​Ceará tem três vezes mais cancelamentos do que aprovações de usinas solares em 2026; veja cidades

O aumento brusco ocorre após a Aneel permitir que os investidores desistam dos projetos sem penalidades.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Legenda: Ceará enfrenta paralisação de investimentos em usinas de energia renovável.
Foto: Reprodução/Governo Federal.

O cenário de desaceleração da expansão da matriz energética cearense se concretiza na suspensão ou perda de investimentos. De janeiro a março de 2026, o Ceará teve mais projetos de usinas renováveis revogados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) do que em todos os meses de 2025. 

Em três meses, foram revogadas 46 outorgas de geração de energia elétrica (autorização necessária para a instalação e operação das usinas). Todos os empreendimentos revogados são de geração solar fotovoltaica. 

No mesmo período, foram concedidas 15 outorgas para projetos solares, três vezes menos do que as revogações. 

Já ao longo de 2025, o Ceará teve 45 empreendimentos com a outorga revogada. O aumento brusco em 2026 ocorre após a Aneel permitir que os investidores desistam dos projetos sem penalidades.

"Muitos agentes aguardaram essa definição jurídica para tomar a decisão, o que acabou concentrando pedidos no início de 2026", informou a agência em nota. 

A Aneel destaca que, ao entrar com pedidos de revogação, os empreendedores alegam falta de capacidade de escoamento ou conexão ao sistema de transmissão

"Parte relevante desses empreendimentos foi autorizada em um período de forte expansão do setor, especialmente de fontes eólica e solar, quando havia expectativas mais favoráveis de custos, financiamento e conexão à rede. Com a mudança desse cenário, diversos projetos deixaram de fazer sentido econômico"
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel)

Quais cidades do Ceará tiveram projetos revogados

A maior parte das usinas que não deve sair do papel seria instalada no município de Jaguaretama. Muitos dos projetos revogados ainda não tinham iniciado as obras.

No caso das usinas Belo Horizonte, em Jaguaretama, e Arapuá, em Jaguaruana, já havia contrato para uso do sistema de transmissão, mas os projetos não avançaram. A terceira cidade é Icó. 

Ceará está entre os estados mais afetados do País

O movimento de retirada de projetos é consequência dos elevados prejuízos impostos às geradoras de energia, que precisam paralisar sua produção por determinação do Operador Nacional do Sistema (ONS), aponta Jurandir Picanço, presidente do Instituto Brasileiro para a Transição Energética - IBTE.

Os cortes de geração, também chamados de curtailment, levaram ao 'desperdício' de quase 20% da energia que poderia ser gerada pelas renováveis em 2025.

"O investidor que mantiver seu empreendimento vai precificá-lo, aumentando o preço da energia para compensar futuras perdas. O problema maior é que existem soluções para reduzir esses cortes de energia, mas as autoridades do setor elétrico não demonstram o senso de urgência para solucioná-los", comenta. 

Uma das soluções é o armazenamento de energia por meio de baterias, que ainda aguarda regulamentação para realização do leilão de energia de reserva e instalação dos equipamentos.

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A perda de investimentos bilionários traz um panorama ainda mais sensível para o Ceará, que tem vocação natural para energias renováveis e produziu uma cadeia produtiva relevante, aponta o Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia-CE).

"Já observamos o fechamento de postos de trabalho justamente nessa cadeia que foi criada com tanto empenho, o que é profundamente lamentável. Esse cenário se agrava diante das restrições severas de escoamento apontadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico", destaca Luis Carlos Queiroz, presidente do sindicato.

Para o gestor, a tendência é que novas revogações ocorram, considerando também outro fator limitante: a alta taxa de juros, que aumenta o custo do financiamento. Mas isso não indica, segundo Luis Carlos Queiroz, que as empresas não tenham interesse em investir no Ceará.

Brasil perde R$ 18 bi em projetos renováveis 

O Brasil perdeu R$ 18 bilhões em investimentos no setor ao longo de 2025. Os investidores desistiram de instalar (solicitaram a retirada da outorga) 141 usinas de energia renovável. 

O número abrange 106 empreendimentos solares e 35 eólicos, segundo levantamento da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).

Os projetos acrescentariam à matriz brasileira cerca de 5,4 gigawatts de energia. A retratação nos investimentos inviabilizou a criação de 147 mil empregos da cadeia verde. 

A conjuntura representa grave risco aos projetos existentes e pode levar à perda de credibilidade, fuga de capital, fechamento de empresas, queda de empregos e retrocesso na transição energética no País, destaca a Absolar.

"Também mina drasticamente a confiança dos investidores nacionais e internacionais no país e prejudica a atratividade do Brasil em energia limpa", projeta. 

A retomada de investimentos no setor não deve ocorrer até que a infraestrutura de transmissão seja fortalecida e o curtailment seja reduzido, reitera Francisco Silva, diretor regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeolica).

"É um risco extremamente alto, é um risco desmedido. O gerador não consegue calcular e é por isso que evita construir um novo projeto com base numa premissa que ele não consegue nem mesmo mensurar", aponta.

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