Economia Azul no Ceará: a hora é de criar novas indústrias

Encerrado ontem, a Ocean Summit 2026, promovida pela Fiec, deixou bons desafios, um dos quais é o de produzir e beneficiar algas marinhas

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
Legenda: Participantes do Ocean Summit 2026, promovido pela Fiec, posam para foto ao final do evento, ontem, 9, na Casa da Indústria
Foto: Egídio Serpa
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Criar novas indústrias e mudar as regras do jogo – este foi o desafio que ficou do Ocean Summit 2026, encerrado ontem na Fiec após dois dias de intensos debates sobre a Economia Azul, ou Economia do Mar, que é a forma de explorar, de modo sustentável, as riquezas dos oceanos.  

O desafio foi exposto pelo belga Gunter Pauli, que, durante quase duas horas, ampliou a palestra que fizera na véspera, abordando, porém, mais detalhadamente as virtudes da produção e do beneficiamento das algas marinhas, que no Ceará têm o ambiente ideal para o seu desenvolvimento agrícola e industrial. 

Falando para um auditório cheio de empresários, doutores, mestres, doutorandos e mestrandos dos vários cursos acadêmicos ligados às atividades da Economia do Mar, incluindo o de engenheiro de pesca, Pauli disse que em Zanzibar, na Tanzânia, ele e sua empresa desenvolveram um projeto que hoje mobiliza 20 mil mulheres que vivem com boa renda obtida da coleta, lavagem e secagem das algas que se espalham as praias, como aqui no Brasil. O projeto avançou e agora esse contingente feminino produz algo inacreditável: multiplica por cem as dez gramas de mudas de algas cultivadas em áreas de pântano, para o que utilizam cordas de nylon nas quais as mudas são estendidas e crescem.  

No Japão, o cultivo de algas igualmente cresce porque elas servem, também, à alimentação de camarões criados em cativeiro. No Vietnã, adiantou Gunter Pauli, as algas misturadas com fertilizantes reduzem em 70% as necessidades de água para o cultivo de arroz. Na Indonésia, disse ele, 1 milhão de pessoas estão empregadas hoje na produção de algas marinhas, que são exportadas para vários países do mundo, onde, industrializadas, são utilizadas na fabricação de alimentos. 

“Na Ásia, já temos indústria têxtil produzindo bons tecidos com fibra de alga marinha. Hoje, as fibras de algodão e de nylon ainda tomam conta da indústria têxtil e de confecções, mas a fibra do futuro, podem apostar, terá, como já têm, origem nas algas marinhas”, afirmou Gunter Pauli, arrancando suspiros de surpresa e entreolhares do muito atento e silencioso auditório. 

No encerramento de sua fala, o cientista e empresário belga disse, com outras palavras, algo ainda mais surpreendente: 

“Neste momento, desenvolve-se na China, por decisão do seu governo, um projeto que mobiliza 40 milhões de crianças, por ano. Eles estão, simplesmente, aprendendo a mergulhar. A cada ano, a China formará um exército de 40 milhões de mergulhadores que, com certeza, cultivarão com algas marinhas o fundo do mar e farão ainda coisas maiores relacionadas à Economia Azul. Daqui a 10 anos, a China terá 400 milhões de jovens mergulhadores.” 

ECONOMIA AZUL UNE JOVENS DOUTORES CEARENSES NA FIEC 

Ontem, durante toda a tarde, a programação do Ocean Summit 2026 ocupou vários espaços da Casa da indústria com rodadas de negócios e verdadeiras aulas acerca dos vários aspectos da Economia Azul. Um deles foi acompanhado por este colunista, o que tratou da Bioeconomia Azul e Valorização de Recursos Biológicos Marinhos.  

Realizado numa das amplas salas do Observatório da Indústria, braço tecnológico da Fiec, o evento teve a presença física do português Miguel Marques, a voz mais ouvida e respeitada da Economia do Mar no seu país. Ele resumiu a história do seu esforço para juntar grandes empresas portuguesas, que estão hoje a financiar grandes projetos de exploração sustentável dos recursos marinhos, e referiu-se ao que chamou de excelente relação com a Fiec e o seu presidente Ricardo Cavalcante, que no ano passado, em novembro, promoveu uma Missão Empresarial ao seu país, exclusivamente destinada ao estudo da Economia Azul. 

Por vídeo conferência, a professora Teresa Mouga, da Universidade de Leiria Oeste, em Portugal, participou da programação e expôs o que sua instituição vem fazendo para implementar estudos e pesquisas destinados a orientar investimentos privados na Economia Azul. 

O que mais surpreendeu Miguel Marques foi a presença de jovens doutores, mestres, doutorandos e mestrandos da Universidade Federal do Ceará, inclusive do seu Laboratório do Mar Labomar), os quais, ao se apresentarem, declararam-se felizes por participar do Ocean Summit, parabenizando a Fiec pela iniciativa, que, aliás, se realizou coincidindo com o Dia Mundial dos Oceanos, celebrado na segunda-feira, 8. 

Miguel Marques disse aos acadêmicos que, quando imaginou tornar realidade o seu sonho de implementar a Economia Azul em Portugal, fê-lo movido pela palavra esperança. Ele se perguntou se havia, em Portugal e no Ceará, empresários dispostos a investir na Biotecnologia Azul. E perguntou aos seus botões: “Será que haverá uma coluna vertebral de pequenos, médios e grandes empresários disposta a enfrentar esse desafio? Hoje, sinto-me feliz porque a resposta à minha pergunta veio em pouco tempo: grandes empresas do meu país juntaram-se e hoje financiam os nossos projetos. E acho que isto acontecerá, também, aqui no Ceará”.

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