​O que fez o Nordeste faturar R$ 350 milhões por shopping e se tornar o 2º maior polo do Brasil?

Os dados são do Censo Brasileiro de Shopping Centers.

Escrito por
Gabriela Custódio gabriela.custodio@svm.com.br
Consumidores passeando em shopping.
Legenda: Ao todo, existem shopping centers em operação em 253 cidades brasileiras.
Foto: Fabiane de Paula.

Segundo maior polo de faturamento de shopping centers no Brasil, o Nordeste foi responsável por uma receita que ultrapassa R$ 38,5 bilhões em 2025. Atrás apenas do Sudeste (57%), a região concentrou 19% dos ganhos do setor, além de liderar o ranking quando se fala no faturamento médio por empreendimento, registrando R$ 350,4 milhões por unidade no ano passado.

Os dados do Censo Brasileiro de Shopping Centers 2025/2026, elaborado pela Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), apontam a consolidação da região nesse mercado. Entre os destaques está a quantidade de frequentadores desses espaços.

A região registrou, no ano passado, o segundo maior fluxo de visitantes mensais (94,5 milhões), também atrás apenas do Sudeste (263,4 milhões).

Quanto ao porte dos empreendimentos, o Censo mostra diversificação da região, que lidera nos shoppings “médios” com mais de 1 milhão de visitas mensais. Nos shoppings “pequenos”, o número chega a 442,6 mil visitas (atrás apenas do Sudeste), enquanto nos “mega” ocupa o segundo lugar com 2,7 milhões, superado apenas pelo Centro-Oeste. 

Jeito nordestino de consumir

Esses resultados mostram a relevância da região em meio a uma tendência global de redução do fluxo presencial causada pela vida digital e pelo e-commerce, segundo Ulysses Reis, professor da Strong Business School (SBS) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). De acordo com ele, há traços culturais e comportamentais do consumidor nordestino que impactam esse cenário.

Reis descreve o consumidor do Nordeste como comunicativo e participativo, que valoriza a interação, frequenta esses espaços em grupos de família e busca diversidade de produtos e serviços nos empreendimentos. O professor também cita o maior gosto por “andar na rua”, facilitando o fluxo em galerias comerciais, strip-centers (centros comerciais abertos) e os próprios shoppings.

“O consumidor do Sul e do Sudeste, normalmente, é muito fechado, e, quanto mais a geração Z está crescendo, mais esse perfil está se fortalecendo, de serem pessoas muito ‘no mundo delas’, muito ligadas a smartphones, a redes sociais. O nordestino também tem isso, mas interage mais, e shoppings mais tradicionais e menores possibilitam muito mais isso”, avalia.

No nordeste, 43,4% dos shoppings tradicionais em atividade são de porte pequeno — enquanto essa proporção, considerando todo o Brasil, é de 38,7%. Essa presença de estabelecimentos menores e tradicionais na região também cria uma relação de “vizinhança” entre os consumidores e esses empreendimentos.

“As pessoas que vivem próximo a esses locais — ou razoavelmente próximo, a 2 km, 5 km de distância —, acabam tendo parte da sua vida de consumo e de lazer nesses shoppings”, explica Reis.

Expansão e interiorização

Entre os dados do Censo Brasileiro de Shopping Centers 2025/2026 que demonstram a relevância do Nordeste no segmento, Gabriella Oliveira, diretora de Planejamento Estratégico e Operações da Abrasce, destaca a participação da região no cronograma de expansão do setor.

Das 11 inaugurações previstas para o ano de 2026 em todo o País, três unidades estão confirmadas para estados como Sergipe e Bahia.

Ao todo, existem shopping centers em operação em 253 cidades brasileiras. Destas, 21% (53) estão localizadas no Nordeste. A Bahia lidera em número de unidades (24), seguida por Ceará (22) e Pernambuco (21).

A expansão para além das nove capitais, segundo Oliveira, foi um fator “fundamental” para a consolidação do setor na região, refletindo a descentralização da economia e o fortalecimento de polos regionais de consumo.

Esse avanço geográfico permitiu que o setor alcançasse novos públicos e reduzisse a dependência exclusiva das grandes metrópoles, garantindo uma base de crescimento mais capilarizada e menos suscetível a oscilações econômicas localizadas.
Gabriella Oliveira
Diretora de Planejamento Estratégico e Operações da Abrasce

A concentração estratégica de grandes centros de compra em capitais, mas também em polos regionais da região, é um dos fatores aos quais a diretora atribui a liderança do Nordeste em faturamento médio por unidade.

“Os empreendimentos existentes centralizam o fluxo de consumidores de diversas cidades vizinhas, o que tende a elevar o ticket médio e o volume de vendas por metro quadrado”, afirma Oliveira.

Além disso, ela aponta a consolidação dos shoppings como centros de convivência e conveniência, com recordes históricos de tempo de permanência do consumidor, permitindo que cada unidade capture uma fatia maior do consumo regional.

Ulysses Reis também ressalta o papel dessa distribuição geográfica das unidades e destaca a importância da interiorização para o setor, uma vez que as cidades do interior na região são “extremamente especializadas”.

“Uma cidade não é igual à outra: algumas são hubs logísticos, outras são excelentes locais de desenvolvimento de tecnologia, outras são regiões onde temos boas opções de lazer. Acredito muito nessa interiorização e acho que ainda tem canto para se interiorizar mais no nordeste”, afirma.

Grupo de três mulheres olham vitrine.
Legenda: Das 253 cidades brasileiras com shopping centers em operação, 21% (53) estão localizadas no Nordeste.
Foto: Divulgação/RioMar Fortaleza.

Continuidade do crescimento

O crescimento do setor de shoppings no Nordeste é percebida pela diretora da Abrasce como sustentável no longo prazo. Isso porque ela está fundamentado na transformação desses empreendimentos em “hubs” de serviços que vão muito além do varejo tradicional.

“A sustentabilidade desse modelo é reforçada pelos investimentos contínuos em revitalizações e expansões de ABL (Área Bruta Locável), que demonstram a confiança dos empreendedores no potencial de consumo futuro da região”, afirma.

Apesar da incerteza sobre o setor em nível mundial, que aponta para um declínio do modelo tradicional desde 2012, Reis também acredita em um crescimento sustentável no médio e no longo prazo para os shoppings center no Nordeste.

O otimismo do professor é devido às inovações que ainda estão chegando ao mercado da região. “É um mercado que ainda não é envelhecido, em termos de maturidade. Muita coisa ainda que está sendo tentada ou que já está implantada, principalmente no Sudeste ou no Sul, é nova no mercado de shoppings do Nordeste, e esse novo cria possibilidades muito boas de crescimento”, afirma.

Com isso, ele se refere a áreas de alimentação mais especializadas, melhor estrutura de lazer infantil, novos serviços que estão chegando às unidades, como estética, academias, assistências técnicas, entre outros.

“Hoje é comum os homens irem cuidar da aparência nas barbearias e vários outros tipos de serviços ligados ao corpo, àquilo que as pessoas não têm como fazer pela internet”, exemplifica.

Por outro lado, Gabriella Oliveira avalia o mercado nordestino como em estágio avançado de maturidade, “caracterizado por um equilíbrio entre a oferta de shoppings tradicionais e o crescimento de novos formatos, como os ‘malls’ de vizinhança e centros especializados”.

Alerta para o futuro

Um aspecto de atenção que o Censo Brasileiro de Shopping Centers 2025/2026 traz para o setor em todo o País é a falta de investimento em estratégias digitais. Entre todas as unidades, menos da metade (41%) tem aplicativo próprio. Os índices são ainda menores para marketplaces (11%) e programas de fidelidade (32%). Para o professor, esses dados são preocupantes.

O mundo está ficando mais digital, as novas gerações são digitais. Então, o que acontece com isso? Perda de oportunidades de venda, de informações, de clientes, de atratividade, perda de uso dessas informações em sistemas avançados de análises que ajudam na tomada de decisões. Hoje nós temos que pensar que os espaços são físicos e digitais ao mesmo tempo.
Ulysses Reis
Professor da Strong Business School (SBS) e da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Com a perda de oportunidades, Reis destaca que os negócios podem perder espaço para galerias comerciais, supermercados, show rooms e outras empresas que passarem a adotar essas estratégias tecnológicas. Ele cita iniciativas que utilizam tecnologia de realidade aumentada para melhorar a experiência de compra.

“A Ikea, maior empresa do mundo na área de decoração, simplesmente domina o mercado e reduziu muito a quantidade de lojas ou espaços por conta dessa ferramenta. Ela vai invadir o mercado e vai ser um problema sério para as lojas que vendem móveis ou shoppings que trabalham com a questão moveleira e outros tantos negócios”, exemplifica Reis.

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Com isso, o docente avalia que, caso os shoppings do Nordeste “façam o dever de casa” — aderindo a marketplace, programa de fidelidade e aplicativo, por exemplo — vão ficar ainda mais fortes.

“E talvez as pessoas não saibam, mas um dos centros de maior desenvolvimento tecnológico do Brasil é Fortaleza, que tem um avanço muito forte em criação de novos negócios e startups”, complementa o professor, destacando o bom desempenho da capital cearense frente a outros locais de destaque na Tecnologia, como Florianópolis.

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