Como a chegada do 99Food muda o mercado de delivery no Ceará?
O player estreou em Fortaleza na última semana.
A chegada do aplicativo 99Food ao Ceará aquece o mercado local e gera a expectativa de redução nas taxas de serviço. O movimento deve forçar as plataformas que já atuam na região a buscarem a retenção da clientela diante da nova concorrência, entre outros reflexos no setor de delivery regional.
O player estreou em Fortaleza na última semana com um aporte de R$ 100 milhões. A estratégia utiliza descontos agressivos e incentivos financeiros aos entregadores como forma de atrair e consolidar ambos os públicos.
A atuação no Estado começou pela Capital, que se tornou a cidade com melhor estreia do 99Food no Brasil em número de pedidos e acessos.
Em uma semana, o raio de cobertura se expandiu para a Região Metropolitana, como Caucaia, Eusébio e Maracanaú. Novas regiões do Ceará devem receber a modalidade ainda este ano, destacou Bruno Rossini, diretor de Comunicação da 99 no Brasil, durante coletiva de imprensa na manhã dessa terça-feira (17).
A companhia espera chegar a 100 cidades até junho e já opera em grandes capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.
A estratégia para abocanhar a fatia do iFood
No Estado e a nível nacional, a 99 tem como desafio a concentração do serviço de entrega pelo iFood, que detém mais de 80% do mercado de delivery.
Como diferencial para os restaurantes, a empresa aposta na grande base de clientes, que já utilizam os serviços de transporte da 99 por carro ou moto. Em todo o Brasil, são 55 milhões de usuários.
A modalidade de delivery está presente em uma aba do aplicativo já consolidado para transportes, assim como a aba 99 Pay (fintech que oferece contas de pagamento e serviços financeiros).
Fortaleza já tem 4.500 restaurantes aptos a operar na plataforma e 10 mil entregadores parceiros que podem realizar entregas de comida, além das habituais corridas com passageiros.
"O foco principal é o desenvolvimento e crescimento do tamanho de mercado. Se a gente pensar em economicamente ativos com acesso à internet, existem barreiras para esses brasileiros não pedirem mais pelos apps, e a gente vem derrubando essas barreiras com nossa tecnologia", elenca Bruno Rossini.
Entre as promessas está a oferta de menores taxas para clientes, menor comissão retida pela plataforma e benefícios aos entregadores parceiros.
Expansão do delivery impulsiona pequenos negócios
O crescimento do mercado de entrega atende à alta demanda dos consumidores e à necessidade de pequenos estabelecimentos de fast food, que não têm condição de ter operação própria de delivery, destaca Christian Avesque, especialista em comércio e varejo e professor da Faculdade CDL.
"Nós temos em Fortaleza um fortalecimento daquelas dark kitchens, que são restaurantes que não têm salão, só a cozinha e a parte de entrega. Eles podem ter um aumento de produção e ter mais vendas por esses canais", projeta.
Para construir um modelo de negócio bem-sucedido, as novas plataformas de delivery devem investir em ferramentas de inteligência artificial que estimulem o hábito de compra e customizem ofertas para cada perfil, destaca o especialista.
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As campanhas de lançamento da plataforma incluem descontos agressivos, que chegam a 60% de abatimento nos primeiros pedidos, e taxa de entrega grátis.
Há também incentivo financeiro para estimular a rede de motoristas parceiros. A companhia deve trazer um mecanismo já realizado em outras cidades, que dá um bônus ao motorista que realizar 20 corridas por dia, sendo 5 de entrega de comida.
O valor deve completar a diferença para um ganho de R$ 250 por dia. Essas estratégias são viabilizadas pelo orçamento previsto de R$ 100 milhões para o primeiro ano de atuação no Ceará, que também abrange campanhas de marketing.
Restaurantes esperam redução de custos
O segmento de restaurantes espera que o novo player viabilize um reequilíbrio do mercado, com redução das taxas para operação nas plataformas. É o que aponta Taiene Righetto, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-CE).
"Pode trazer mais opções para os restaurantes, mais ofertas para os consumidores e mais oportunidades para os entregadores. É natural também que, nesse início, haja uma estratégia agressiva de entrada, com muitos cupons e promoções para atrair usuários e estabelecimentos", comenta.
Taiene chama atenção para a concentração do mercado existente, com diversos acordos de exclusividade de restaurantes com o iFood. Esse mecanismo acaba limitando, segundo o empresário, a entrada de novos investidores.
"Vemos discussões sobre antecipação de renovações contratuais e o uso de cláusulas de investimento para estender prazos de exclusividade. Isso levanta um questionamento: ou as medidas de defesa econômica não estão sendo suficientes, ou novas ações regulatórias podem ser necessárias", comenta o presidente.
O ambiente aberto para novas plataformas tem ganhos para os restaurantes, clientes e também para os entregadores, segundo Righetto.
A 99 tem fechado com estabelecimentos acordos de semiexclusividade, em que os restaurantes podem operar com a plataforma e com o principal concorrente, iFood.
Essa foi a maneira de agregar ao portfólio do aplicativo grandes redes, como Burger King e McDonald's, que viabilizam rapidamente a recorrência de visitas dos clientes. Além disso, traz proteção a outras plataformas que queiram entrar no mercado.
"São acordos de curta duração, de dois anos em média, que nos permitem continuar trabalhando com aqueles restaurantes para depois devolver um mercado muito mais sólido. Porque se o restaurante já tem acordo com a plataforma líder, essa plataforma pode chegar e pedir que não trabalhe com mais ninguém", afirma Bruno Rossini, diretor de comunicação da 99.
Sobre a exclusividade, o iFood informou que não divulga o número e que essa prática é regulada pelo Termo de Compromisso de Cessação (TCC) assinado com o Cade em 2023.
“Em cidades com mais de 500 mil habitantes, como Fortaleza, o iFood pode ter no máximo 8% de restaurantes exclusivos; ou seja, 92% estão livres para fechar contratos com qualquer plataforma”, disse.
A empresa frisou que não pode firmar exclusividade com grandes redes que tenham mais de 30 unidades (McDonald's, Burger King, Habib's etc.).
“O TCC demonstrou que a exclusividade não era nosso motor de crescimento. O iFood se adaptou às regras e continuou crescendo com base em inovação, eficiência e profundo conhecimento do mercado brasileiro, atingindo 180 milhões de pedidos por mês e 65 milhões de clientes”, garantiu.
ENTREGADORES ESPERAM CONTINUIDADE DE INCENTIVOS
A empresa recém-chegada em Fortaleza tem chamado atenção dos profissionais pelo valor pago por quilômetro rodado, segundo Rony Silva, vice-presidente da Associação dos Motoqueiros, Trabalhadores por App e Similares do Estado do Ceará (Amot-CE).
"Chegou com valor alto de corrida, sem constrangimentos de bloqueio de motorista. Mas a nossa preocupação é se isso vai continuar ou vai ser como as outras plataformas, que chegam bem, pagando de forma justa, mas, com o tempo, diminuem os ganhos e sucateiam nosso trabalho", pondera.
O representante da categoria alerta para as condições difíceis que vivem os profissionais, já que os gastos com manutenção e gasolina aumentam constantemente, ao contrário da remuneração por corridas.
A 99 admite, entretanto, que as taxas repassadas aos profissionais parceiros devem diminuir após o período de estabilização da empresa na cidade.
"Mas a gente está falando de um nível de competitividade diferente do que tinha antes. Se eu sou a única plataforma da cidade, eu posso praticar o que quiser. Com a entrada da 99, o mercado tende a se movimentar, então acredito que vai continuar havendo outros tipos de campanha de incentivo", pondera Bruno.
A empresa quer atrair os profissionais com promessa de entregas com raios de distância de reduzidos e prazo de até 30 minutos, além de softwares que permitam mais acurácia das estimativas de preparo nos restaurantes.
O posicionamento do iFood sobre a concorrência
Em nota, o iFood informou que mantém o compromisso de oferecer suporte a entregadores, restaurantes e consumidores em Fortaleza e em todo o Ceará.
A companhia atribui sua posição no mercado à eficiência, à inovação e aos investimentos de longo prazo realizados na região.
Segundo a empresa, suas atividades no Ceará movimentaram R$ 1,3 bilhão do PIB estadual em 2024 (o equivalente a 0,52% do total) e foram responsáveis pela geração de 32 mil postos de trabalho no estado.
Sobre a relação com os entregadores, a plataforma afirmou aplicar reajustes sistemáticos nas taxas mínimas e oferecer benefícios como seguros gratuitos e pontos de apoio.
Quanto à chegada de novos competidores, a empresa declarou considerar natural a existência de ofertas iniciais atrativas, mas pontuou que crescimentos baseados apenas em subsídios podem não ser sustentáveis.
O iFood reforçou que seu foco é o desenvolvimento do setor de forma equilibrada e a geração de oportunidades permanentes.