Legislativo Judiciário Executivo

Como a decisão do STF pode impactar a imagem pública de Jair Bolsonaro e os planos do PL para 2026

Após operação da Polícia Federal, o ex-presidente enfrenta uma série de medidas restritivas

Escrito por
Luana Barros luana.barros@svm.com.br
Jair Bolsonaro foi alvo de operação da Polícia Federal e está usando tornozeleira eletrônica
Legenda: O ex-presidente Jair Bolsonaro foi alvo de mandados de busca e apreensão e também de medidas restritivas, como uso de tornozeleira eletrônica
Foto: Thiago Gadelha

As medidas cautelares aplicadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com uso de tornozeleira eletrônica e a imposição de recolhimento domiciliar durante a noite e aos fins de semana, foram as determinações mais rígidas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Bolsonaro foi alvo de operação da Polícia Federal, nessa sexta-feira (18), quando endereços ligados a ele passaram por busca e apreensão e uma série de restrições foram determinadas em decisão do ministro Alexandre de Moraes — em documento onde são citados os crimes de coação no curso do processo, obstrução de Justiça e ataque à soberania nacional. 

Para além dos desdobramentos jurídicos, o episódio gera desgaste político ao ex-presidente e deixa lideranças ligadas à direita brasileira "entre a cruz e a espada", conforme define a coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídia (Lepem/UFC), Monalisa Soares. 

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Isso porque as medidas contra Bolsonaro estão ligadas diretamente às recentes tentativas de interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Justiça brasileira, inclusive com a imposição de taxação em 50% aos produtos brasileiros

"De um modo geral, as investigações em torno da tentativa de golpe já tinham arranhado um pouco a imagem pública de Bolsonaro para a sociedade de modo geral", considera Soares, que pondera, no entanto, que devido a duração desse processo, "o desgaste estava localizado". 

"Com essa entrada do Trump, a atuação dessa figura que já tinha uma avaliação negativa na opinião pública brasileira, esse arranhado que estava localizado, se ampliou, porque começa-se a dar voz, digamos assim, à fala dos opositores, de que o ex-presidente está preocupado exclusivamente com a sua individualidade, não tem apreço pela economia nacional ou mesmo pelo povo".
Monalisa Soares
Coordenadora do Lepem/UFC

Pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (16), por exemplo, aponta que 72% dos brasileiros afirmam ser um erro de Trump impor tarifas ao Brasil por causa de Bolsonaro. E apenas 19% afirma que o presidente dos EUA está correto. 

'Cruz e espada'

Mas então, como ficam os aliados de Bolsonaro? Bem, isso depende. "Ainda que o ex-presidente Bolsonaro tenha esse lugar relativamente tóxico hoje, ele continua sendo uma liderança que tem uma base extremamente fidelizada", pontua Soares.

"Chegou a uma situação muito difícil para a direita nacional: ou eles defendem Bolsonaro, que tem esse eleitor muito fidelizado, muito mobilizado e que é fundamental para ter um patamar básico de disputa — e é isso a maior questão, porque quem tem esse eleitorado, parte de um bom lugar para a disputa — ou lidar com um certo distanciamento que pode permitir uma tentativa de angariar eleitores outros e trazer essa base em nome do antipetismo", segue ela.

O distanciamento poderia ser feito por figuras que não possuem uma relação tão direta com Bolsonaro, não são "bolsonaristas raiz" e não dependem inteiramente dos votos dos eleitores fidelizados do ex-presidente. 

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Contudo, há lideranças que surgem ou se fortalecem intrinsecamente ligadas ao ex-presidente, tendo "uma demanda imediata da base mais fidelizada do bolsonarismo". "Eles vão ter que encampar o discurso de injustiça", diz Soares. 

A narrativa da "perseguição política" e da "humilhação" tem sido repetida por lideranças bolsonaristas, mesmo antes da operação da Polícia Federal. Mas ganha "novo delineamento" com as medidas restritivas determinadas pelo STF, pontua a cientista política e doutoranda em Políticas Públicas, Cleris Albuquerque.

"Agora, ele se apresenta como vítima, aquela pessoa que foi humilhada e injustiçada pelo uso da tornozeleira eletrônica e também pelo impedimento de acesso às redes sociais, dentre outras medidas que foram impostas a ele. A tese da perseguição política está ganhando agora nesse contexto mais força do que nunca", detalha.

Bolsonaro vai, inclusive, depender desses aliados para reforçar essa narrativa, devido ao impedimento do uso das redes sociais — "um campo que ele domina com maestria" e fica agora "silenciado", afirma Albuquerque. É disso que depende eventual reversão da crise vivida pela direita bolsonarista. 

Centrão "de olho" e PL sob risco

"É um momento, na minha leitura, de crise na direita, de um possível enfraquecimento, mas que pode ser revertido", pontua Albuquerque. Tudo vai depender da eficácia na disseminação da "tese que vai ser vendida, de que Bolsonaro está sendo perseguido, silenciado". 

Uma tarefa que não é fácil, porque existem grupos de olho em como aproveitar o desgaste do bolsonarismo para crescer. "O Centrão pode hoje ser esse ator no campo da direita que está mais de olho, esperando inclusive colher os espólios de um desgaste do eleitorado com o bolsonarismo", explica Soares.

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É exatamente o posicionamento do eleitorado não apenas com o bolsonarismo, mas com o PL — partido que cresceu bastante com a filiação de Bolsonaro, mas que pode acabar sendo atingido pelo desgaste na imagem do ex-presidente. 

Monalisa Soares cita o exemplo do PT, que após a prisão de Lula, sofreu um enfraquecimento, perdendo diversas prefeituras e também a eleição presidência de 2018, mas, no mesmo ano, fazendo a maior bancada na Câmara dos Deputados. "Tinha um peso, tinha uma incidência", diz. 

"O Lula, a gente associa diretamente ao PT, Bolsonaro diretamente ao PL. Então, assim, não tem como  pensar no parlamentar, no candidato sem estar ligado ao partido. Então, assim, respinga também no partido", completa Cleris Albuquerque.

Monalisa Soares, no entanto, pontua que mesmo depois da entrada de Bolsonaro e seus liderados no PL, o partido continuou "muito diverso", inclusive com lideranças distantes ao ex-presidente. 

"O PL, diferente do PT, tem um uma relação de organicidade diferente com o bolsonarismo, ainda que o bolsonarismo tenha se tornado a cara do PL após a entrada do ex-presidente Bolsonaro. Agora, a questão é mais a paisagem eleitoral de 2026 e um pouco que a gente pode ver se essa situação do ex-presidente, que vai minando ele até a sua base de sustentação exclusiva, que é essa mais consolidada, qual vai ser as repercussões disso do ponto de vista eleitoral".
Monalisa Soares
Coordenadora do Lepem/UFC

Impacto para o Ceará

No Ceará, os bolsonaristas questionaram a decisão do Supremo que autorizou os mandados de busca e apreensão e as medidas restritivas de liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro. De saída da presidência do PL Ceará, o deputado estadual Carmelo Neto (PL) chamou Alexandre de Moraes de "ditador". "Não há crime, não há condenação, não há prova. Apenas perseguição política escancarada", disse. 

O deputado federal André Fernandes (PL) — que deve assumir o comando do partido a nível estadual — disse que o STF é um "câncer" e reforçou o discurso de que há uma perseguição contra Bolsonaro. "Nós estamos vivendo um regime no Brasil, uma ditadura no Brasil, perseguição política contra Jair Bolsonaro", falou.

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Outros parlamentares bolsonaristas, como os vereadores Julierme Sena (PL) e Bella Carmelo (PL), a deputada estadual Dra. Silvana (PL) e o federal Dr. Jaziel (PL) também demonstraram indignação com as medidas adotadas contra Bolsonaro. 

Monalisa Soares pontua que são exatamente aqueles que disputam cargos no Legislativo que possuem "relativa estabilidade" no cenário eleitoral, mesmo associando a própria imagem à do ex-presidente Bolsonaro. Isso porque, eles mantêm a base "mais fidelizada" de eleitores, o que costuma ser suficiente para conquistar uma cadeira no parlamento.  "O desafio vai ser para a construção de um discurso mais amplo, que é o que um cargo executivo demanda", destaca. 

"Eu fico pensando aqui se o próprio Ciro (Gomes, ex-ministro) topa entrar nessa discussão e como é que ele, por exemplo, poderia se colocar diante dessa ingerência norte-americana no caso brasileiro em virtude dos processos desse ex-presidente, considerando seu histórico discursivo, inclusive de defesa da soberania nacional".
Monalisa Soares
Coordenadora do Lepem/UFC

Ciro Gomes é cotado como candidato ao Palácio da Abolição em 2026, apesar de negar publicamente o desejo de concorrer a "qualquer" cargo. O ex-ministro tem sido uma das principais vozes a defender um palanque único da oposição "para salvar o Ceará" — inclusive ele chegou a ensaiar diálogos com lideranças do PL, como André Fernandes e Carmelo Neto.  

Nesse esforço, outro pré-candidato ao Governo do Ceará, o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (sem partido), chegou a se encontrar com Bolsonaro no final de maio. E agora, com o desgaste da imagem do ex-presidente, pode também ter as intenções eleitorais afetadas. 

"Até então estava tendo essa paquera dessa união, só que com a ação de hoje, pode acontecer que essa paquera seja um pouco estremecida", afirma Cleris Albuquerque.

A projeção da cientista política foi confirmada. Indo na direção contrária ao que vinha sendo articulado durante os últimos meses, André Fernandes descartou apoio aos nomes de Ciro Gomes ou de Roberto Cláudio para o Governo do Ceará

Em entrevista ao colunista Wagner Mendes, ele garantiu que o PL terá candidatura própria e que qualquer união da direita terá que ser em torno de um nome do partido. "Me esforçarei para unir a oposição no Ceará e fazer uma grande aliança, mas o cenário político atual impõe, como condição essencial, que o candidato ao Governo seja do nosso Partido", disse. 

O movimento de Fernandes, que pegou dirigentes de outros partidos oposicionistas de surpresa, converge com o que foi dito por Albuquerque de que, esse momento, é de "revisar as estratégias", a partir de como os desdobramentos desse episódio podem "refletir no cenário político, nas eleições, nas configurações do ano que vem". 

Ex-presidentes com tornozeleira eletrônica

Bolsonaro não é o primeiro ex-presidente brasileiro a usar tornozeleira eletrônica. Também em 2025, o ex-presidente Fernando Collor de Mello (sem partido) passou a cumprir prisão domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica. Ele foi preso em maio em um desdobramento da Operação Lava-Jato, e foi condenado a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, autorizou o pedido da defesa do ex-presidente para que ele pudesse cumprir a pena em casa para resguardar a saúde de Collor, atualmente com 75 anos.

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Contudo, houve a exigência do uso da tornozeleira eletrônica. Ele também não poderia receber visitas, exceto dos advogados, médicos e familiares, bem como demais pessoas autorizadas pelo STF.

Quem também comentou sobre o uso de tornozeleira eletrônica foi o presidente Lula (PT). Ele disse que recusou utilizar o equipamento quando foi preso porque não é "pombo-correio". A sugestão tinha partido, na época, do Ministério Público Federal para houvesse a progressão do regime fechado para o semi-aberto.

"Primeiro, disse para eles que a minha casa não é uma prisão. A minha casa é meu lugar de liberdade. Segundo que a minha canela não é de pombo e não sou pombo-correio para colocar tornozeleira", disse Lula, em 2019, durante uma passagem por Recife.

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