Recomeços não são sobre motivação, são sobre decisão e movimento

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Mudanças relevantes raramente começaram em condições perfeitas. É preciso movimento.
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Existe uma frase quase automática que se repete todos os anos: “Agora o ano começa de verdade”. Ela costuma surgir depois do Carnaval, como se o calendário pudesse, por convenção cultural, adiar aquilo que sabemos que precisa ser enfrentado. Nossas escolhas, nossos resultados!

A Quarta-Feira de Cinzas carrega um simbolismo silencioso e poderoso. Depois do excesso, do ruído e da dispersão, chega o convite à reflexão. Não como um ritual religioso apenas, mas como um movimento interno de consciência: o que precisa ser revisto? O que já não faz sentido continuar carregando? O que estou adiando sob o argumento de “não ser o momento”?

No Carnaval tudo é festa, possível e motivo para extrapolar. Mas a verdade é simples e desconfortável: recomeços não acontecem quando a energia volta, quando a agenda acalma ou quando a motivação aparece. Recomeços acontecem quando uma decisão é tomada entendendo que sempre colheremos o que semeamos. Deletar o que plantamos, infelizmente não é possível, mas fazer uma pausa para entender o que podemos fazer com tudo isso, sim.

Na liderança e na vida profissional, é comum esperar o cenário ideal para mudar. Espera-se mais clareza, mais segurança, mais tempo, mais alinhamento externo. No entanto, quem observa trajetórias consistentes percebe um padrão: as mudanças relevantes raramente começaram em condições perfeitas. Elas começaram com decisões imperfeitas, porém conscientes. Adiar também é uma decisão e, muitas vezes, custa mais caro.

Iniciar a academia, realinhar as finanças, cuidar da saúde, repensar a carreira são ações que podem ser colocadas em prática a qualquer momento, e não necessariamente na “segunda-feira”. Decidir recomeçar não é sentir-se pronto. É assumir responsabilidade.

Muitos profissionais entram no ano com listas de intenções: desenvolver melhor a equipe, reorganizar processos, enfrentar conversas difíceis, reposicionar a carreira, cuidar da sucessão, priorizar o que realmente importa. Com o passar das semanas, a urgência ocupa o espaço e as intenções vão sendo empurradas para um futuro indefinido. Para outros, o medo de fracassar paralisa, deixando os sonhos só no imaginário e como pauta das conversas no churrasco de domingo.

Saber recuar é sinal de sabedoria

A humildade é um dos maiores ativos de quem precisa recomeçar. Há momentos em que a decisão mais estratégica não é insistir, mas parar, observar e recuar, não como desistência, e sim como movimento consciente para reorganizar ideias, rever rotas e planejar o próximo passo com clareza. É nesse espaço de pausa que se constrói a maturidade para avançar com mais consistência.

Com frequência, ouço profissionais vivendo exatamente esse dilema: seguir insistindo ou ter a coragem de recalibrar o caminho. Entre as situações mais recorrentes estão:

  1. Aceitar, temporariamente, um cargo diferente ou com menor escopo em relação à última experiência, como parte de um reposicionamento estratégico.
  2. Readequar o padrão de vida para viabilizar investimentos na própria carreira e ampliar possibilidades futuras.
  3. Exercitar a prudência para estruturar alternativas, construir um plano B consistente e evitar decisões precipitadas.
  4. Desenvolver estratégias para lidar com ambientes de trabalho desafiadores, preservando desempenho e equilíbrio emocional.
  5. Aprender a dizer “não” a contextos e relações que não contribuem para os objetivos de vida e de carreira.

Recuar, quando feito com consciência, não diminui trajetórias, fortalece decisões e prepara o terreno para avanços mais sustentáveis. Motivação é volátil. Oscila com resultados, humor, contexto e reconhecimento. Decisão, por outro lado, cria direção mesmo quando a motivação falha. É ela que sustenta a disciplina, orienta escolhas e estabelece limites.

Recomeçar pode significar algo simples e, ao mesmo tempo, profundo: dizer não ao que não contribui mais, redefinir prioridades, ajustar rotas, interromper padrões que drenam energia ou assumir protagonismo onde antes havia acomodação. Pode significar também olhar para si com honestidade e reconhecer incoerências, recalibrar expectativas e assumir compromissos que não dependem de aplauso externo.

Em ambientes organizacionais, líderes que compreendem isso deixam de esperar “o clima certo” e passam a construir contextos mais coerentes. Eles entendem que cultura não se transforma por discursos inspiradores, mas por decisões cotidianas, sobre onde colocar tempo, atenção e coragem.

A Quarta-Feira de Cinzas nos lembra da impermanência. Do que passa e do que se transforma. E, sobretudo, do que pode ser reconstruído com mais presença. Quando a euforia passar, é hora de dar lugar à racionalidade com responsabilidade, assumir o que nos compete fazer e esquecer o que o outro deveria fazer.

Talvez a pergunta mais relevante não seja quando o ano começa, mas quando você decide começar de verdade. Porque, no fim, não é o calendário que inaugura novos ciclos. São as escolhas que você sustenta a partir de agora.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.