Aprenda a superar o perfil de líder silencioso e passe a se comunicar com autoridade
Há um preço silencioso que raramente é nomeado nas organizações: líderes que começam a evitar determinadas conversas ou, mais especificamente, determinados liderados.
Não se trata de falta de conhecimento ou competência técnica, mas de pequenas concessões toleradas que criam permissividade e minam a capacidade do líder de atuar. Vamos refletir?
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O desconforto de Penélope
Penélope é uma Gerente de Produção com sólida experiência técnica. Ao longo de sua trajetória, construiu uma reputação de competência e foi reconhecida na empresa por avanços relevantes em sua área. Atualmente, lidera três coordenadores de produção, mas a relação com um deles tem impactado negativamente sua rotina e sua produtividade.
Carlos, um de seus liderados, adota uma postura constantemente questionadora e, por vezes, pouco respeitosa. Ao receber demandas, costuma colocar em dúvida as decisões da liderança e já afirmou, em diferentes ocasiões, que considera Penélope uma gestora controladora.
Recentemente, a Diretoria decidiu transferir Carlos para outra fábrica, e Penélope ficou responsável por conduzir a conversa. Sentindo-se totalmente insegura para abordar o tema, buscou apoio da Gestora de Recursos Humanos.
Durante a conversa, expôs seu desconforto e deixou claro que não sabe como conduzir a situação. Revelou que, ao longo do tempo, sempre buscou “agradar” Carlos, cedendo frequentemente às suas preferências sobre a forma de conduzir o trabalho. Ao ser rotulada como controladora, optou por não aprofundar a questão, justificando que “o jeito dele é mesmo assim”.
Ficou evidente em seu relato que pequenos desvios de conduta foram sendo tolerados ao longo do tempo, impulsionados pela necessidade de preservar a relação e ser aceita por ele. O que começou como ajustes pontuais transformou-se, gradualmente, em um padrão relacional que hoje gera desgaste na gestão.
Como pequenas permissões anulam a liderança
O caso de Penélope ilustra um fenômeno comum nas organizações: líderes podem ver sua autoridade corroída de forma quase imperceptível. A linha tênue entre o que é negociável e o que não é acaba sendo rompida, enfraquecendo sua atuação.
Na maioria dos casos, não se trata de um evento isolado, mas de processos graduais, construídos a partir de pequenas concessões e comportamentos tolerados que minam o respeito e a clareza da relação:
- Ignorar comentários desrespeitosos para “não gerar clima”;
- Relevar atrasos ou entregas fora do padrão sem feedback claro;
- Evitar conversas difíceis, esperando que o comportamento se ajuste sozinho;
- Ceder para manter aprovação de liderados influentes;
- Tolerar posturas defensivas ou irônicas sob a justificativa de “é o estilo da pessoa”;
- Infantilizar a relação com o liderado, buscando constantemente validação e demonstrando preocupação exagerada com a percepção dele.
Penélope deixou de ser a líder na relação e passou a ser alguém que está refém das vontades de um único liderado, e isso acabou com a sua autoridade. Não se trata de hierarquia rígida ou formalismo excessivo. Respeito, no contexto da liderança, é a base que sustenta a confiança, a clareza de papéis e a qualidade das decisões.
Quando essa base se enfraquece, o custo aparece, primeiro nas entrelinhas, depois de forma explícita. O líder passa a medir cada palavra, adiar conversas necessárias e evitar confrontos, enviando uma mensagem silenciosa: este espaço pode ser ocupado. E ele será!
Como recalibrar a relação?
Recuperar o equilíbrio exige mais do que uma conversa pontual, exige coragem para nomear comportamentos tolerados, consistência para sustentar novos padrões e maturidade para lidar com resistências.
Algumas perguntas-chave ajudam a identificar os fatores que levaram a relação a esse ponto:
- O que já tolerei que contribuiu para este desconforto?
- Por que tolerei? Por insegurança ou por necessidade de ser aceito?
- O que preciso hoje dessa relação e quais dados fundamentam essa necessidade?
Com essa análise em mão, o próximo passo é…
- Estabelecer limites e responsabilidades de forma transparente, evitando ambiguidades que geram desconforto. Nem tudo é negociável, e isso também precisa estar claro;
- Dar feedback estruturado e frequente focando em comportamentos e resultados, não em personalidades;
- Criar rituais de alinhamento para ajustar a relação continuamente;
- Reconhecer progressos, cumprir compromissos e ser coerente entre palavras e ações;
- Acompanhar a evolução e ajustar o estilo de liderança conforme necessário.
Reposicionar-se como líder não acontece em um único momento; é um processo contínuo de autoconhecimento, consistência e gestão consciente das relações.
Quem consegue ajustar suas interações com a equipe fortalece sua autoridade, consolida a cultura organizacional e eleva a performance coletiva. Há uma diferença clara entre ser um líder justo, humano e inspirador, e ser alguém que busca apenas aceitação.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!