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Número de padarias sobe em Fortaleza e chega a quase mil unidades em 2025

Em 2025, 926 novas padarias foram abertas na Capital.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Setor apresentou crescimento nos últimos anos.
Legenda: Setor apresentou crescimento nos últimos anos.
Foto: Thiago Gadelha.

Após o anúncio do fechamento da padaria MonteCarlo, uma das mais tradicionais da Capital cearense, muitos empreendedores e frequentadores do estabelecimento ponderaram, nas redes sociais, sobre as dificuldades que estabelecimentos gastronômicos enfrentam para se manter em atividade.

No entanto, dados obtidos pela Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec) apontam que o caso da panificadora se mostra pontual em meio a um cenário positivo para o setor, que está em crescimento desde 2024.

Segundo a Jucec, em 2024, o número de constituições – ou seja, a abertura de novas padarias – foi de 746 novos estabelecimentos em Fortaleza. Em 2025, esse número subiu para 926 novos espaços.

Comparando os meses de janeiro a abril de 2025, foram 315 novas padarias abertas. No mesmo período de 2026, foram 367 na Capital.

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Para o levantamento, foram considerados estabelecimentos comerciais focados em três atividades comerciais: fabricação de produtos de padaria e confeitaria com predominância de produção própria; fabricação de produtos de panificação industrial e padaria e confeitaria com predominância de revenda.

O que explica o cenário positivo

Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria no Estado do Ceará (Sindpan CE), Alex Martins, o cenário positivo é resultado de um conjunto de ações adotadas pelo segmento, como campanhas promocionais e investimento em tecnologia.

Ele atribui o bom momento do setor especialmente à chegada das padarias aos aplicativos de delivery, pensada inicialmente como medida emergencial na pandemia e consolidada como estratégia de vendas e ampliação de público nos últimos anos.

“Hoje, nós temos grandes padarias com 30, 40 motoqueiros fazendo entregas de delivery”, destaca.

Para ele, o consumidor se adaptou à comodidade dos aplicativos de compras, o que fez com que diversos negócios precisassem se adaptar e evoluir nesse sentido mesmo após o fim da crise. “Essa mudança comportamental da população trabalhou positivamente para o crescimento das nossas lojas”, avalia.

Martins destaca que hoje há cerca de 90 padarias em Fortaleza no iFood, aplicativo de compras do segmento gastronômico. 

“Quem se adaptou depois da pandemia, principalmente com o delivery, hoje tem faturamentos de R$ 100 mil a R$ 300 mil, o que não ocorria anteriormente”, observa Martins.

Segundo ele, o que puxa o faturamento para cima é ampliação do público com o uso do delivery e aplicativos de compras, já que antes não era possível alcançar clientes fora do bairro. 

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Novo conceito atrai público maior 

Com as mudanças nas demandas do consumidor, os ambientes das padarias também se transformaram, tornando-se locais de convivência e com mix de produtos variados.

Na Capital cearense, é comum ver espaços que antes se dedicavam apenas a vender pães e bolos operando também como cafeterias e restaurantes.

“Hoje o cliente vai com a sua família e cada um come um tipo de produto. Antigamente não, a gente via só pão, biscoito, bolachas. Então, o modelo de padaria passou muito pela evolução dos clientes”, exemplifica Alex Martins.

Para competir com supermercados e se destacar no setor, padarias ampliam mix de produtos.
Legenda: Para competir com supermercados e se destacar no setor, padarias ampliam mix de produtos.
Foto: Thiago Gadelha.

Fechamentos são pontuais, diz Sindpan

Apesar dos bons resultados, Alex pondera que algumas padarias em Fortaleza ainda podem ser afetadas negativamente por fatores externos.

“Os fechamentos que a gente tem visto que estão ocorrendo agora são muito pontuais dessas [padarias] grandes, como a MonteCarlo, por exemplo. Ela fechou porque o terreno dela lá já tinha sido vendido, e ela tinha sido informada há dois anos”, explica Martins.

“Eu acredito que os donos já tenham encontrado um outro local, porém jamais vão encontrar um local igual ao que eles tinham ali”.

Martins explica que áreas consideradas nobres, como os bairros Meireles e Aldeota, onde muitas padarias estão concentradas, enfrentam um problema importante: apesar do grande fluxo de clientes, sofrem com o custo alto do aluguel, o que impossibilita ampliação e instalação de fábrica própria.

“Não tem condição de uma padaria ter produção na Aldeota, porque o valor do metro quadrado lá é muito alto, o valor do aluguel é muito alto e o pão, geralmente, é barato. Ele não tem capacidade financeira de arcar com os custos de uma produção num local com aluguel muito alto”, contextualiza.

Crescimento do setor em Fortaleza faz parte de movimento nacional

O cenário positivo do setor de panificadores na Capital cearense não é um fenômeno isolado. 

Pesquisas indicam avanço no segmento em todo o País.
Legenda: Pesquisas indicam avanço no segmento em todo o País.
Foto: Thiago Gadelha.

Para Cláudia Buhamra, professora de marketing da Universidade Federal do Ceará (UFC), ele acompanha um crescimento que ocorre em todo o País e ecoa uma tendência já solidificada em capitais do eixo Sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo.

“Antes você ter uma padaria no Centro era suficiente pra você atender toda a população. Hoje, com o crescimento da cidade, os bairros ganharam vida própria”, destaca a professora.

Segundo Buhamra, alguns aspectos contribuem para que o setor prospere na Capital: primeiro, a tradição e a natureza do negócio, fazendo com que as padarias façam parte da vida dos cearenses; segundo, o próprio crescimento de Fortaleza.

Para a professora, hoje as padarias ocupam um espaço de “extensão da própria casa” na rotina dos consumidores, e a transformação dos espaços em locais para diferentes refeições ao longo do dia fortaleceram esse laço.

“A padaria tem essa coisa do estar em casa, do convidativo, do amigável, do bom serviço, do bom atendimento e do preço justo. Agora, esse é um movimento que incorre em custos. Então, é preciso muita matemática para não deixar que essa agregação de valor, a partir de mais serviços, acabe elevando demais os custos da panificadora”, pondera.

Para o economista Alex Araújo, o movimento reflete mudanças culturais e demográficas, manifestando-se de formas diferentes em cidades diferentes.

“Temos uma população, principalmente nessas metrópoles, com hábitos muito modificados. São famílias menores, então não existe mais aquele hábito tradicional de preparar a alimentação em casa”, detalha.

Araújo destaca que o fechamento de algumas grandes padarias pode demonstrar que o setor não está apenas em expansão, mas também em momento de renovação. “Assim como aconteceu com o supermercado, hoje a padaria está se reconfigurando”, pontua. 

Como as padarias estão se reiventando 

Na esteira das mudanças impulsionadas pelo pós-pandemia, a padaria Costa Mendes, com unidades nos bairros Montese, Aldeota e Vila União, optou por realizar adequações para ampliar o público. 

Segundo a diretora de marketing da panificadora, Manoella Holanda, os principais investimentos foram no serviço de delivery e em um mix de produtos diverso, com serviços que vão além da padaria “tradicional”, como self-service no café da manhã e almoço, sushi, chá da tarde e rodízio de pizzas e massas.

Diversidade de produtos e ambiente aconchegante: Costa Mendes se transformou para ampliar atuação.
Legenda: Diversidade de produtos e ambiente aconchegante: Costa Mendes se transformou para ampliar atuação.
Foto: Thiago Gadelha.

“Investimos fortemente em ampliações de espaços nas lojas, aumentando áreas de convivência e número de mesas para consumo no local. Também realizamos melhorias estruturais, reformas, novas vitrines, modernização do layout, criação de ambientes mais instagramáveis e inserção de TVs”, lista Manoella.

Algumas padarias, como a Costa Mendes (foto), investiram até mesmo em sushi para atrair público.
Legenda: Algumas padarias, como a Costa Mendes (foto), investiram até mesmo em sushi para atrair público.
Foto: Thiago Gadelha.

Com as mudanças, o ticket médio da empresa cresceu cerca de 10% do final de 2024 para o final de 2025. Segundo Manoella, isso ocorreu porque o cliente passou a consumir mais categorias de produtos

“Hoje ele não compra apenas pão, mas aproveita para pedir cafés, refeições, doces, pizzas, massas e outros produtos, tanto no consumo presencial quanto pelo delivery. Esse comportamento fortalece ainda mais o relacionamento do cliente com a marca e amplia as oportunidades de consumo”, explica.

Mudanças no padrão de consumo também chegam às padarias menores

Padarias investiram em serviços de cafeteria e restaurante para se tornar locais de convivência.
Legenda: Padarias investiram em serviços de cafeteria e restaurante para se tornar locais de convivência.
Foto: Thiago Gadelha.

Os especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste apontam que, diferentemente de outros movimentos de expansão, o crescimento e a transformação do setor de padarias têm chegado não só às regiões nobres e mais centrais da Capital cearense, mas também aos bairros mais distantes, nas periferias. 

“Sem dúvida está chegando também naqueles estabelecimentos menores, que eram muito especializados. É uma diversificação que está acontecendo como um movimento”, afirma Alex Araújo.

Para Cláudia Buhamra, essa diversificação atinge todo o setor, ainda que de formas distintas, porque parte da ampliação da concorrência. “É natural esse movimento de renovação do mix de produtos”, destaca.

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