Maneira de premiar 'O Agente Secreto' vai além de 'gafe' ou 'desatenção'

Longa brasileiro saiu vencedor do Critics Choice Awards, mas não teve momento de celebração no palco.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho subiram ao palco do Critics Choice Awards, mas não para receber o prêmio de "O Agente Secreto".
Foto: Kevin Winter / Getty Images North American / Getty Images via AFP.

Além das cifras milionárias e do soft power envolvidos, uma das motivações para que exista a temporada de premiações — que culmina na cerimônia do Oscar, neste ano marcada para o dia 15 de março — é o reconhecimento a produções de cinema e trabalhadores da área.

Por isso, é de se estranhar como o longa pernambucano “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi premiado neste domingo (4) na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Critics Choice Awards: no tapete vermelho durante entrevista prévia à cerimônia, sem palco, discurso ou aplausos.

Uma falta de respeito com a produção e os artistas que não passou despercebida nas redes sociais por milhares de brasileiros, que se sentiram também desrespeitados pela premiação — ainda que outros vencedores, inclusive estadunidenses, também tenham recebido os troféus da mesma forma.

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Apesar disso, é possível analisar o fato em um contexto maior, que vai além da mera “gafe” ou “desatenção” geral: em um ano em que diversas produções em língua não-inglesa chegam com força nas premiações, o fato simboliza a ainda presente barreira da indústria audiovisual dos Estados Unidos com o cinema feito no restante do mundo.

Seis anos depois, o conselho do sul-coreano Bong Joon-ho ao ganhar em 2020 o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro por “Parasita” — que viria a ser o grande vencedor do Oscar — ainda ressoa: “Uma vez superada a barreira de 2,5 cm das legendas, você será apresentado a muitos outros filmes incríveis”.

Questão de linguagem

Historicamente, o Oscar também nomeava a categoria como “Melhor Filme em Língua Estrangeira” ou “Melhor Filme Estrangeiro”. Uma troca de vocabulário, que foi posteriormente refletida em diferentes premiações, a renomeou como “Melhor Filme Internacional” — num aceno à globalização da indústria e da própria premiação

O nome antigo ficou válido até 2020, justamente o ano em que “Parasita” se tornou o primeiro filme em língua não-inglesa a vencer o principal troféu do evento. Ainda antes, porém, diferentes filmes em outras línguas que não o inglês já haviam sido indicados na categoria principal do Oscar. 

Em anos recentes, a presença global se fortaleceu, com exemplos que incluem “Drive My Car” em 2022, “Triângulo da Tristeza” e “Nada de Novo no Front” em 2023, “Anatomia de uma Queda” e “Zona de Interesse” em 2024, e “Emília Pérez” e “Ainda Estou Aqui” em 2025.

Em 2026, no entanto, há tendência para que essa presença seja ainda maior, o que acentua o estranhamento com a maneira de premiar “O Agente Secreto” no Critics Choice Awards. Pelo menos cinco longas em língua não-inglesa, incluindo o brasileiro, têm se mostrado fortes para disputar o Oscar de Melhor Filme. 

“Ou, como chamamos no meu país, Melhor Filme Estrangeiro”, brincou Wagner Moura ao anunciar, com Kleber, o vencedor da categoria principal do prêmio deste domingo (4), em alusão ao fato óbvio, mas necessário de ser dito, que produções dos EUA e/ou em inglês são "estrangeiras" em relação ao restante do mundo. 

Presença global no Oscar

Não ajuda a imagem do evento que uma nova regra válida a partir deste ano tenha impedido que um dos principais concorrentes de “O Agente Secreto” em Melhor Filme Internacional no Oscar, o norueguês “Valor Sentimental”, não tenha sequer disputado a categoria análoga no Critics Choice. 

Pelo regramento recente, uma obra em língua não-inglesa indicada a Melhor Filme deixa de ser elegível para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, numa decisão que parece relegar a última a um segundo patamar.

Fato é que tanto “Valor Sentimental” e “O Agente Secreto” chegam com fortes chances a várias categorias no Oscar quanto o iraniano “Foi Apenas um Acidente” (que na premiação representa a França), o espanhol “Sirât” e o sul-coreano “A Única Saída”, todos também indicados ao Critics. 

Na principal premiação da temporada, são 10 os indicados finais. Portanto, é improvável que metade delas seja ocupada por produções em línguas diferentes do inglês. Apesar disso, pelo menos três — "O Agente Secreto", "Valor Sentimental" e "Foi Apenas Um Acidente" — têm sido mais frequentas nas apostas.

O fato ganha relevo ainda maior pelo momento político dos Estados Unidos, como pontuou o próprio cineasta Kleber Mendonça Filho em fala após a premiação, no qual "o elemento estrangeiro tem sido muito debatido".

Tais reconhecimentos e, até, os desafios desse processo provam que, por mais barreiras que sigam insistindo em manter erguidas, o audiovisual se espraia globalmente cada vez mais por qualidades próprias, independentemente das fronteiras concretas ou simbólicas.

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