Artistas comemoram liberação de eventos culturais no Ceará, mas reforçam necessidade de cuidados

Secretaria da Cultura do Estado (Secult) informa que segue organizando a reabertura presencial de equipamentos como museus e espaços expositivos

pessoas sentadas diante do theatro josé de alencar
Legenda: Expectativa de artistas é pela volta das programações, mas sempre mantendo os cuidados sanitários. Na foto, o Theatro José de Alencar
Foto: Natinho Rodrigues

Primeiro setor a suspender as atividades presenciais devido à pandemia de Covid-19, o segmento cultural volta a realizar eventos em equipamentos públicos a partir desta segunda-feira (23). A determinação foi anunciada neste sábado (21) pelo Governo do Estado do Ceará, em novo decreto de flexibilização do isolamento social contra o novo coronavírus.

As regras são as mesmas definidas para os eventos sociais – com limitação de, no máximo, 200 pessoas em espaço aberto e 100 em ambiente fechado. Além disso, devem ser obedecidas medidas sanitárias divulgadas pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

O ingresso será permitido apenas para pessoas já vacinadas com duas doses da vacina ou com comprovação de testagem negativa para a Covid-19, em exame realizado até 48 horas antes do evento.

Repercussão das medidas

Ator, diretor da Cia. Prisma de Artes e representante do Fórum de Linguagens de Fortaleza, Raimundo Moreira diz que já havia expectativa da classe artística para retomada de eventos culturais de modo presencial. Segundo ele, os integrantes do setor recebem com bastante satisfação as medidas previstas no novo decreto, embora seja necessária a manutenção de todos os cuidados sanitários.

“Sabemos que ainda ronda a sombra da variante Delta no ar, então vamos permanecer com os cuidados e os distanciamentos. Na verdade, o decreto libera as atividades, mas com todos aqueles ‘senões’. O que queremos é que seja um retorno em que não precisemos mais fechar tudo de novo para, mais uma vez, ter que retornar lá na frente”, diz.

Entre as expectativas listadas pelo ator está a de conquistar novamente o público, visando que o mesmo retorne e tenha a segurança necessária para essa nova relação com as ações culturais.

“Esperamos que essa volta gradativa surta um efeito positivo e que, até o fim do ano, a gente tenha um retorno de 100% de público nas atividades, uma vez que depender só de programação on-line estava bem difícil”.
Raimundo Moreira
Ator, diretor da Cia. Prisma de Artes e representante do Fórum de Linguagens de Fortaleza

Às vistas de iniciar uma programação presencial na Casa Absurda – sede das agremiações teatrais Cia. Prisma de Artes e Grupo Pavilhão da Magnólia – Raimundo observa que uma importante questão é a comunicação que os artistas e grupos devem travar com o público. Na visão dele, deve-se salientar que o ambiente onde serão realizadas as atividades estará seguro, otimizando uma relação de confiança e tranquilidade com as pessoas convidadas.

“Nós lidamos com um público muito consciente, então há uma certa resistência de sair, de saber se aquele lugar é seguro. Assim, é relevante destacarmos que as pessoas tenham a segurança de vir – já que não adianta abrir espaços e não haver frequência de público”, afirma.

“De todo modo, acho que estão todos com saudade de querer ver, de olhar… Isso será um fator positivo se conseguirmos nos comunicar direito e a preservação dos cuidados ficar latente nas ações. A bem da verdade, nós, da cultura, sempre fomos um grupo muito consciente da pandemia, e vamos continuar com essa consciência até conseguirmos erradicar essa situação”.

Mais inclusão nas programações

Semelhante opinião é alimentada pelo cantor, compositor, poeta e produtor cultural Pingo de Fortaleza. Vendo com bons olhos a retomada dos eventos culturais em equipamentos públicos do Estado, ele considera que a decisão deve favorecer toda uma cadeia ainda bastante prejudicada com os duros impactos proporcionados pelo isolamento compulsório.

“Agora a gente segue com expectativas positivas, inclusive com relação ao Carnaval. Eu acho que já é possível pensar um pouco nessa data comemorativa, e espero que as políticas públicas comecem a ser tomadas para que esse evento realmente venha a acontecer – já que, neste ano, não houve Carnaval e isso prejudicou todo um segmento que é muito específico”, defende.

pingo de fortaleza
Legenda: Para Pingo de Fortaleza, as expectativas são positivas inclusive em relação ao Carnaval 2022
Foto: Thiago Gadelha

No rastro desse retorno das atividades presenciais, o artista também destaca a necessidade de uma maior inclusão dos profissionais da cultura em eventos como festas, encontros, seminários e festivais – sempre observando, claro, os cuidados sanitários. 

"Agora é a hora de todos os segmentos se preocuparem com a classe artística: vai fazer um encontro, chama um grupo, chama um artista”.
Pingo de Fortaleza
Cantor, compositor, poeta e produtor cultural

“Está na hora, assim, de a sociedade reconhecer o papel que as artes tiveram e que têm para a saúde das pessoas. Acho relevante que o conjunto social – compreendendo o poder público e a iniciativa privada - insira os artistas em todas as programações, priorizando os cearenses, a nossa cadeia de produção”.

Feito Raimundo Moreira, Pingo de Fortaleza também deve lançar um novo trabalho em breve de forma presencial – um CD inteiramente gravado durante a pandemia. De acordo com ele, essa dinâmica de voltar a preparar a agenda de shows/apresentações está pautando o cotidiano de artistas e grupos.

“Claro que demora um tempo para nos organizarmos – é um olho na agenda, outro na dinâmica e outro nos dados da pandemia. É tudo, porém, uma questão de expectativa. Eu tenho uma muito positiva para esse nosso desejo de sair”, celebra.

Aposta no formato híbrido

raisa christina
Legenda: Raisa Christina defende a manutenção do formato híbrido das programações
Foto: Thiago Gadelha

Ao pensar sobre o assunto, a artista visual Raisa Christina salienta a importância da manutenção de um formato híbrido – tanto no que diz respeito a formações na área artística quanto à realização de atividades culturais. Segundo ela, mediante algumas experiências vivenciadas durante a pandemia, esse modelo oportunizou o encontro de pessoas de diferentes condições e territórios do Estado e do País.

“Fico pensando que esse formato híbrido deve se manter, para dar acesso a muita gente. E, a partir daí, pensar em algo pontual – um encontro para talvez expor os resultados e as pesquisas que cada um foi desenvolvendo, por exemplo. Mas acho que esse é um formato possível, uma vez que nada vai ser mais igual como era”, constata.

Sob outra esfera, ela também avalia positivamente o retorno dos eventos culturais em equipamentos públicos – inclusive pontuando que, dentre os segmentos que já foram liberados para recebimento de público, a exemplo de shoppings e outros setores do comércio, o segmento cultural talvez seja o que menos oferece risco de contaminação, principalmente se considerarmos a dinâmica de museus e outros espaços expositivos.

“São lugares que tinham picos de público em aberturas de exposição, por exemplo, e se fosse no período de férias. Mas, normalmente, já não eram ambientes que causavam aglomerações”, avalia.

“Se formos comparar com a realidade de shoppings, por exemplo, vejo que são pesos diferentes porque a cultura é sempre marginalizada. Parece que é mais fácil colocar como um problema uma manifestação artística do que uma manifestação voltada para o mercado, para o comércio”.

No posto de artista visual, ela adianta que está acompanhando a montagem de algumas exposições em espaços cuja visitação já foi liberada – como o Sobrado Doutor José Lourenço, equipamento gerido pela Secult-CE – e percebe a preocupação dos artistas em desenvolver trabalhos cujo princípio seja assegurar uma vivência mais segura diante do contexto pandêmico, evitando o compartilhamento de itens como fones de ouvido, por exemplo.

“Para além disso, nesta época a gente também tem que ter muito cuidado com algo que na maioria das vezes acontece, que é o fato de não ser previsto um cachê para o artista. Hoje, mais do que nunca, as instituições têm que pensar que o convite para expor uma obra não é tudo. Isso é muito legal, mas há essa questão de ter um respeito – mediante um cachê, um pró-labore, uma espécie de bolsa. Há ainda muita dificuldade na cena, e é preciso superar esse cenário”, argumenta.

Secretaria da Cultura

Em nota, a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE) informa que a rede de equipamentos gerida pela pasta segue com programação híbrida, a maioria em formato online, mas também com a atividade de gravação de espetáculos no palco – embora, nesse caso, ainda sem plateia.

A partir do novo decreto, a Secult, em parceria com o Instituto Dragão do Mar (IDM), igualmente continua organizando a reabertura, com público, de outros ambientes, a exemplo de museus e espaços expositivos. Em breve, obedecendo os protocolos, eles devem retomar atividades.

“Com acompanhamento da Secretaria de Saúde do Ceará (Sesa), estão sendo programados os primeiros eventos-testes, cumprindo todas as normas sanitárias de prevenção à pandemia de Covid-19, e respeitando os protocolos de segurança vigentes, orientados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Governo do Estado do Ceará”, salienta o texto.

Por sua vez, os cinemas do Cineteatro São Luiz e do Dragão do Mar, mediante decretos anteriores, seguem abertos, recebendo público controlado e em observância às medidas sanitárias. Já a Biblioteca Pública Estadual do Ceará (BECE) está recebendo pessoas por meio de agendamento, ao passo que a Escola Porto Iracema das Artes está retomando, de forma gradual e segura, as aulas presenciais do Curso Técnico em Dança (CTD).

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