Como o banho gelado virou tendência para cuidar do corpo e da mente
Procura pela prática tem sido crescente, sobretudo entre atletas e praticantes recreacionais.
Não se sabe se Arquimedes gritou “Eureka” em banheira de água fria ou quente. Mas uma prática tão antiga quanto tem virado tendência ao dirigir o olhar para o poder da água em baixíssimas temperaturas – oportunamente, também durante mergulho em banheira. O banho gelado está na moda no Brasil, e Fortaleza abriga lugares específicos para a prática.
Os fins são variados, e dialogam com diferentes desejos e necessidades do público. Há quem busque com propósito terapêutico; outros como forma de inibição de processos inflamatórios e redução significativa de dor muscular tardia – caso sobretudo de atletas e praticantes recreacionais. No fim das contas, alívio e bem-estar são palavras-chave nesse universo.
Mas há certo espanto. Afinal, o banho de gelo – ou cold plunge, como é originalmente conhecido – consiste na imersão total ou parcial do corpo em água gelada, entre 4 e 15 graus negativos, normalmente de 1 a 5 minutos.
Dá para imaginar a reação do contato com esse turbilhão de gelo, sim? “Há um grande choque”, dimensiona a psicóloga Eloisa Fuchs.
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“No primeiro minuto, o corpo reage como se algo muito errado estivesse acontecendo – todos os sistemas de defesa são ativados. Brinco que esse momento é a ‘prova de fogo’ ou a ‘prova de gelo’, porque se você consegue resistir a essa resposta física tão intensa, muito provavelmente vai chegar aos três minutos”.
A previsão tem fundamento. Após o primeiro minuto, o corpo já começa a se reorganizar sensorialmente. Continuar ali, assim, fica mais fácil, uma vez que as terminações nervosas vão amortecendo e o organismo “se calibra” para lidar com aquela intensidade toda. Encontra maneira própria de atravessar a experiência.
“Hoje está muito popular fazer esses banhos em banheiras com gelo, mas a maneira tradicional é em piscinas frias, cachoeiras naturais, lagos e rios. Nos países frios, fazem um buraquinho no gelo em lagos congelados para entrar naquela água. Ou então simplesmente tomam banho com o aquecimento desligado, porque a água já vem gelada da caixa d'água durante o inverno”.
Banho de gelo com fins terapêuticos
Também diretora da Casa Lágrima – um dos lugares na capital cearense que oferecem banhos gelados – Eloisa elenca as principais ressonâncias da experiência no que diz respeito a fins terapêuticos.
Benefícios mentais e emocionais são enormes, segundo ela. Em essência, o banho de gelo pode ser encarado como metáfora viva para enfrentamento de desafios.
“Quando nos colocamos disponíveis, conscientemente, para atravessar uma experiência intensa e desconfortável, ainda que segura e controlada, estamos treinando muito mais do que a tolerância ao frio: exercitamos habilidades psicológicas fundamentais”.
Diz respeito, sobretudo, conforme destaca, à presença e à regulação emocional em tempo real; à capacidade de permanecer no desconforto e construir resiliência; e ao empoderamento que nasce quando nos percebemos capazes de enfrentar o difícil. É também uma reconfiguração de nossa relação com o estresse e com as intensidades do corpo.
Em linhas diretas, trata-se de reconexão profunda entre corpo, mente e emoção, um ritual de renovação carregado de simbolismos que nos ajudam a lidar com questões práticas da vida.
“Por isso, para mim, não se trata apenas de um banho frio, mas uma ferramenta de travessia psicológica-somática que oferece aos participantes uma experiência direta de regulação emocional, presença, coragem e auto-superação”, detalha Eloisa.
“É uma morte simbólica do que já não serve. Junto às células que morrem no corpo, entrega-se uma parte do passado, abrindo espaço para um renascimento em corpo presente, com a mente clara e coragem renovada. No fim, ficamos mais vivos, disponíveis, inteiros”.
Caminhos para cura
Referenciado pela profissional como Banho de Vida, a ação nasceu na Casa Lágrima há pouco mais de dois anos como resposta a uma necessidade que ela, enquanto psicóloga, via se intensificar na clínica, especialmente após a pandemia de Covid-19.
Lidando com trauma e tragédias familiares, Eloisa percebeu a urgência de oferecer caminhos de cura para além da escuta individual. Trajetos que incluíssem o corpo e criassem experiências de regulação e autoconhecimento compartilhadas. “Trabalho com grupos há 10 anos, mas sentia que precisava oferecer ainda algo mais para o corpo”, diz.
A procura confirmou a relevância da proposta: todos os meses, 20 vagas são preenchidas com um público diverso, mas unido pela vontade de estar no mundo de forma autêntica e criativa.
“São pessoas que entendem que a satisfação na vida está ligada a perceber as reais necessidades e a viver com mais presença. Dessa forma, tem-se criado uma comunidade unida e muito interessante em torno desses eventos”.
Do ponto de vista prático, o evento é financeiramente sustentável, de acordo com ela. O investimento inicial foi em uma banheira – com custo inferior a R$ 800 – e, por encontro, são utilizados cerca de 260 kg de gelo, com custo aproximado de R$ 400.
Dividido entre os participantes, o custo por pessoa fica em torno de R$ 20 apenas em gelo, o que torna a experiência acessível e viável. “Claro, são tantos outros custos, mas a banheira em si não pesa nessa conta”, brinca.
Para atletas também
Se cura a alma, também cura o corpo. No século XXI, a ciência do esporte aprofundou o entendimento dos efeitos fisiológicos do frio – a exemplo de vasoconstrição e redução da inflamação e dor – e otimizou o uso dele.
Nesse segmento específico, de esportes, a técnica do banho gelado surgiu a partir da necessidade de atletas de alto rendimento potencializarem a recuperação e manter a performance em contextos de estresse físico intenso.
Em tempos feito os de hoje – no qual muita gente adere à corrida, musculação, entre tantas outras práticas afins, no qual o corpo é posto à prova o tempo inteiro – não é se admirar que imersões no gelo tenham virado moda.
“A procura tem sido alta e crescente. O investimento exige infraestrutura especializada, logística de gelo, rigor em higiene e equipe qualificada”, enumera Wesley Matos, ex-atleta da seleção brasileira de triathlon, profissional de educação física, fisiologista, pesquisador em recovery há quase duas décadas e proprietário da Ergos Sport & Spa.
A empresa está no mercado há nove anos e é considerada pioneira na oferta de técnicas avançadas de recovery – processos para recuperação física após esportes – e de banhos de contraste, baseando-se em pesquisa científica e inovação.
Por lá, a frequência é individualizada, variando conforme a carga de treino, objetivos e resposta pessoal.
Cada passo é orientado por especialistas, geralmente de uma a três vezes por semana ou pontualmente após grandes esforços. De acordo com Wesley, “o principal efeito no corpo é a inibição do processo inflamatório e a redução significativa da dor muscular tardia (DOMS), proporcionando alívio e bem-estar pós-esforço”.
No entanto, a vasoconstrição causada pelo frio tende a reter o ácido lático e outros metabólitos nos músculos, em vez de removê-los. Para a remoção eficiente de metabólitos, o banho de contraste – alternando frio e calor – é considerado mais eficaz.
“Após a realização, a pessoa geralmente se sente revigorada, com dor e inflamação reduzidas no corpo, mente alerta e focada, e um espírito fortalecido e com sensação de bem-estar”.
Banho gelado x Crioterapia
O fisiologista ainda diferencia o banho gelado de um termo que tem ganhado cada vez mais o boca a boca: Crioterapia. Na explicação de Wesley:
- Crioterapia: baseia-se em protocolos científicos, com temperaturas controladas, supervisão especializada, avaliação prévia de contra indicações e almeja resultados terapêuticos específicos com segurança;
- Banho gelado: se encarado de forma generalista, pode ser mais uma experiência de bem-estar ou desafio, com possibilidade de faltar controle, segurança e fundamentação profissional, aumentando riscos ou minimizando a eficácia terapêutica.
Por sua vez, para Eloisa Fuchs, enquanto experiências como o Banho de Vida são considerados rituais de passagem imersos em contexto terapêutico integrativo – que inclui dança, meditação, convivência e reflexão – a Crioterapia é prática de saúde e performance.
“Ela nasce no campo clínico e esportivo, voltada principalmente para atletas ou pessoas em recuperação física diante de estímulos intensos. Os objetivos são concretos: reduzir inflamação, acelerar regeneração muscular, aliviar dor, otimizar resultados. Uma intervenção técnica, muitas vezes isolada, focada no corpo como sistema biológico a ser otimizado”.
Ambas usam o frio e geram respostas fisiológicas similares no corpo. Mas uma se dedica a regenerar tecidos; outra, a regenerar possibilidades.
Imersão no gelo é para todo mundo?
Empresária, atleta de corrida e proprietária do Centro de Apoio Integrado ao Atleta (CIAA) – outro lugar de Fortaleza em que, desde 2017, é possível realizar a prática – Andréa Sales é categórica: não, o banho gelado não é para todo mundo.
“Pessoas com doenças cardiovasculares descompensadas, hipertensão não-controlada, problemas circulatórios, sensibilidade extrema ao frio, doenças respiratórias graves ou gestantes devem evitar ou só realizar sob orientação profissional. Por isso, a avaliação individual é fundamental antes da prática”, aconselha.
Não à toa, o cuidado em cada empresa para que tudo aconteça da forma mais segura possível. No formulário de inscrição da Casa Lágrima, por exemplo, são sinalizadas as condições em que a prática não é recomendada.
Além das listadas por Andréa Sales, há também epilepsia não-controlada, doenças autoimunes em fase ativa, hipotireoidismo descompensado, feridas abertas ou condições de pele infecciosas, e estados emocionais de desregulação severa.
A melhor orientação é mesmo, conforme Wesley Matos, da Ergos Sport & Spa, consultar um médico antes de iniciar a prática caso a pessoa apresente alguma das condições listadas, algo que exige cautela ou contraindicação.
Como nasceu o banho gelado
É coisa de milênios. Já na Grécia e Roma Antigas, a medicina de Hipócrates documentava o uso da água fria para reduzir inchaço e dor como parte essencial de ciclos de banhos terapêuticos.
Tinham até um nome para isso: o frigidário – espécie de piscina de água gelada que fechava os poros e revigorava o corpo.
Essa sabedoria também aparece em outras culturas. No Leste Europeu, na Finlândia e na Rússia, a alternância entre o calor intenso da sauna e o mergulho em buracos no gelo é uma tradição antiga, sempre vista como forma de fortalecer a saúde. A experiência, portanto, nunca saiu de moda. Países gelados da região têm esse hábito e faz parte da cultura de enfrentamento deles ao inverno.
“O que aconteceu mais recentemente, e que trouxe essa prática de volta com força, foi a história de Wim Hof, um holandês excêntrico e muito carismático. Ele passou por uma tragédia pessoal que o levou a buscar formas de cura e superação. Foi assim que redescobriu o banho de gelo não só como terapia física, mas como ferramenta poderosa para trabalhar traumas, fortalecer a mente e reconectar corpo e emoção. Ficou famoso indo a programas de TV nos EUA quebrando recordes próprios de permanência no gelo”, explica Eloisa Fuchs.
Hoje, Wim é o grande estandarte dessa prática, e por causa dele, vemos centros de bem-estar e terapias integrativas ao redor do mundo incorporando o banho de gelo nos protocolos.
E o melhor: muita ciência boa tem sido produzida sobre o tema, mostrando impactos reais na longevidade, no equilíbrio mental e na regulação do sistema nervoso. É uma daquelas tradições ancestrais que a ciência moderna está, agora, validando.
“Isso é excelente: uma técnica não-invasiva com benefícios imediatos comprovados, que, quando incorporada em tratamentos com outras práticas em paralelo, se mostra de grande ajuda”.
O banho gelado continuará?
A aposta de estudiosos e empresários é de que a tendência não deixará de estar em pauta tão cedo. Pelo contrário: deve ocupar ainda mais a ordem do dia.
“O aumento do interesse por Crioterapia, por exemplo, reflete uma sociedade mais consciente sobre saúde, prevenção e autocuidado. As pessoas estão buscando estratégias naturais, baseadas na ciência, para melhorar desempenho, recuperação e bem-estar. Isso sinaliza uma mudança de comportamento: foco no rendimento com atenção à longevidade, equilíbrio e qualidade de vida”, analisa Andréa Sales.
Wesley Matos traz outra faceta da adesão pela experiência: o fato de ela ser impulsionada pela influência de atletas e celebridades, mídias sociais e foco nos benefícios mentais e de resiliência. “No entanto, o Brasil ainda está um pouco atrás nessa ascensão”, percebe.
“Hoje, enquanto o banho de contraste começa a ser mais reconhecido no país, ainda com pouquíssimos locais ofertando-o, estudos mais modernos já não tratam a Crioterapia como o melhor procedimento para recuperação muscular em atletas”.
Eloisa Fuchs, por fim, ao considerar o universo das terapias, diz que existe, sim, demanda crescente por processos grupais, autoconhecimento e experiências que envolvam corpo e convívio. Dentro desse contexto, o banho de gelo é mais um fator agregador para essa criação de comunidade.
“Porque passamos muito tempo isolados, estamos reconfigurando a forma de estarmos juntos – além do fato de que vivemos em tempos desafiadores por vários motivos e, portanto, existe uma necessidade de estar entre os seus, encontrar seu bando/sua tribo para pertencer. A sociedade está buscando mais do que soluções individuais. Está pedindo por trocas genuínas, conexão real e práticas que nos lembrem que não estamos sozinhos”.