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Por que há tendência de queda na vantagem do PT no Ceará para as eleições de 2026

Especialistas ouvidos pelo PontoPoder apontam elementos que podem influenciar essa disposição, sugerindo um ambiente mais competitivo para 2026.

Escrito por
Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
Montagem com duas fotografias lado a lado. À esquerda, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece falando em um púlpito, usando terno cinza, camisa branca e gravata clara, diante de dois microfones. Ao fundo, há um painel amadeirado. À direita, o senador Flávio Bolsonaro está sentado em uma mesa de comissão, usando terno azul-claro, camisa branca e gravata estampada, falando ao microfone. Ao fundo, há uma parede clara com elementos gráficos desfocados.
Legenda: Embora o presidente Lula (PT) mantenha a liderança nas intenções de voto no Ceará sobre Flávio Bolsonaro (PL), a pesquisa Genial/Quaest da pré-campanha indica uma vantagem menor que a alcançada por Fernando Haddad (PT) em 2018 e pelo próprio Lula em 2022.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e Geraldo Magela/Agência Senado.

O Ceará é um dos principais redutos eleitorais do lulismo no Nordeste e registrou vantagem ao PT nas últimas disputas presidenciais. Para 2026, contudo, há uma tendência de queda dessa diferença em comparação aos anos anteriores. É o que observa Felipe Nunes, cientista político e diretor do instituto Quaest, com base na mais recente pesquisa Genial/Quaest sobre a disputa ao Planalto, divulgada na quarta-feira (6).

Embora o presidente Lula (PT) mantenha a liderança nas intenções de voto no Ceará – com 50% contra 23% de Flávio Bolsonaro (PL) –, o cenário deste estágio da pré-campanha indica uma vantagem menor que a alcançada por Fernando Haddad (PT) em 2018 e pelo próprio Lula em 2022.

No Ceará, a tendência de piora da situação do PT é mais clara. Haddad abriu 42 pontos sobre Bolsonaro em 2018. Em 2022, a vantagem do Lula continuou grande, 40 pp. Agora, Lula tem 34 pp de frente, dianteira menor do que em anos anteriores.
Felipe Nunes
Cientista político e diretor do instituto Quaest

Especialistas ouvidos pelo PontoPoder apontam elementos que podem ter influenciado esse resultado, sugerindo um ambiente mais competitivo para 2026. Vale destacar que o levantamento representa um retrato do momento e pode sofrer alterações até o primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

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A pesquisa, realizada entre os dias 21 e 28 de abril com 1.002 eleitores cearenses, percorreu todo o Estado. A margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Ela está registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-01347/2026 e foi contratada pela Genial Investimentos.

Gráfico compara desempenho de PT e PSL/PL no Ceará em 2018, 2022 e 2026.
Foto: Reprodução/Quaest.

Desgaste do PT

Mariana Dionísio, doutora em Ciência Política e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), lembra que Lula foi beneficiado em 2022, no Ceará, por uma coalizão que incluía setores anteriormente distantes do petismo. Exemplo disso foi o apoio dado pelo ex-senador Tasso Jereissati (PSDB), embora tenha optado por compor uma oposição “não sistemática” ao governo a partir de 2023.

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Mesmo assim, o Estado foi onde Bolsonaro ganhou mais adesão no segundo turno daquela eleição. Além disso, para este ano, não se vislumbra o reforço das mesmas figuras em prol da pré-candidatura lulista, vide a decisão de Tasso.

Não só no Ceará, mas em vários estados do Nordeste, observa-se a tendência de unificação das oposições, complementa Marcos Paulo Campos, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA). A estratégia estadual segue formato semelhante ao adotado pelo PT em 2022, quando reuniu uma frente ampla contra a reeleição de Jair Bolsonaro.

Na esfera local, a sinalização de uma aliança entre Ciro Gomes (PSDB) e o PL potencializa duas forças políticas distintas – o cirismo e o bolsonarismo – em torno de um mesmo projeto oposicionista, o que torna os percentuais mais "densos" e o acirramento acentuado. Na avaliação de Campos, esse movimento também influencia a disputa presidencial.

43%
Preferem um governador aliado de Lula no Ceará, segundo a Quaest.

34%
Preferem um governador independente no Ceará, segundo a Quaest.

18%
Preferem um governador aliado de Bolsonaro no Ceará, segundo a Quaest.

A título de comparação, ele lembrou que em Pernambuco foi onde Lula mostrou o melhor desempenho na recente pesquisa Genial/Quaest, justamente onde os candidatos mais competitivos ao governo estadual são simpáticos ao petista. 

“A governadora Raquel Lira quer demonstrar proximidade com o governo e o seu opositor mais forte, João Campos, é abertamente lulista. Nos outros estados em que a oposição, tanto ao governo local como ao governo nacional, está unificada, o acirramento é mais pesado”, apontou.

Já no Ceará, rompimentos e alianças emblemáticas de 2018 para cá, entre outros episódios aparentemente dispersos, geraram um “quadro muito mais preocupante para o campo governista que qualquer número isolado de pesquisa”, segundo Dionísio.

“A tendência estrutural de erosão da hegemonia” pode ser explicada por fatores como as margens apertadas de vitória do governismo nas eleições municipais de Fortaleza em 2020 – José Sarto (PSDB) era aliado ao PT à época –, e, em 2024, as derrotas em Sobral e Caucaia, as vitórias de Gledson Bezerra (Podemos) em Juazeiro do Norte e, agora, o fortalecimento de André Fernandes (PL).

Flávio Bolsonaro é mais ‘palatável’ que o pai

Para Mariana Dionísio, pesa, ainda, a análise de que o bolsonarismo passa por um processo de "territorialização" no Estado. Ela argumenta que, enquanto Jair carrega um peso simbólico negativo no Nordeste, Flávio se apresenta como uma “versão mais palatável” e “menos custosa” eleitoralmente.

Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), compartilha da visão sobre o fortalecimento de uma direita mais estratégica. Na sua avaliação, além da imagem mais amena, Flávio Bolsonaro conta com cabos eleitorais locais fortalecidos pelas urnas.

“O desgaste do governo estadual no que diz respeito à segurança pública também vai se juntando a tudo isso e, obviamente, corroendo o capital eleitoral até mesmo pelo cansaço da temporalidade – embora não seja uma queda considerável”, complementa Freitas. 

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Nacionalização de disputas locais e seus impactos

Para Mariana Dionísio, a pesquisa também reflete como o Ceará virou laboratório simultâneo de disputas nacionais antecipadas de todos os campos. Embora apresente leve fôlego da oposição no Planalto, isso aumenta a volatilidade dos resultados preliminares.

“O bolsonarismo disputando internamente quem comanda a oposição no Estado, o lulismo pressionado a entregar resultados concretos para segurar a base e a centro-esquerda representada por Ciro tentando reocupar um espaço que havia abandonado” são características desta pré-campanha, segundo Dionísio.

Destacam-se, ainda, as críticas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) à aliança que está sendo costurada entre o PL cearense e Ciro Gomes, gerando ruídos na oposição. 

Todos esses fatores despertam atenção nacional, que deve ser novamente explorada pelo PT na tentativa de polarizar a disputa para segurar sua base. "O PT vai querer mostrar o candidato de Lula versus o candidato do bolsonarismo", explica Emanuel Freitas.

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“Já passamos pela eleição de 2018 e pelo governo de Bolsonaro, que foi testado e não atingiu patamares consideráveis de aprovação no Nordeste e no Ceará. Mas estamos falando agora de um momento pós-governo Lula, que também ficou a dever, então esse eleitor tem dois governos para pesar”, pondera o professor.

Apesar da tendência mostrada pela Quaest, o cenário ainda é incerto, complementa Marcos Paulo. “(O bolsonarismo) se organizou melhor e conseguiu ter candidatos ao Legislativo campeões de votos, muito porque há um nicho nítido de onde eles instituem sua organização, que é um nicho evangélico. Agora, se esse crescimento vai ser capaz de superar o histórico lulista da região, é uma coisa que nós teremos que ver”, conclui.

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