Ouro desenha um horizonte particularmente promissor em direção ao Oscar" para "O Agente Secreto".

Para Rachel, a presença brasileira no evento é importante por revelar um “espaço contínuo, e não episódico” ocupado por produções do País. Ela cita, inclusive, que o movimento não é isolado, lembrando o destaque do longa “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, um dos vencedores do Festival de Berlim de 2025.

O que a especialista observa é “um conjunto de obras que vêm projetando o Brasil de maneira consistente nos principais festivais e premiações do mundo”. “Esse acúmulo de visibilidade desperta interesse continuado pela cinematografia brasileira, fortalecendo tanto sua influência cultural quanto seu potencial comercial”, aponta.

“Indicações e prêmios em eventos como o Globo de Ouro funcionam como selos de validação que ampliam a confiança de agentes, distribuidores e exibidores, facilitando acordos e abrindo novas janelas de circulação”
Rachel do Valle
diretora de Programas do Projeto Paradiso

Em diálogo, Enoe Lopes Pontes argumenta que a presença brasileira em prêmios e festivais internacionais “pode convocar a presença de empresários e figuras grandes do mercado que podem passar a contribuir financeiramente para nossa indústria”. 

O aspecto econômico é destacado pela crítica e votante do Globo de Ouro inclusive no que diz respeito ao fortalecimento dos investimentos no setor audiovisual. “Quando a gente tem visibilidade isso se traduz em dinheiro e aí sim as grandes potências dos grandes setores econômicos políticos e sociais abrem as portas um pouco mais para o investimento na cultura e na arte do país”, relaciona.

“O que uma indicação de um prêmio ou um prêmio podem fazer é aumentar a vontade dos grandes setores políticos e econômicos a investirem. Abre-se uma cancela. Então, a premiação pode trazer dinheiro para o cinema brasileiro e aumentar ainda mais a visibilidade do audiovisual nacional, porque o que o Brasil faz com o dinheiro que tem — com pouco dinheiro que tem — ninguém faria”, defende Enoe.

83º Globo de Ouro

  • Quando: domingo, 11, a partir de 21 horas
  • Onde: exibição na TV Globo, na TNT e na HBO Max
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