O que faz do bairro Guararapes o 'mais rico' de Fortaleza?

A localidade tem cerca de 2.600 chefes de família

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
(Atualizado às 17:45)
Imagem de rua do bairro Guararapes, em Fortaleza
Legenda: O bairro Guararapes tem uma das maiores concentrações de renda de Fortaleza, segundo levantamento do Ipece
Foto: Fabiane de Paula

Região com concentração de empreendimentos residenciais, arborizada, com fácil acesso a grandes shoppings, restaurantes, instituições de ensino e equipamentos de saúde. Essa infraestrutura do bairro Guararapes, em Fortaleza, diz muito sobre o padrão de renda de seus moradores. 

Foi toda essa gama de serviços e estrutura que atraiu moradores, principalmente chefes de domicílio, com renda mensal de R$ 14.775, o maior valor entre todos os bairros da Capital, podendo-se afirmar que se trata do bairro mais 'rico' da cidade.

Os dados constam em estudo do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). De acordo com o levantamento, o rendimento médio dos responsáveis pelas residências foi medido com base em dados do Censo Demográfico.

O Guararapes tem cerca de 2.600 'chefes do lar', em um universo de 7.640 moradores. A renda mensal da região superou a de bairros conhecidos pelo alto padrão social, como Meireles, Aldeota e Mucuripe. O rendimento é 11 vezes maior do que o bairro com menor concentração de renda, o Genibaú

A concentração de poder aquisitivo em determinadas regiões de Fortaleza envolve fatores históricos, explica Vitor Hugo Miro, professor do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP), da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“Embora não seja uma regra, bairros mais centrais e mais antigos experimentaram um tipo de ocupação mais ordenada, muitos surgiram quando a cidade apresentava um desenvolvimento mais lento, com planejamento urbano e infraestrutura. Já bairros periféricos frequentemente surgem em momento de crescimento demográfico mais rápido e desordenado, a partir de ocupações informais”, aponta. 

VALORIZAÇÃO IMOBILIÁRIA

Com o tempo, o mercado imobiliário também passou a segmentar a cidade, a partir da valorização dos imóveis e valores de aluguel, que funcionam como “um filtro de renda, segregando também as populações conforme sua capacidade de pagamento”, segundo o especialista.

Estas áreas mais centrais, dado o perfil de renda dos seus habitantes, contam com maior infraestrutura, oferta de serviços como os de saúde, educação, lazer e cultura. Também contam com melhores oportunidades de trabalho e renda.
Victor Hugo Miro
Economista

Uma das vias do bairro Guararapes está entre as dez mais caras de Fortaleza para comprar um imóvel. É a avenida Miguel Dias, com preço médio de R$ 13.358 por me², segundo levantamento do Data Zap.

O preço médio para Fortaleza é de R$ 8.582 por m². 

DADOS INDICAM FORTE DESIGUALDADE SOCIAL EM FORTALEZA

O levantamento do Ipece aponta também a baixa renda mensal dos moradores de Fortaleza. Com população de 2,4 milhões de habitantes, a Capital ocupa a 21ª posição no ranking nacional e a 7ª entre as nove capitais do Nordeste. 

Veja também

A renda média dos responsáveis pelas residências em Fortaleza é R$ 3.084. Na região, fica acima apenas do rendimento médio de São Luís, que é de R$ 2.912.

Considerando a alta renda dos bairros 'centrais', se destaca o cenário de desigualdade na Capital. O problema social é mais intenso entre as capitais nordestinas, devido ao alto nível de informalidade e à baixa renda, aponta o economista Jair de Araújo. 

“Se você tem um grande número de pessoas que trabalham no mercado informal, muito provavelmente tem um nível de renda menor, menor que a renda média da população geral do bairro”, afirma.

O economista ressalta que, em bairros periféricos de Fortaleza, boa parte da população vive em situação de vulnerabilidade, sem condições dignas de alimentação e educação.

“As pessoas não têm acesso à educação, consequentemente, no futuro, não conseguem emprego de boa qualidade e ficam nesse ciclo de pobreza e vulnerabilidade. Há uma dependência forte de políticas de assistência e é preciso que o governo atue nessas áreas”, aponta. 

Nos locais onde há registros de privação de renda, o mercado não oferta serviços essenciais de forma espontânea, complementa Vitor Hugo Miro.

“Estas famílias apresentam privações importantes no acesso ao saneamento, educação, saúde e segurança. O acesso dessas famílias a esses serviços é condicionado pela capacidade de oferta dos entes públicos, principalmente as prefeituras municipais e o estado”, analisa. 

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados