Será o Brasil o país da corrupção e dos penduricalhos?
Há um sentimento de frustração, decepção e tristeza na sociedade brasileira diante do comportamento da elite política do país, cujas instituições foram corrompidas
Impressiona o crescente volume de notícias que tratam da corrupção no Brasil, uma endemia que se incrustou no país desde quando, em 1.500, Pero Vaz de Caminha, o escrivão da corte portuguesa – dando conta da descoberta de uma terra bonita por natureza, santa e abençoada – incluiu na sua carta ao Rei Dom Manoel o pedido de emprego para o seu genro. O que mais surpreende no Brasil de hoje são as constantes novidades do noticiário, como a de ontem, que envolveu uma parlamentar cearense no caso do INSS, escândalo de R$ 6,5 bilhões surrupiados de aposentados e pensionistas durante o período de 2016 a 2024. E mais o detalhe de que ela já está usando na perna uma tornozeleira eletrônica, apetrecho que passou a tisnar, de uns recentes tempos para cá, a estética dos que praticam o malfeito na política e fora dela.
Este país atravessa uma gravíssima crise política, econômica, financeira, social, cultural e... moral. Quem poderia imaginar que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) estariam envolvidos, direta ou indiretamente, em casos de corrupção? Seria o fim do mundo, diriam nossos avós, para os quais a Suprema Corte deveria ser o endereço sacrossanto dos acima de qualquer suspeita. Não é mais, e é isto que entristece, decepciona, desengana, frustra e desencanta os homens e mulheres de bem, e estes ainda são a maioria e, também, a luz no fim do túnel da esperança, graças a Deus.
Corte rápido para a economia: hoje, por volta das 18h30, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central comunicará a nova taxa de juros Selic, que desde junho do ano passado permanece estacionada no degrau de 15% ao ano. O mercado está dividido: a maioria dos seus operadores aposta numa redução de 0,25 ponto percentual, a minoria estima que esse corte será de 0,50 ponto percentual, mas há os que admitem que o Copom manterá inalterada a taxa atual, tendo em vista a gravidade do cenário bélico no Oriente Médio, o que fez explodir de US$ 66 para US$ 100 o preço internacional do barril de petróleo, ambiente propício para o incremento da inflação por causa do consequente aumento dos preços dos combustíveis no mundo todo – o Brasil no meio.
Corte para as ameaças externas à segurança do Brasil: acendeu a luz vermelha no sistema de defesa do país, que, segundo opinião do tenente brigadeiro Batista Júnior, ex-comandante da FAB, externada em entrevista ao Estadão, enfrenta deterioração gradual de sua capacidade militar. A modernização das Forças Armadas exige altos e imediatos investimentos, mas, neste momento, não há dinheiro disponível.
Reparem: 60% do Orçamento Geral da União estão comprometidos com o pagamento dos aposentados e pensionistas do INSS (Previdência) e com a folha do pessoal da ativa dos três poderes. Com o pagamento dos juros da dívida pública, o governo gasta 40% do seu Orçamento. Só aí, temos 100%. De onde vem o dinheiro para a saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, ciência, tecnologia etc etc? Vem do agiota, que, em contrapartida, cobra juros cada vez mais altos. Em 2025, o Brasil gastou com juros da dívida R$ 1,050 trilhão, ou 7% do seu PIB. Jamais haverá um superávit primário dessa grandeza. Para evitar o caos que se aproxima, só há uma saída – não há outra: a radical e profunda redução dos gastos governamentais, como está fazendo a Argentina de Javier Milei, literalmente debaixo de pau e pedra.
O estado brasileiro é paquidérmico, ineficiente, arrecada muito e gasta muito mais para sustentar uma casta privilegiada assentada no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, nos quais pululam os já denominados penduricalhos. Que futuro pode ter um país de penduricalhos? Parte dos integrantes das instituições que poderiam resolver este dilema encontra-se neste momento, infelizmente, enredada no lamaçal da corrupção.
Pelo que já se sabe de um pouco que a Polícia Federal apurou dos escândalos do INSS e do Banco Master, está muito fácil de chegar aos seus responsáveis e aos que, com eles, nos três poderes, permitiram que tudo acontecesse como aconteceu e está a acontecer. No caso do Master, está identificado e preso o cabeça do esquema, de cujo telefone celular vazaram as informações e as provas necessárias à identificação da extensa lista de corrompidos.
Como, todavia, tudo isso mexe com gente importante do andar de cima da pirâmide social brasileira, há dúvidas, muitas dúvidas e ainda maiores desconfianças de que, como aconteceu na Operação Lava Jato, tudo no INSS e no Banco Master termine em pizza. O primeiro sinal já foi dado: parlamentares integrantes da CPMI do INSS permitiram, talvez de propósito, o vazamento de conversas íntimas de Daniel Vorcaro e sua noiva.
A divulgação dessas conversas é vetada pela lei. Teme-se, por isto, que todas as investigações feitas pela Polícia Federal sejam consideradas nulas. E quem as considerará nulas? A Suprema Corte, o STF. E assim, “se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, como escreveu o príncipe italiano Giuseppe Tomasi di Lampadusa no seu livro “Il Gatopardo”.
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