Por que a dona do TikTok comprou fatia da Casa dos Ventos em data centers de R$ 571 bi no Ceará?

Entenda o que está por trás dessa aquisição e o impacto para a economia local.

Escrito por
Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
Imagem de um posto com o letreiro azul e letras brancas indicando
Legenda: A Zona de Processamento de Exportação (ZPE), instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), receberá pelo menos cinco data centers.
Foto: Fabiane de Paula.

A ByteDance, companhia chinesa dona do TikTok, foi autorizada a adquirir as ações da Casa dos Ventos (CDV) referentes à empresa ExportData Company I S.A., responsável pela construção de um conjunto de cinco data centers no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp).

O investimento total previsto para os empreendimentos do chamado Green Digital Hub (Polo Digital Verde, em tradução livre) é de R$ 571 bilhões.

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Ao longo desta semana, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e o Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) autorizaram, sem necessidade de recursos contrários, a aquisição das ações da ExportData Company por parte da ByteDance.

No Cade, o processo se desenrolou em menos de um mês. Após a entrada do pedido para a compra das ações, em 12 de dezembro de 2025, o processo foi analisado pelo Conselho, e a decisão favorável foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última segunda-feira (5).

Já o parecer positivo da CZPE saiu no DOU na quinta-feira (8).

O que está por trás dessa compra?

O complexo de data centers no Pecém foi criado, na visão de especialistas, como uma solução de demanda mais rápida do que os empreendimentos de HIdrogênio Verde, que ainda não começaram a sair do papel, para a crescente oferta por energia na região.

Essa análise é compartilhada por Eduardo Tude, presidente da Teleco. Para ele, o fato de a ByteDance passar a concentrar as ações da ExportData indica que o uso dos equipamentos será quase que exclusivo da companhia chinesa.

"O data center vai ser basicamente usado pela ByteDance e não por outros clientes. É o que fazem normalmente companhias como Meta (dona do Facebook) e Alphabet (dona do Google): ocupam o data center inteiro. Alguns ainda deixam que alguma empresa grande construa e ficam pagando aluguel", pondera.

Rodrigo Porto, professor titular de telecomunicações da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que se trata de um projeto "maior do que o que se imaginava inicialmente", situação que faz com que a ByteDance queira "ter um controle completo".

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"Ainda que a Casa dos Ventos continue como principal fornecedora de energia, o controle da ByteDance vai dar segurança até mesmo jurídica de a empresa tocar o projeto de acordo com os seus padrões internacionais de qualidade. Nota-se ser um investimento estratégico para a empresa", define o especialista.

"Muda a característica tradicional do Pecém e transforma-o em um polo também digital, com produção de riqueza a nível global, atraindo investimentos de telecomunicações de alta velocidade, inteligência artificial. Já estávamos no mapa de data centers com o hub da Praia do Futuro em Fortaleza, e essas infraestruturas efetivamente nos coloca em destaque", completa Porto.

Cade afirma que não há concorrência para aquisição da empresa

A ByteDance explicou, em um dos formulários apresentados ao Cade, os motivos da compra. A ExportData Company I S.A., definida como a “sociedade-alvo”, foi constituída no início de 2025 a partir de uma parceria entre a dona do TikTok e a Casa dos Ventos, com atuação como exportadora de atividades de processamento de dados na ZPE Ceará.

"A sociedade-alvo não é operacional, não detém ativos e apenas obteve aprovação do CZPE para as atividades que futuramente desenvolverá na ZPE Ceará. Para a compradora, a aquisição da sociedade-alvo é a forma mais rápida de viabilizar o início da exportação de atividades de processamento de dados. Para a CDV, por sua vez, a operação representa oportunidade estratégica para criação de demanda e expansão de seus projetos de geração de energia renovável no Brasil", declara o formulário no Cade.

O posicionamento favorável do conselho afirma que a "operação não gera quaisquer sobreposições horizontais ou relações verticais entre as atividades da ByteDance e aquelas que serão exercidas pela sociedade-alvo no futuro".

O investimento universal no data center da ByteDance gira em torno dos R$ 200 bilhões. Já os outros quatro equipamentos, de propriedade da ExportData, devem receber aporte de cerca de R$ 350 bilhões.

CZPE autoriza mudança com base em legislação específica

Em despacho da decisão assinada pelo presidente do CZPE, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ficou autorizada a mudança de composição societária, acompanhada da mudança da razão social da ExportData.

O conselho aponta não haver "prejuízo da comprovação da regularidade do investimento estrangeiro a ser feito perante o Banco Central do Brasil, e sem prejuízo do projeto aprovado e o enquadramento da empresa no regime de Zona de Processamento de Exportação (ZPE)".

Imagem de um posto com o letreiro azul e letras brancas indicando
Legenda: A Zona de Processamento de Exportação (ZPE), instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), receberá pelo menos cinco data centers.
Foto: Fabiane de Paula.

A nova proprietária da ExportData deverá apresentar, até 8 de abril, a documentação societária atualizada. Apesar da compra das ações e da mudança na razão social da empresa, não está eliminada “a necessidade de atendimento às exigências de outros órgãos reguladores da Administração Pública e da atividade econômica”.

Em novembro do ano passado, o CZPE aprovou a instalação dos cinco data centers na região da ZPE Ceará. A expectativa é que as obras do primeiro equipamento comecem ainda neste mês de janeiro e que ele entre em operação já em 2027.

ExportData, CDV DC I e mais data centers na mira de investidores

A ExportData Company I S.A. é uma empresa constituída em janeiro de 2025 com sede em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza. Ela tem cadastro no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) como "tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e serviços de hospedagem na internet".

Com atuação na ZPE Ceará, no Cipp, a empresa será a responsável pelos data centers, mas não por construí-los. Esse papel será da Omnia, subsidiária do fundo de investimentos Pátria, que fará o desenvolvimento, construção e operação dos empreendimentos.

Os quatro data centers de propriedade da ExportData no Pecém totalizam cerca de R$ 350 bilhões em investimentos. A ByteDance, que já está investindo aproximadamente R$ 200 bilhões, agora tem responsabilidade integral sobre os empreendimentos.

Processo similar ao da ExportData passou a CDV DC I S.A., empresa resultado da parceria entre a Casa dos Ventos e a Omnia. A subsidiária do fundo de investimentos também comprou todas as ações, em processo aprovado pela CZPE e publicado no DOU na última quinta-feira.

Foto que contém a ZPE Ceará.
Legenda: Área II da ZPE Ceará será destino dos data centers.
Foto: Cipp/Divulgação.

A reportagem procurou a Casa dos Ventos, a Omnia e a ByteDance em busca de informações sobre a venda das ações das empresas envolvidas na construção do Green Digital Hub.

Por meio da assessoria de imprensa, a Casa dos Ventos se limitou a informar que "é fornecedora exclusiva de energia para o projeto" dos data centers da ByteDance e da ExportData e afirmou que "não irá abrir valores" envolvidos na transação de compra das ações.

Omnia e ByteDance não responderam aos questionamentos até a publicação desta matéria. Quando houver retorno, este texto será atualizado..

 

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