Dá para trabalhar com quem você não confia?

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: A quebra de confiança no ambiente profissional pode ocorrer de muitas formas.
Foto: Shutterstock.

No mundo do trabalho, nem sempre escolhemos com quem dividimos responsabilidades, decisões ou informações sensíveis. Em algum momento da carreira, quase todo profissional já viveu a experiência desconfortável de perceber que alguém próximo, um colega, parceiro de projeto ou até um superior agiu de forma que abalou a confiança.

A pergunta que surge, então, é inevitável: dá para continuar trabalhando com quem você não confia? Depende! Se a cultura é permissiva e você não tem um plano B imediato ou autonomia para tomar decisões, é importante saber lidar com a situação, mesmo que provisoriamente.

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A quebra de confiança no ambiente profissional pode ocorrer de muitas formas. Quando ela se rompe, a relação pessoal se fragiliza e ficam comprometidos elementos essenciais da dinâmica profissional: delegação, troca de informações, alinhamento de expectativas e segurança nas decisões.

O grande desafio se instala quando o profissional é “obrigado” a continuar a convivência, apesar de tudo isso. Quando é alguém que tem a confiança do dono da empresa ou é um profissional que detém um conhecimento importante para a organização e não tem substituto imediato.

O que costuma quebrar a confiança no trabalho?

Uma promessa não cumprida, uma informação compartilhada indevidamente, a omissão de algo relevante em um momento decisivo. Também surgem rupturas em disputas de poder, jogos de bastidores ou decisões tomadas sem transparência.

Independentemente da forma, o impacto costuma ser profundo, porque a confiança é um dos pilares que sustentam a cooperação no ambiente profissional.

Entre outras situações que frequentemente fragilizam a confiança nas relações profissionais, podemos destacar:

1. Assumir o mérito por um trabalho construído coletivamente, minimizando ou apagando a contribuição de outros profissionais.

2. Expor um colega ou subordinado diante do líder ou em reuniões, evidenciando falhas ou fragilidades de forma direta ou indireta.

3. Não sustentar decisões previamente combinadas, deixando outros profissionais desprotegidos diante de questionamentos ou pressões.

4. Utilizar informações estratégicas em benefício próprio, em detrimento da equipe ou dos interesses da organização.

5. Criar ou estimular situações que fragilizem a posição de um colega, com o objetivo de ocupar o seu espaço.

Ouço diariamente relatos de líderes e profissionais que se sentem traídos quando situações como essas acontecem. A sensação de quebra de confiança se intensifica ainda mais quando a organização prefere “passar panos quentes” e evita tratar o problema com clareza.

Quando a empresa não sinaliza de forma inequívoca quais comportamentos são inegociáveis para o negócio, abre espaço para ambiguidades e a confiança, que já foi ferida, torna-se ainda mais difícil de ser reconstruída.

Como lidar quando isso acontece?

É comum que a primeira reação seja emocional, e isso impede que o profissional aja da maneira adequada. É comum encontrarmos líderes e profissionais que partem para o confronto direto, muitas vezes movidos pela frustração ou pela necessidade de esclarecer o ocorrido.

Outros escolhem o caminho oposto: evitam a pessoa, reduzem o contato ao mínimo possível e tentam seguir adiante como se aquela relação pudesse simplesmente ser apagada do mapa.

Esse impulso de isolamento é compreensível. Quando a confiança é ferida, o distanciamento parece uma forma de proteção. No entanto, no ambiente profissional, afastar completamente alguém do radar nem sempre é a decisão mais estratégica. Paradoxalmente, em certas situações, manter a pessoa dentro do campo de visão pode ser mais prudente do que isolá-la.

Quando excluímos alguém totalmente das interações, corremos o risco de perder informações relevantes, não perceber movimentos importantes ou permitir que determinadas narrativas se formem sem a nossa presença.

Trata-se menos de reconstruir a confiança e mais de reorganizar a forma de se relacionar. Nem sempre é possível restaurar a confiança original e, em alguns casos, nem é recomendável tentar fazê-lo rapidamente. Mas é possível manter o profissionalismo, preservar a própria integridade e seguir contribuindo para o trabalho.

Além disso, é importante se resguardar, documentando todas as interações e dando feedback contínuo ao seu líder. Se a situação violou os seus valores, a solução consiste em manter o equilíbrio emocional e planejar a rota de saída da melhor maneira possível, sem fechar a porta de qualquer maneira.

Como ensina o clássico pensamento atribuído a Sun Tzu, em A Arte da Guerra: “Se você conhece o inimigo, e também a si mesmo, não temerá o resultado de cem batalhas; se conhece a si mesmo, mas não o inimigo, para cada vitória terá sofrido também uma derrota. Se não conhece o inimigo nem a si mesmo, sucumbirá em todas as batalhas.”

No ambiente profissional, essa máxima continua atual. Nem sempre podemos escolher todas as pessoas com quem trabalhamos, mas podemos escolher como nos posicionamos diante delas. E muitas vezes, a estratégia mais sábia não é afastar completamente quem já quebrou nossa confiança, mas saber exatamente onde ele está e utilizar essa informação de forma estratégica.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

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