Crise do setor eólico ameaça os investimentos e projetos offshore no Ceará?
Ceará está em missão à China para atrair investidores do segmento
O Governo do Ceará está em missão à China para consolidar memorandos de intenção e atrair novos investidores para os projetos de energia eólica offshore (parques instalados em alto-mar).
Todavia, o movimento ocorre em meio à crise enfrentada pelo setor eólico, marcada recentemente pelas demissões nas empresas Vestas e Aeris. O cenário, portanto, levanta dúvidas sobre o futuro dos projetos offshore e sua viabilidade no atual contexto.
Especialistas afirmam que a iniciativa do governo é estratégica e necessária, embora ainda enfrente desafios como a falta de infraestrutura para escoar a energia e a necessidade de avanços concretos na implantação do hub de Hidrogênio Verde (H₂V).
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Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Ceará possui atualmente 26 projetos de eólicas offshore em processo de licenciamento ambiental, com potência total estimada em 66,37 gigawatts (GW).
Missão à China
Ao todo, foram feitas visitas a quatro empresas internacionais com sedes na China, realizadas pela secretária das Relações Internacionais do Ceará, Roseane Medeiros.
Uma delas é a Mingyang, que já estabeleceu uma conversa com o Ceará há bastante tempo, inclusive com a assinatura de memorando de entendimento com validade até este ano.
Na segunda-feira (13), Roseane participou da mesa-redonda sobre energia eólica offshore Brasil-China, na sede da Blue Aspiration, em Hangzhou.
O encontro reuniu representantes dos dois países para trocar experiências, promover cooperação tecnológica e discutir projetos conjuntos.
Na ocasião, o Ceará foi destacado pelo seu potencial para energia eólica offshore, graças aos ventos constantes e à costa favorável.
A Blue Aspiration demonstrou interesse em realizar medições de vento para futuros parques no estado, segundo a secretária.
Negociações
A secretária Roseane destacou a relação feita com representantes da empresa certificadora norueguesa DNV, que possui escritório na China.
Ela conta que o trabalho da DNV, além da questão da certificação, é também fazer análises de risco, tanto técnicos, como financeiros, por se tratarem de "projetos bastante complexos".
A representante do Governo do Estado destaca também a conversa com representantes da empresa japonesa Shizen, que possui dois projetos no Ceará em fase de licenciamento ambiental.
Dos representantes brasileiros, Roseane ressalta o estreitamento de relações com os estados do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, que, juntamente com o Ceará, são os que têm o maior potencial para aproveitamento de energia eólica offshore.
Além disso, ela fez contato com uma empresa oceânica do Rio de Janeiro, que fornece serviços atualmente para plataformas offshore de petróleo e possui a intenção de se tornar fornecedora de serviços para os parques eólicos offshore.
Hidrogênio Verde
Bernardo Santana, diretor de Regulação do Sindicato das Indústrias de Energia e Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia-CE), afirma que a energia eólica offshore fará mais sentido no Brasil e, consequentemente, no Ceará, quando estiver conectada ao Hidrogênio Verde.
"Assim, o que falta para tornar as eólicas offshore uma realidade é mais trabalho para destravar os investimentos no hub de Hidrogênio Verde do que qualquer outra coisa", analisa.
Santana considera válido o esforço do Estado em manter o diálogo com possíveis investidores, destacando que estamos falando de praticamente 20% dos projetos de eólica offshore do Brasil localizados no litoral cearense.
Segundo ele, é muita coisa projetada para ser instalada nos próximos anos. A tecnologia existe, mas ainda é muito cara e não avança no Ceará e no Brasil porque ainda há muito espaço em terra para projetos de energia eólica.
O diretor observa que outros países, como Reino Unido, Dinamarca e Noruega, partiram para o mar em busca de ventos quando já não havia mais áreas disponíveis em terra.
Ele ressalta que havia a expectativa de uma expansão da energia eólica offshore, assim como dos investimentos em hidrogênio verde, na segunda metade desta década.
No entanto, o mercado já não demonstra o mesmo otimismo, e a projeção foi adiada para 2030.
Infraestrutura e curtailment
Conforme o professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Raphael Amaral, é válido que o Estado continue a movimentação em busca de investimentos futuros na área de eólica offshore, "apesar de ainda ser uma realidade distante".
Ele atribui isso ao fato de ainda existir "muito potencial de instalação no continente (onshore)", o que seria economicamente mais barato.
Além disso, outra barreira para esses projetos seria a falta de infraestrutura para escoar a energia que está sendo gerada e os chamados cortes de geração.
Amaral reforça que os maiores problemas no setor de energias renováveis são a demora na construção da infraestrutura necessária para o escoamento, além da falta de antecipação dos órgãos responsáveis em relação aos projetos apresentados.
"Porque o grande problema da energia elétrica é que não se consegue armazenar energia elétrica na forma de energia elétrica. Ou vai armazenar energia química nas baterias, ou através da energia química do hidrogênio verde, ou em outras formas de energia", pondera,
"Mas, se eu gerei energia elétrica, ou eu a consumo instantaneamente, através das demandas dos consumidores. Aqui está o nosso gargalo", completa.
O especialista também aponta que é necessária uma aceleração no processo de leilões de armazenamento de energia, promovidos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
De acordo com ele, é necessário "conseguir atender à demanda existente e aos investimentos para o nosso estado, gerando renda e promovendo uma mudança econômica e social".
Projetos sem licença
Questionado, o Ibama informou, por meio de sua assessoria de comunicação, que até o momento não foram emitidas licenças para projetos eólicos offshore no Ceará.
Apenas o Rio Grande do Sul (RS) tem mais projetos do que o Ceará. Lá, são 31 pedidos em análise.
Ao todo, são oito os estados brasileiros com interesse em explorar essa captação de energia. Além do Ceará e do RS, estão Espírito Santo, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Santa Catarina.
O Ibama informou que está sendo realizada uma revisão de todos os projetos já apresentados e do interesse dos proponentes em mantê-los abertos.
"Em breve, o mapa será atualizado, podendo haver redução no número de projetos", diz a nota do Ibama.