O que faz do Genibaú o bairro 'mais pobre' de Fortaleza?
A área possui o desempenho mais baixo na comparação com outras localidades
O Genibaú é recortado por favelas e comunidades urbanas, cujos serviços à população, de modo geral, são pouco eficientes, o que gera impacto direto na economia. Essa combinação de infraestrutura precária e moradias em áreas de risco representa a forma de habitação acessível à população do bairro, cuja renda média em 2022 era de R$ 1.272,25.
Considerando essa renda, pode-se afirmar que o Genibaú é o bairro com a população de menor poder aquisitivo de Fortaleza.
Os dados fazem parte de um estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), com base no rendimento médio dos responsáveis pela residência contido no último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022.
Ao todo, o Genibaú tinha, em 2022, 12,2 mil 'chefes de família', isto é, pessoas responsáveis pelo sustento das moradias. Segundo o estudo, 35,4 mil pessoas moravam no bairro há três anos.
No comparativo com o salário mínimo atual (R$ 1.518), a renda média de um chefe de família do bairro representa apenas 83,8% da remuneração. À época das informações obtidas para o estudo, o salário mínimo era de R$ 1.212, ou seja, R$ 60 a menos do que o rendimento médio mensal do Genibaú (1.272,25).
Na lista dos 20 bairros com as menores rendas médias dos chefes de família de Fortaleza, há o predomínio de locais situados na periferia — social e geograficamente falando — da cidade, como destaca o Ipece. Muitos desses bairros estão nos limites do perímetro da Capital, seja na divisa com outros municípios ou à beira-mar.
"Os bairros estão localizados, majoritariamente, nas periferias historicamente associadas à expansão urbana desordenada e ao adensamento populacional em áreas com acesso limitado a serviços públicos", frisa o Ipece.
Empregos de baixa remuneração afetam moradores do bairro
Victor Hugo Oliveira, pesquisador do Ipece, define que o local também abriga empregos que não necessariamente entregam boas remunerações ao trabalhador, o que acaba prejudicando o indicador de renda nominal mensal média.
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"Se o indivíduo trabalha na região à qual o Genibaú pertence, estará envolvido em uma atividade econômica que também gera baixos rendimentos, geralmente compatíveis com seu nível educacional. Diferentemente de outros bairros de Fortaleza, com renda média mais elevada, onde as pessoas têm maior nível de escolaridade e, consequentemente, são melhor remuneradas. Essas diferenças salariais, muitas vezes, são explicadas por desigualdades no capital humano", avalia.
O economista e professor João Mário de França, da Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), elenca vários fatores que explicam a baixa renda média mensal dos chefes de família.
"Começando pelo baixo nível de escolaridade, em média, mas tem também a falta dinamismo econômico do bairro, gerando poucas oportunidades de empreender algum negócio local, discriminação racial e dificuldade de acesso à saúde de qualidade e um transporte público eficiente desse chefe de família que, junto com a baixa qualificação, implica em baixa produtividade, gerando salários reduzidos", enumera o especialista.
Crescimento de área precária também é um problema no Genibaú
O Genibaú abriga uma série de equipamentos, como a estação Conjunto São Miguel da Linha Oeste do Metrô de Fortaleza (Metrofor), na divisa com a Caucaia, bem como a areninha do bairro, na rua José Mendonça. O que marca o bairro, no entanto, são indicadores nada positivos.
Conforme os especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste e a análise do Ipece, predominam moradias em áreas de risco e pouco acesso a serviços públicos. Isso inclui ocupações ao longo do rio Maranguapinho.
Para o professor João Mário de França, é preciso ter dois focos que auxiliem na redução das desigualdades socioeconômicas dessas regiões, com melhor acesso a serviços públicos e mais infraestrutura dos locais.
"Primeiro, é preciso pensar nas pessoas que residem nesses bairros, priorizando as famílias, principalmente as mais vulneráveis e com crianças na primeira infância", analisa.
"Ainda nesse olhar para as pessoas, oferecer cursos de treinamento e requalificação para o mercado de trabalho para esses chefes de famílias. Outro foco está na melhoria da infraestrutura do bairro com investimentos em serviços básicos", complementa.
Desigualdade social em Fortaleza evidencia forte contraste em áreas periféricas
O estudo do Ipece mostra ainda como é a distribuição geográfica da população entre os bairros de renda média dos chefes de família, com claro 'inchaço' populacional nas áreas periféricas.
Conforme o instituto, uma em cada três pessoas, em 2022, vivia em locais com renda média nominal mensal de até R$ 1.739,54, o que engloba todos os bairros com os indicadores mais baixos. Isso corresponde a 801,3 mil pessoas.
"Por outro lado, apenas 18,48% dos moradores vivem nos bairros com maiores valores de renda média. Essa assimetria sinaliza que a maior parcela da população está concentrada nas áreas de menor renda, o que reforça os efeitos da desigualdade intraurbana. Essa configuração pode contribuir para a formação de padrões socioespaciais segregados, marcados por vulnerabilidade, desigualdade de oportunidades e da distribuição de infraestrutura e serviços públicos", complementa o Ipece.
Somente nos quatro bairros com a maior renda média dos chefes de família (Guararapes, Cocó, De Lourdes e Meireles), a remuneração foi mais de dez vezes superior ao salário mínimo de 2022, situação que "evidencia a coexistência de realidades muito distintas dentro de uma mesma cidade", como salienta o Ipece.
"Muitas vezes, as ofertas salariais não estão lá no bairro Genibaú, mas, se há dinamização da economia local, a tendência é que essas pessoas consigam desenvolver seu trabalho mais próximo de suas residências. Só olhar para essa questão não é o suficiente, tem que também começar a criar condições para isso, principalmente olhando para a infraestrutura do bairro", explana Victor Hugo Oliveira.