Por que o Ceará deve aumentar a produção de energia nas termoelétricas em 2026?

Promessa da transição energética, Ceará concentra investimentos em usinas não renováveis.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Legenda: Uma das novas usinas termelétricas do Ceará será instalada no Complexo Industrial do Pecém.
Foto: Divulgação/Governo do Ceará.

Pioneiro na energia eólica e um dos líderes da geração solar, o Ceará é uma das promessas para encabeçar a transição energética e atrair investimentos bilionários na cadeia da energia limpa. Ao mesmo tempo, têm crescido os aportes no setor termelétrico.

Oito usinas cearenses foram selecionadas no leilão de reserva de capacidade do Ministério de Minas e Energia e Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Entre as selecionadas, estão quatro novas usinas movidas a gás natural, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), em Aracati e na região Jaguaruana. O Ceará lidera os investimentos no segmento contratados.

Os projetos cearenses devem receber R$ 13 bilhões em aportes, cerca de 21% do total previsto no primeiro leilão de capacidade de 2026. O Estado teve a segunda maior potência contratada do Brasil.

O que explica esses investimentos 

A concentração de parte dos investimentos no Ceará ocorre porque o Estado reúne condições muito favoráveis à cadeia, destaca Jurandir Picanço, presidente do Instituto Brasileiro para a Transição Energética (IBT).

"Principalmente pela infraestrutura logística e industrial do Complexo do Pecém, que já funciona como um hub energético relevante no Nordeste. Com a contratação dessas usinas, o estado consolida sua posição como polo energético, amplia sua infraestrutura de gás e aumenta a atratividade", aponta. 

O Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE) aponta que o desenho atual dos leilões favoreceu o Ceará devido à posição estratégica no Sistema Interligado Nacional (SIN) e acesso ao gás natural. 

É possível que o Estado continue a receber investimentos nesse segmento, aponta Luiz Carlos Queiroz, presidente do sindicato. O executivo destaca, entretanto, que o diferencial competitivo do Estado está atrelado às energias renováveis.

Por que o sistema ainda precisa de termelétricas?

Mesmo com o compromisso internacional para transição energética e multiplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis, o Brasil contratou 102 usinas movidas a combustíveis fósseis nos leilões de capacidade de 2026. Os contratos somam R$ 516 bilhões para o período de suprimento. 

Esse tipo de certame visa garantir a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN), a partir da contratação de usinas aptas a operar em momentos críticos. Ou seja, os empreendimentos devem ser acionados em períodos de alta demanda.

As fontes termelétricas funcionam como um backup, já que são estáveis, diferentemente das fontes renováveis, destaca Jaque Paes, professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. 

Esses empreendimentos são acionados principalmente em período de seca, em que a geração das hidrelétricas (maior fonte do sistema brasileiro) é reduzida. 

"A matriz elétrica brasileira continua recorrendo a termelétricas porque ter uma matriz majoritariamente renovável não elimina a necessidade de potência controlável", explica.

O desenvolvimento das fontes limpas ampliou a variabilidade da geração energética, o que tornou a operação do sistema mais exigente. Ainda não é viável, portanto, substituir completamente o abastecimento das termelétricas.

"As alternativas que poderiam reduzir essa dependência, como armazenamento em larga escala e maior flexibilidade do sistema, ainda não estão consolidadas em escala suficiente. Retirar térmicas implicaria elevar risco ou custo", comenta.

Não há investimento suficiente em tecnologias de armazenamento que podem eliminar a instabilidade das usinas solares e eólicas, pondera Henrique Frota, diretor executivo do Instituto Pólis. 

"Nas próprias hidrelétricas, existe a possibilidade de soluções tecnológicas que substituem turbinas para gerar mais energia mesmo em circunstâncias de crise hídrica. As usinas são antigas e têm uma capacidade de geração já um pouco defasada", acrescenta. 

O especialista lembra que o setor também pressiona o Legislativo para que a contratação das usinas não renováveis seja obrigatória. Na lei de privatização da Eletrobras, por exemplo, foi aprovado um trecho que estabelece cota mínima de megawatts de termelétricas. 

"Ou seja, mesmo quando o operador nacional do sistema quer acionar uma fonte renovável, ele tem uma restrição legal, porque é obrigado a comprar um percentual de energia das termelétricas", comenta.

Impactos local e global 

As novas usinas devem viabilizar a ampliação de gasodutos e oferta de gás no Ceará, o que pode beneficiar outros setores da economia local, aponta Jurandir Picanço.

A Companhia de Gás do Ceará (Cegás) vai investir cerca de R$ 50 milhões até 2031 na construção de gasodutos para abastecer cinco termelétricas movidas a gás natural.

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"Os projetos trazem impactos econômicos relevantes: geração de empregos na construção e operação, dinamização da cadeia produtiva (metalmecânica, logística, serviços), atração de novos investimentos industriais", projeta o especialista.

É preciso considerar, entretanto, o impacto global da emissão de gases de efeito estufa, que está no centro das políticas climáticas. 

"O mundo busca reduzir as usinas termelétricas, em especial as de carvão, como as recontratadas no Pecém. Por isso, o papel dessas usinas deverá ser complementar e não estrutural, funcionando como suporte ao sistema — e não como base permanente de geração", aponta. 

A manutenção da geração térmica contribui para a crise climática, que leva à redução dos níveis de chuvas e consequente impacto à geração termelétrica, comenta Henrique Frota.

Há também um impacto imediato sentido pelas comunidades do entorno das usinas, como poluição do ar e hídrica. 

O que isso diz sobre a transição energética?

É preciso calibrar o investimento em termelétricas para que o eixo central da expansão energética do Ceará siga renovável, defende Luis Carlos Queiroz, presidente do Sindienergia.

O executivo afirma que o esquema de contratação rígido e de longo prazo trava o sistema brasileiro em fontes fósseis. 

"O Ceará tem uma grande oportunidade: se consolidar como um dos principais hubs de energia limpa do mundo. Mas isso depende de direcionar os investimentos para onde está o futuro, e esse futuro é renovável, flexível e de baixo carbono", destaca. 

Para Jaque Paes, concentrar investimentos em termelétricas pode gerar a percepção de contradição, mas não significa que o Ceará deixará de ser um polo de energia limpa.

A conciliação das duas fontes é possível, desde que seja definido um papel temporário e de suporte para as usinas não renováveis.

"Se atuarem como suporte ao sistema, o arranjo se sustenta. Se ganharem peso estrutural, o posicionamento de transição energética perde consistência", analisa o professor da FGV.

A evolução da transição energética depende cada vez mais, reitera o especialista, de investimento em soluções de armazenamento de energia e melhoria da infraestrutura da rede de transmissão.

O ponto aqui não é a existência dessas usinas, mas a ausência de uma estratégia clara de saída. Sem isso, o que deveria ser solução de suporte pode se tornar dependência estrutural.
Jaque Paes
professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV

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