A guerra, o algodão, o poliéster, o biodiesel e o lobby do petróleo
Há duas décadas, a produção das fibras naturais aumenta, mas são as sintéticas, subproduto de origem fóssil, que crescem e lideram as vendas
Está o mundo todo perplexo com a dimensão que ganhou o que seria um conflito de, no máximo, uma semana e agora é uma guerra declarada e crescente dos Estados Unidos (EUA) e seu aliado Israel contra o Irã. Na verdade, foram os israelenses, liderados pelo seu primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que convenceram o governo norte-americano, comandado pelo mercurial presidente Donald Trump, a atacar os iranianos com o objetivo de forçar sua população a revoltar-se contra o regime teocrático dos aiotalás, derrubando-o.
Nada disso aconteceu, até agora.
Trump e seu serviço de inteligência erraram o cálculo e a correta oportunidade de iniciar a guerra, e tanto é verdade que, pelo que se vê e se ouve agora nas redes de tevê, se solidificam o governo de Teerã e sua Guarda Revolucionária, que mostra forte poder de fogo, atacando bases militares dos EUA em cidades da Arábia Saudita, de Omam, do Qatar e dos Emirados Árabes (lembram-se da belíssima e luxuosa Dubai?, ela está ficando feia por causa dos intensos bombardeios que atingem seu belos edifícios, a ponto de colocar em fuga muitos milionários que tinha lá sua segunda e cara residência).
Fruto natural e imediato dessa guerra, disparou o preço do petróleo no mercado internacional, ultrapassando os US$ 100 por barril, após chegar aos US$ 119 no início desta semana (ontem, no meio do dia, esse preço havia recuado para US$ 101). Nos principais países, incluindo os EUA, os da Europa e os da Ásia, o preço dos combustíveis (gasolina, óleo diesel e gás natural) saltou, fazendo acender a luz de alerta da inflação, o que obrigou Trump a fazer o inimaginável: desembargou a compra do petróleo russo com o único objetivo de impedir que prossiga a escalada dos preços desse óleo de origem fóssil.
O Brasil é um dos importadores do óleo da Rússia.
Por causa da guerra e de seus efeitos na economia mundial, máxime na área petrolífera, volta-se a falar, aqui e em todo o planeta, na necessidade de aumentar a produção de biodiesel, destacadamente do etanol. No Brasil, a gasolina comum e aditivada já contém 30% de etanol anidro (álcool etílico com pureza de 99%), mas a proposta de hoje é elevar esse percentual para 35%. Este tema sempre volta ao debate em momentos de clara emergência, como o atual. Daqui a pouco, mais cedo ou mais tarde, tudo voltará à normalidade tão logo seja superada a convulsão que se registra na área que produz 20% de todo o petróleo do mundo.
O lobby do petróleo é superpoderoso, tão poderoso que suplanta um dos seus antagonistas: o lobby das fibras de puro algodão. Há duas décadas, a cotonicultura mundial – a brasileira no meio – não para de crescer, mas, em contrapartida, cresce mais a produção dos fios sintéticos, de origem fóssil, um subproduto do petróleo, que polui e ajuda a aquecer o planeta. Resultado: roupas feitas de poliéster invadiram o varejo mundial e, vendidas a preços bem mais baratos do que as de algodão, lideram as vendas.
Os produtores brasileiros de algodão tentam, com a ajuda de outros países afins, produzir uma campanha publicitária mundial pelo aumento do consumo de fios naturais. A ideia, contudo, não saiu ainda do papel. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), presidida por Fernando Pimentel, preocupa-se com esse cenário, ao qual se acresce o fato de que aumentam as importações de roupas de países asiáticos (leia-se, da China), a maioria das quais confeccionada com fios sintéticos, o que agrava o quadro. Na China, o custo de produzir é quase insignificante diante dos custos brasileiros, nos quais se embute a magnânima legislação trabalhista, e esta é uma das razões dos baixos preços dos importados chineses.
Se valesse na China a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) vigente no Brasil desde a ditadura de Getúlio Vargas, a economia chinesa não estaria onde está hoje, sendo a segunda maior e mais importante do mundo. Se na China existissem o Ibama e sua rígida política de licenciamento ambiental, os chineses não teriam construído sua gigantesca e maravilhosa malha ferroviária com 50 mil quilômetros de trilhos, pelos quais circulam trens de alta velocidade, e seu espetacular sistema de transporte rodoviário com incríveis viadutos e pontes que chegam a desafiar a física.
Voltemos ao ponto central desta coluna: quando acabar a guerra no Oriente Médio, o preço do petróleo voltará aos US$ 70 dólares de antes dela. Mesmo assim, o lobby do petróleo seguirá dando as cartas no mercado global de energia. E o Brasil e seu governo são, também, grandes interessados no prosseguimento desse status quo.
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